Cientistas em alerta: Descoberto novo coronavírus em morcegos na China com potencial para infetar células humanas

Cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan identificam nova estirpe de coronavírus, HKU5-CoV-2, capaz de utilizar o mesmo recetor que facilitou a propagação da Covid-19. Especialistas alertam para o risco crescente de doenças zoonóticas.

Executive Digest
Fevereiro 25, 2025
6:45

Investigadores do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, anunciaram a descoberta de um novo coronavírus em morcegos, designado HKU5-CoV-2, que demonstrou ser capaz de entrar em células humanas utilizando o recetor ACE2 — o mesmo mecanismo que desempenhou um papel crucial na disseminação do SARS-CoV-2, o vírus responsável pela pandemia de Covid-19. Embora não tenham sido reportados casos de infeção humana até ao momento, a notícia gerou receios sobre o potencial deste vírus para desencadear surtos no futuro, refletindo-se inclusive na valorização das ações de empresas farmacêuticas especializadas em vacinas.

A descoberta reacendeu as preocupações quanto à crescente ameaça das doenças zoonóticas — infeções transmitidas de animais para humanos — impulsionadas por fatores como a desflorestação, a urbanização, a intensificação da agricultura e as alterações climáticas. Desde a peste bubónica até à gripe espanhola e ao VIH, a história tem demonstrado o impacto devastador de pandemias de origem animal. Agora, num mundo altamente interligado, o risco de novos agentes patogénicos emergirem e se disseminarem rapidamente é maior do que nunca.

O que se sabe sobre o HKU5-CoV-2?
A equipa de investigação recolheu a estirpe HKU5-CoV-2 de uma pequena amostra de centenas de morcegos Pipistrellus analisados nas províncias chinesas de Guangdong, Fujian, Zhejiang, Anhui e Guangxi. A análise genética revelou que este coronavírus pertence a um ramo distinto que inclui o vírus causador da Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS), mas está apenas remotamente relacionado com o SARS-CoV-2.

Uma característica notável desta nova estirpe é a sua capacidade de se ligar ao recetor ACE2, uma proteína presente na superfície de várias células humanas. Esta é precisamente a estratégia usada pelo SARS-CoV-2 para entrar nas células, replicar-se e propagar-se pelo organismo. Além disso, experiências laboratoriais sugerem que o HKU5-CoV-2 pode infetar uma grande variedade de mamíferos, aumentando a preocupação com a possibilidade de transmissão entre espécies.

A investigação foi liderada pela virologista Shi Zheng-Li, especialista em coronavírus de morcegos, cujo laboratório já enfrentou alegações sobre um possível envolvimento na origem do SARS-CoV-2, ainda que sem provas conclusivas.

Que risco representa para a saúde humana?
Apesar da sua capacidade de infetar células humanas, ainda não há evidências de que o HKU5-CoV-2 seja transmissível entre pessoas. Para avaliar o seu verdadeiro impacto na saúde pública, os cientistas precisam de determinar até que ponto esta estirpe circula na natureza, incluindo se pode estar presente em animais domésticos ou selvagens que atuem como vetores intermediários antes de chegar aos seres humanos.

Estudos anteriores já demonstraram que os morcegos são reservatórios naturais de diversos coronavírus, incluindo o SARS-CoV-1, responsável pelo surto de SARS entre 2002 e 2004, e o próprio SARS-CoV-2. De facto, uma investigação publicada em 2021 indicou que dezenas de milhares de pessoas no Sudeste Asiático podem ser infetadas anualmente por coronavírus de origem animal, muitas vezes sem que os casos sejam identificados, devido à ausência de sintomas graves.

Dado o histórico de zoonoses que evoluíram para pandemias, a comunidade científica sublinha a importância de continuar a monitorizar o HKU5-CoV-2 e outras estirpes emergentes para antecipar e mitigar potenciais riscos.

O perigo de novas pandemias está a aumentar?
Sim. A globalização, o crescimento do tráfego aéreo e a intensificação do comércio internacional criam condições propícias para a rápida disseminação de novos agentes patogénicos. Antes da pandemia de Covid-19, o número de viagens aéreas de passageiros duplicou desde o início do século, atingindo 4,5 mil milhões em 2019. Vírus altamente transmissíveis pelo ar, como o SARS-CoV-2 e o vírus da gripe, são particularmente preocupantes devido ao seu potencial para causar pandemias globais.

Embora a teoria mais aceite sobre a origem da Covid-19 seja a de uma transmissão natural do SARS-CoV-2 de animais para humanos, a hipótese de uma fuga laboratorial não foi completamente descartada, sobretudo num contexto em que um número crescente de instalações trabalha com patógenos altamente infecciosos, aumentando o risco de acidentes biológicos. Além disso, há preocupações de que avanços em inteligência artificial possam ser explorados para criar vírus sintéticos perigosos.

De onde vêm as novas doenças?
Nas últimas quatro décadas, têm sido identificados, em média, mais de três novos agentes patogénicos humanos por ano. Cerca de 75% dessas doenças têm origem animal, um fenómeno conhecido como zoonose. Certas espécies desempenham um papel crucial na manutenção e transmissão desses vírus. As aves aquáticas, por exemplo, são reservatórios naturais do vírus da gripe, enquanto os morcegos hospedam agentes como o vírus Ebola, Hendra e Nipah. A proximidade crescente entre seres humanos e esses animais, impulsionada pela destruição de habitats naturais, cria oportunidades para a passagem de vírus de uma espécie para outra.

O que impulsiona o surgimento de zoonoses?
Os cientistas identificaram vários fatores que aumentam o risco de novas infeções zoonóticas:

  • Destruição de ecossistemas naturais: O crescimento populacional humano levou à ocupação acelerada de áreas selvagens, reduzindo em mais de 3 milhões de quilómetros quadrados a extensão de terras sem perturbação humana desde os anos 1990.
  • Consumo de animais selvagens: O comércio e consumo de animais exóticos, muitas vezes mantidos em mercados com condições sanitárias precárias, têm sido associados à emergência de coronavírus como o SARS-CoV-1 e o SARS-CoV-2.
  • Urbanização acelerada: Mais de metade da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, criando ambientes onde espécies como ratos, macacos e raposas prosperam e podem servir de hospedeiros intermediários para vírus.
  • Pecuária intensiva: A criação de animais em grande escala facilita a disseminação de doenças, enquanto o uso indiscriminado de antibióticos pode gerar agentes patogénicos resistentes a tratamentos.
  • Alterações climáticas: O aumento das temperaturas tem expandido a distribuição geográfica de insetos transmissores de doenças, como mosquitos e carraças, contribuindo para o aumento de infeções como a febre do Nilo Ocidental, a dengue e a doença de Lyme.

Como prevenir futuras pandemias?
A pandemia de Covid-19 acelerou o desenvolvimento de tecnologias inovadoras para monitorizar e combater surtos de doenças infecciosas, incluindo testes rápidos, vigilância de esgotos e vacinas de mRNA. Além disso, aumentou a consciencialização sobre os riscos associados à criação intensiva de animais e ao comércio de espécies exóticas, como visons, civetas e cães-guaxinins, que podem albergar coronavírus e vírus da gripe.

Medidas adicionais para prevenir futuras pandemias incluem o reforço das regulamentações sobre o comércio de vida selvagem, a implementação de sistemas globais de alerta precoce e a adoção do conceito One Health, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Os especialistas defendem que apenas uma abordagem integrada pode reduzir eficazmente o risco de futuras crises sanitárias.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.