Entre janeiro e março de 2014, José Sócrates terá gasto 75 mil euros provenientes de um crédito contraído na Caixa Geral de Depósitos (CGD). A informação foi revelada esta terça-feira, durante mais uma sessão do julgamento da Operação Marquês, pela antiga gestora de conta do ex-primeiro-ministro, Dina Alexandre. De acordo com o Correio da Manhã, a audição da gestora concentrou-se nos detalhes da gestão financeira de Sócrates, acusado de mais de 20 crimes, incluindo três de corrupção passiva.
A testemunha explicou em tribunal que chegou a fazer “alguma sistematização das despesas” do ex-governante, para o ajudar a perceber que “dali não passava”, tal era o descontrolo das suas finanças pessoais. Segundo relatou, Sócrates ficou surpreendido ao saber que a sua conta apresentava saldo negativo, apesar de auferir dois salários mensais: 12.500 euros da empresa Octapharma e outro tanto da Dynamicspharma.
Em escutas telefónicas reproduzidas em tribunal, o antigo chefe do Governo mostrou-se indignado com a situação financeira. Dina Alexandre explicou-lhe que, entre a prestação do carro, uma transferência de cinco mil euros para a ex-mulher, Sofia Fava — também arguida —, ajuda ao filho e outras despesas regulares, Sócrates gastava cerca de 15 mil euros por mês. Noutra conversa, sem acesso a plataformas digitais, o ex-primeiro-ministro ligou à sua gestora de conta para saber o saldo bancário e desabafou sobre os impostos: “Tenho de pagar o meu IRS e fiquei um bocado boquiaberto. Acho que começo a passar para o outro lado… acho que o Estado nos rouba de forma violenta. Tenho de pagar 40 e tal mil euros.”
Além do montante gasto, o tribunal apurou que José Sócrates tinha três empréstimos na CGD: um de 75 mil euros, outro de 40 mil e um terceiro de 30 mil euros. Depois de ter sido detido, em novembro de 2014, Sócrates liquidou esses créditos através da venda de um imóvel.
Durante a sessão, ficou ainda registado que o ex-governante dispunha de dois cartões de crédito, embora a gestora bancária não se recordasse dos respetivos limites. A audiência foi marcada pela ausência de duas testemunhas, Lígia Correia e Célia Tavares — amigas próximas de Sócrates —, que não compareceram no Campus de Justiça. Segundo o tribunal, ambas não foram notificadas com sucesso, apesar das tentativas através de cartas registadas.
O Correio da Manhã apurou que, de acordo com a acusação, Lígia Correia, atual companheira do antigo primeiro-ministro, organizava convívios e viagens para o círculo de amigas de Sócrates, entre as quais Sandra Santos, uma cabo-verdiana residente na Suíça que o visitava com frequência em Portugal. Já Célia Tavares, que também beneficiou de ajudas financeiras do ex-governante, terá feito mais de dez viagens entre Portugal e França, levando milhares de euros para entregar ao amigo que, segundo as investigações, até as propinas lhe pagava.
As escutas telefónicas reveladas no julgamento mostram ainda que Maria Adelaide Monteiro, mãe de José Sócrates, pedia repetidamente dinheiro ao filho para despesas do quotidiano, como cabeleireiro ou roupa — um contraste com a alegada fortuna que o antigo primeiro-ministro afirmava que a mãe teria herdado. Maria Adelaide, que vendeu três imóveis ao amigo e alegado testa de ferro Carlos Santos Silva por um total de 775 mil euros, deverá testemunhar no próximo dia 30.
José Sócrates, que pediu para ser dispensado das sessões de julgamento, não tem comparecido ao tribunal. O processo, que se arrasta há vários anos, continua a revelar pormenores sobre o estilo de vida e as movimentações financeiras do antigo governante, cuja gestão pessoal de dinheiro está agora sob intenso escrutínio judicial.














