Explicador. O que a guerra deixou em Gaza: milícias pró-Israel, saqueadores e execuções públicas

Enquanto Gaza aguarda o desarmamento do Hamas prometido por Donald Trump esta terça-feira, o Hamas já regressou à ruas em patrulhas

Francisco Laranjeira
Outubro 15, 2025
12:31

Enquanto Gaza aguarda o desarmamento do Hamas prometido por Donald Trump esta terça-feira, o Hamas já regressou à ruas em patrulhas: milhares de homens — a maioria armados e com balaclavas, mas vestido à civil – têm saído nos últimos dias a distribuir doces a uma população exausta, abordando crianças ainda famintas e a executar publicamente saqueadores de ajuda humanitária acusados de colaborar com Israel.

Quando foi assinado o cessar-fogo, o grupo militante palestiniano declarou imediatamente as suas duas prioridades, indicou o jornal espanhol ‘El Confidencial’: a primeira, garantir a distribuição da ajuda humanitária. A segunda, eliminar os seus inimigos dentro da Faixa de Gaza. Nos últimos meses da guerra em Gaza, duas ameaças preexistentes ganharam força, mas prometem agora arrancar o controlo do território ao Hamas. Uma delas é a rede de milícias apoiadas por Israel que operam em zonas a norte e a sul do enclave. A outra é uma família de saqueadores apelidada pelo ‘Times of Israel’ como “os Sopranos de Gaza”.

Entre as fações armadas por Israel, reunidas sob a égide das Forças Populares, registaram-se prisões e confrontos ocasionais. O seu líder, Yasser Abu Shabab, é um gangster que trafica ajuda humanitária, armas, dinheiro e cigarros de Rafah, vendendo-os por 20 dólares. Nos últimos anos, ganhou influência sobre outros grupos anti-Hamas na Faixa de Gaza e conseguiu recrutar centenas de combatentes pagos.

No início de outubro, uma investigação da ‘Sky News’ revelou que o Abu Shabab tinha saqueado toneladas de ajuda humanitária da Fundação Humanitária de Gaza, a agência subcontratada pelos EUA e Israel que o exército de Netanyahu usou para disparar sobre os residentes de Gaza durante as filas de distribuição de alimentos. A publicação britânica revelou que as Forças Populares apreenderam camiões do Programa Alimentar Mundial, alegadamente graças à colaboração da Unidade 585 das Forças de Defesa de Israel.

No sul da Faixa de Gaza, os homens do Abu Shabab só souberam da guerra pelo som dos mísseis. A poucos quilómetros de Rafah, as Forças Populares montaram um complexo de 50 hectares, com casas, centros médicos, escolas e uma mesquita. A partir daí, alguns dos 1.500 membros privilegiados das famílias de 500 a 700 combatentes publicaram imagens de paletes de abacates, motas e carros importados nas redes sociais.

De acordo com um relatório interno da ONU datado de novembro de 2024, o gangue Abu Shabab foi “o ator mais influente por trás do saque sistemático e massivo de comboios humanitários”. Tanto que os humanitários apelidaram a secção da passagem fronteiriça de Kerem Shalom onde operavam de “avenida dos saqueadores”.

Em Khan Yunis, a norte de Rafah, Husam al-Astal lidera uma milícia filiada nas Forças Populares, segundo Hassan Abu Shabab, familiar do líder da coligação e membro do seu conselho militar, segundo o ‘The Times of Israel’. No fim de semana, al-Astal celebrou o cessar-fogo que pôs fim a dois anos de guerra em Gaza nas redes sociais: “A todos os ratos do Hamas, os vossos túneis foram destruídos, os vossos direitos já não existem. Arrependam-se antes que seja tarde demais: a partir de hoje, o Hamas já não existe.”

A mesma fonte confirmou ao jornal israelita que as imagens das últimas semanas no norte da Faixa de Gaza eram verdadeiras: em Jabalia e Beit Lahia , uma terceira milícia opera sob a égide do Abu Shabab. Trata-se da Força de Ataque Antiterrorista de Ashraf al-Mansi. Na sua página pessoal do Facebook, o líder do braço norte das Forças Populares publicou esta terça-feira um vídeo no qual foi visto a dizer: “As nossas forças estão a correr bem […] assumiram o controlo de várias áreas no norte de Gaza”. Ameaçou ainda que, se o Hamas se aproximar, “lidaremos com eles”.

Estes grupos, apoiados por Israel, mas também pela tribo beduína Tarabin — presente na Jordânia e no Egito — a que pertence Abu Shabab, não limitam a sua missão a um confronto militar com o Hamas. Por detrás das Forças Populares existe uma proposta política. Embora o seu logótipo exiba as cores da bandeira palestiniana e o padrão da kufiya, as reivindicações da milícia coincidem com as de Netanyahu em Gaza: reformar o currículo escolar e realizar um referendo sobre a normalização das relações com Israel. “Gostaríamos de governar”, disse Hassan, familiar de Abu Shabab, ao ‘The Times of Israel’ na semana passada.

Amjad Iraqi, analista sénior do ‘International Crisis Group’, afirmou que a utilização das Forças Populares por Israel contra o Hamas reflete a noção de que “quanto mais se eliminar a hegemonia de qualquer [fação] específica, mais difícil será para a sociedade resistir à ocupação”. Dividir para reinar tem sido a estratégia de Israel em várias frentes ao longo da sua história. Desde impulsionar o Hamas para rivalizar com o Fatah na Palestina até financiar um exército druso em Suwayda para conter o novo Governo na Síria, a ideia de procurar um contrapeso ao Hamas em Gaza não é estranha a ninguém familiarizado com a tradição estratégica de Israel.

Os atuais governantes da Faixa de Gaza responderam com firmeza a esta ameaça crescente. Agora que ainda têm a bênção dos EUA para controlar Gaza enquanto se chega a uma solução permanente, o Hamas prendeu membros das Forças Populares nos últimos dias, acusando-os de colaborar com Israel. O Hamas matou também o braço-direito de Abu Shabab.

No Telegram, a liderança do grupo armado no poder mantém um canal chamado ‘Imsak Aamil’, que expõe potenciais alvos e partilhou recentemente vídeos da execução de três pessoas acusadas de conspirar com o Estado inimigo. Além disso, a unidade Sahm, a força de segurança interna do Hamas, assassinou e torturou críticos ao longo da guerra.

Além dos confrontos com a sua nova oposição em Gaza — cujo número de mortos e feridos é desconhecido — o Hamas também usou a sua purga de “colaboradores” para atacar outros grupos que lucraram com a ajuda humanitária. Na noite desta segunda-feira, pelo menos 33 membros de um clã da Cidade de Gaza morreram em confrontos com o Hamas pela sua colaboração com Israel.

“São os Doghmush “, disse Marwan Isbitah, jornalista da capital da Faixa de Gaza, ao El Confidencial. “São velhos conhecidos na Cidade de Gaza e, durante a guerra, só dispararam sobre quem viam com comida nas mãos”, explicou. Pelo menos sete deles foram executados em público por combatentes que usavam a faixa verde característica do Hamas.

Anwar Rajab , porta-voz das forças de segurança da Autoridade Palestiniana, que governa a Cisjordânia, afirmou na semana passada que o Hamas estava a tentar demonstrar que não haveria estabilidade em Gaza a não ser que eles estivessem no comando. “Está a preparar o terreno para uma guerra civil na Faixa de Gaza”, disse Rajab em entrevista.

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