Futuro do Hamas à imagem do Hezbollah? Trump tenta salvar o plano de paz mas Israel quer “libanizar” Gaza

Um dia depois de regressar do Médio Oriente, onde prometeu um “novo amanhecer” perante a Knesset e liderou uma cimeira no Egito, o presidente norte-americano Donald Trump apelou a que o seu plano de paz para Gaza não fosse esquecido.

Pedro Gonçalves
Outubro 23, 2025
10:39

Um dia depois de regressar do Médio Oriente, onde prometeu um “novo amanhecer” perante a Knesset e liderou uma cimeira no Egito, o presidente norte-americano Donald Trump apelou a que o seu plano de paz para Gaza não fosse esquecido. Com a trégua em vigor, embora ainda frágil, Trump publicou na sua rede social: “A segunda fase começa já!!” — uma mensagem que pretendia reanimar um processo em risco de colapso.

Mas nem Israel nem o Hamas mostraram capacidade para respeitar a primeira parte do acordo. O grupo palestiniano regressou à violência nas ruas da Faixa de Gaza, enquanto Benjamin Netanyahu ameaçava relançar a ofensiva caso não recuperasse os corpos dos últimos reféns israelitas. Menos de 24 horas após a publicação de Trump, o cessar-fogo foi violado: Israel acusou o Hamas de disparar contra as suas tropas e respondeu com um ataque aéreo, segundo fontes oficiais citadas pelo El Confidencial. O grupo palestiniano denunciou, entretanto, a morte de 97 pessoas e o bloqueio da ajuda humanitária através do posto fronteiriço de Rafah.

Perante a escalada, Trump reagiu com veemência, ameaçando “erradicar” o Hamas através das redes sociais. Paralelamente, enviou reforços diplomáticos a Israel, incluindo o seu conselheiro e empresário Steve Witkoff e o genro Jared Kushner, cuja presença — uma semana após a visita presidencial — foi vista por observadores como um gesto de pressão sobre Netanyahu. A jornalista norte-americana Lesley Stahl, do programa 60 Minutes, resumiu o objetivo da missão como uma forma de “Bibi-sitting”, numa referência irónica ao apelido do primeiro-ministro israelita.

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, também chegou a Telavive com uma mensagem de prudência. “Vai levar algum tempo”, declarou Vance durante o encontro com Netanyahu, em alusão aos corpos de reféns ainda retidos pelo Hamas. “É difícil. Não vai acontecer de um dia para o outro. Alguns estão soterrados sob toneladas de escombros. De outros, nem se sabe onde estão”, acrescentou. O vice-presidente veio igualmente transmitir uma mensagem incómoda da Casa Branca, após membros do governo israelita terem defendido publicamente o retomar das operações militares.

De acordo com o New York Times, a administração Trump teme que Israel abandone o plano presidencial, que prevê a criação de uma força internacional de estabilização para desmilitarizar Gaza e de um comité “tecnocrático e apolítico” responsável pela governação da Faixa. Durante a reunião de quarta-feira, Netanyahu rejeitou de imediato o papel da Turquia — um dos países garantes da iniciativa — nessa força internacional. “Tenho opiniões muito firmes sobre isso. Consegue adivinhar quais são?”, ironizou o primeiro-ministro perante Vance.

Enquanto em Israel se evita falar numa “segunda fase” da trégua, analistas questionam o que poderá acontecer a Gaza se a atual situação se prolongar. O Hamas, que aceitou apenas os primeiros seis pontos do plano de Trump e recusa entregar as armas sem o reconhecimento de um Estado palestiniano, pode evoluir para uma estrutura semelhante à do Hezbollah no Líbano. A milícia libanesa, que assinou um cessar-fogo com Israel em novembro passado, continua armada e sob ataques quase diários. Para Mona Yacoubian, do Center for Strategic and International Studies, o cenário libanês é um “less-fire”, ou “menos fogo”, em vez do cessar-fogo pleno que se esperava. “Esse modelo de guerra de baixa intensidade poderia aplicar-se a Gaza, permitindo a Israel atacar sempre que considerasse existir uma ameaça, sem reabrir o conflito total”, explicou.

Segundo o jornalista Yoshi Yehoshua, do diário israelita Yedioth Aharonoth, o chefe do Comando Sul do Exército, Yaniv Assor, afirmou durante uma visita a manifestantes que pretende “libanizar” o conflito em Gaza — uma estratégia que manteria o Hamas enfraquecido, mas funcional. Fontes de segurança israelitas indicam que o grupo ainda dispõe de cerca de 20 mil combatentes ativos, metade da sua força antes da guerra, e começou a recrutar novos membros, “embora com formação deficiente”, segundo a televisão pública hebraica.

O governo israelita teme que, durante a trégua, o Hamas consiga reorganizar-se militarmente, e por isso pediu a Washington que suspenda os planos de reconstrução civil em Gaza. Contudo, um relatório recente do International Crisis Group alerta que a manutenção indefinida da primeira fase do cessar-fogo deixaria o território “dividido e empobrecido, com metade sob controlo direto de Israel e a outra dependente de ajuda internacional limitada, enquanto o Hamas continua a governar”. O estudo acrescenta que, sem avanços políticos, “é improvável que os combatentes palestinianos cessem totalmente as suas atividades”.

O impasse ameaça perpetuar uma guerra sem fim. Segundo Kobi Niv, colunista do Haaretz, “se o cessar-fogo ficar preso onde está, o vazio será preenchido novamente pelo Hamas”. Para cumprir as exigências israelitas, o grupo precisaria de garantias de sobrevivência política — algo que, segundo o think tank Rand Corporation, levou outros movimentos armados a transformarem-se em partidos políticos. O relatório “How Terrorist Groups End” (2008) recorda que, desde 1968, a força militar raramente conseguiu eliminar grupos desse tipo, seja na Irlanda do Norte, na Colômbia ou na África do Sul.

Por enquanto, contudo, a realidade parece encaminhar-se para o que os analistas chamam de “guerra perpétua com trégua intermitente”, um cenário que favorece Israel no curto prazo, mas deixa o futuro político de Gaza — e o destino do plano de Trump — mais incertos do que nunca.

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