Mistério em torno da morte de Odair Moniz: Vídeo mostra que punhal apareceu 27 minutos depois do tiro da PSP

Um novo vídeo veio relançar as dúvidas sobre o caso de Odair Moniz, o cidadão cabo-verdiano morto há um ano por um agente da PSP, na Cova da Moura. As imagens mostram que o punhal usado como justificação para o disparo só surgiu no local quase meia hora depois do tiro fatal.

Revista de Imprensa
Outubro 21, 2025
8:39

Um novo vídeo veio relançar as dúvidas sobre o caso de Odair Moniz, o cidadão cabo-verdiano morto há um ano por um agente da PSP, na Cova da Moura. As imagens mostram que o punhal usado como justificação para o disparo só surgiu no local quase meia hora depois do tiro fatal.

Segundo o Público, além das imagens captadas pelas câmaras de videovigilância, foi agora identificado um vídeo gravado por um morador, onde é possível ver que o punhal apenas aparece junto à roda de um carro 27 minutos após os disparos. A Polícia Judiciária (PJ) analisou as imagens e cruzou-as com as gravações oficiais, produzindo uma montagem que confirma o intervalo temporal entre o tiroteio e o aparecimento da arma branca.

Na madrugada de 21 de outubro de 2024, Odair Moniz, cozinheiro cabo-verdiano de 43 anos, foi alvejado com dois tiros pelo agente da PSP Bruno Pinto, na Cova da Moura, Amadora. O polícia justificou o disparo alegando que Moniz o ameaçara com um punhal. A investigação da PJ concluiu, contudo, que o cabo-verdiano não tinha qualquer arma consigo no momento dos tiros, levantando dúvidas sobre a proveniência do objeto encontrado mais tarde.

O caso tornou-se mais complexo devido aos depoimentos divergentes de vários agentes. Dois deles, Rui Machado e Daniel Nabais, foram acusados pelo Ministério Público de falsas declarações, por alegadamente terem mentido sobre o momento em que o punhal foi descoberto. Enquanto afirmaram tê-lo visto sob o corpo da vítima quando o INEM chegou, outros colegas garantem que a arma só apareceu depois de o corpo ter sido removido.

A investigação conduzida pela PJ e pelo Ministério Público detetou inconsistências no auto de notícia, concluindo que alguns dos factos relatados “não correspondem ao que realmente se passou”. O MP acusou Bruno Pinto de homicídio e determinou também a suspensão de funções do agente, considerando haver risco de perturbação da ordem pública. Posteriormente, outro despacho, emitido a 1 de outubro de 2025, acusou Rui Machado e Daniel Nabais de falsidade de testemunho.

O punhal, peça central de todo o processo, media 25 centímetros e tinha a inscrição “Macho” gravada na lâmina. No entanto, a análise laboratorial não encontrou vestígios de ADN ou impressões digitais, levando os peritos a admitir que pode ter sido manuseado com luvas. Apesar das suspeitas de que a arma possa ter sido colocada no local após os disparos, o MP acabou por arquivar essa hipótese por falta de indícios concretos.

O julgamento do agente Bruno Pinto começa amanhã, 22 de outubro, no Tribunal de Sintra. Os restantes polícias envolvidos — Rui Machado e Daniel Nabais — serão ouvidos como testemunhas. O caso volta a centrar o debate sobre violência policial, transparência nas investigações e desigualdade racial, temas que há um ano mobilizaram protestos na Grande Lisboa após a morte de Odair Moniz.

A sequência dos vídeos e o cruzamento das gravações revelam um hiato de 27 minutos entre o tiro mortal e a primeira imagem do punhal no local. As versões contraditórias dos agentes e a ausência de provas materiais deixam em aberto as perguntas que ainda hoje persistem: como apareceu o punhal, quem o colocou e porquê? São questões a que o tribunal poderá — ou não — dar resposta definitiva nos próximos dias.

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