O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy começou esta terça-feira a cumprir uma pena de cinco anos de prisão em La Santé, em Paris, após ter sido condenado por conspiração criminosa no caso relacionado com o alegado financiamento da sua campanha eleitoral pelo regime de Muammar Kadhafi. Aos 70 anos, Sarkozy torna-se o primeiro ex-chefe de Estado francês a ser encarcerado desde o marechal Philippe Pétain, colaborador do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao deixar a sua residência em Paris, acompanhado pela mulher, Carla Bruni-Sarkozy, o ex-presidente declarou aos jornalistas: “Um homem inocente está a ser trancado.” A frase marcou o início de um dia histórico em França, com apoiantes reunidos à porta de sua casa segurando bandeiras com frases como “Coragem Nicolas, volta depressa” e “A verdadeira França com Nicolas”.
A sentença, anunciada no final de setembro, permite a Sarkozy apresentar um pedido de libertação condicional apenas após estar formalmente detido. O tribunal de recurso terá então até dois meses para analisar o pedido.
Enquanto aguarda a decisão, o antigo presidente francês passará os dias numa cela de 11 metros quadrados equipada com um pequeno fogão, secretária, duche e sanita. Por 14 euros mensais, poderá ter acesso a um televisor, além de poder utilizar a biblioteca e o ginásio da prisão.
Apesar das circunstâncias, Sarkozy não pretende afastar-se da escrita. Segundo revelou ao jornal Le Figaro, planeia escrever um novo livro durante o tempo em que permanecer detido. E levou consigo três obras para o acompanhar – o número máximo permitido aos reclusos: os dois volumes de “O conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, e uma biografia de Jesus Cristo escrita por Jean-Christian Petitfils.
A escolha literária não é inocente. O romance de Dumas, publicado em 1846, conta a história de Edmond Dantès, um homem injustamente preso durante 14 anos que, após escapar, planeia a sua vingança. O paralelismo é evidente: Sarkozy, que sempre proclamou a sua inocência, parece encontrar no protagonista uma espécie de espelho simbólico da sua própria situação. O herói de Dumas é, afinal, “o mais célebre inocente injustamente condenado da literatura francesa”.
O segundo título, “Jesus”, publicado em 2011, é uma biografia minuciosa escrita por Petitfils, historiador e autor conhecido pelas suas obras sobre figuras históricas e religiosas. Nesta biografia, o autor traça um retrato de Cristo assente em fontes históricas e investigação académica, distanciando-se de narrativas puramente teológicas.
Se a escolha de Dumas reflete a sensação de injustiça, a de Petitfils parece traduzir uma procura de serenidade e reflexão espiritual. “Mais uma escolha simbólica, mas que, talvez, sirva de antídoto a qualquer impulso de vingança à la Edmond Dantès”, comentou ironicamente o jornalista David Mouriquand, autor do artigo publicado pela Euronews.
Enquanto Sarkozy se prepara para o início da sua vida atrás das grades, as suas opções literárias — que os analistas classificam como “altamente simbólicas” — revelam um misto de resistência, introspeção e, talvez, desejo de redenção.














