Ameaça global não ‘inspira’ jovens para a carreira militar: assim, quem faria a guerra da Europa contra a Rússia?

Países europeus têm falhado o alvo no recrutamento militar há já algum tempo

Francisco Laranjeira

Sem um fim à vista para a guerra da Rússia na Ucrânia, os líderes ocidentais têm alertado para uma potencial escalada global do conflito.

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Atente-se às palavras de Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, que indicou que a Europa está atualmente numa “era pré-guerra” – já Joe Biden aludiu “ao preço da tirania desenfreada” ao justificar o apoio do EUA a Kiev. “Mas controlar a tirania tem um preço e, infelizmente, os jovens do Ocidente aparentemente não estão preparados para pagar”, indicou Jamie Dettmer em declarações ao jornal ‘POLITICO’.

Os países da NATO, incluindo os que partilham fronteiras com a Ucrânia, lutam para recrutar e reter exércitos. “Não podemos fazer nada sem pessoas – se modernizarmos o equipamento e não tivermos pessoas competentes e motivadas suficientes, tudo isso será dinheiro desperdiçado”, explicou o chefe das Forças Armadas checas, o general Karel Rehka, à agência ‘Reuters’.

Todas as estratégias de recrutamento – desde conversas sobre o restabelecimento do serviço militar obrigatório na Roménia até um programa de televisão com temática militar que será transmitido na Hungria até ao final do ano – têm sido utilizadas em vários países. Mas mesmo a campanha de recrutamento mais bem-sucedida tem dificuldade em atingir outro dos obstáculos militares da Europa. “Já não se trata tanto de recrutar novos soldados, mas de persuadir as tropas existentes a não desistirem.”

Os países europeus têm falhado o alvo no recrutamento militar há já algum tempo. Entre 2013 e 2023, o número de tropas francesas ativas caiu 8,26%. O Reino Unido registou uma redução ainda mais drástica, com uma diminuição de 14,63% no mesmo período, segundo o ‘Financial Times’. Na verdade, “o Reino Unido não cumpriu as suas metas anuais de recrutamento militar em todos os anos durante a última década”.

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Os soldados da linha da frente não são necessariamente o problema. A maioria das notícias que referem a queda do número de militares não inclui “funções qualificadas em pontos críticos nas áreas da medicina, comunicações, engenharia e cibersegurança”, que são “particularmente vulneráveis ​​a perdas”, salientou o ‘Financial Times’. “São estas funções que os militares europeus necessitam com maior urgência.”

O jornal ‘The Economist’ salientou que muitas pessoas simplesmente “ainda não sentem uma ameaça iminente”, e este é um problema para os militares que procuram recrutar urgentemente e reter tropas. Para aumentar significativamente os números ou vender ao público qualquer tipo de recrutamento, “seria necessário haver uma compreensão clara e partilhada da razão pela qual era necessário. Isto está em falta em países como a Grã-Bretanha e França”.

Além disso, os “desafios no setor militar”, incluindo “a qualidade de vida, as deslocalizações, as missões internacionais, a incerteza e a possibilidade de morrer” colocam problemas ao recrutamento e retenção de pessoal de serviço. Com a mudança de valores e o envelhecimento da população, “é preciso pagar salários muito elevados para convencer as pessoas a candidatarem-se e a juntarem-se às forças armadas”, explicou Vincenzo Bove, professor de Ciência Política na Universidade de Warwick, no Reino Unido, à ‘Euronews’.

Se os exércitos europeus quiserem preparar-se para uma potencial guerra com a Rússia, terão primeiro de “acertar no básico”, referiu o ‘Financial Times’: muitas vezes, comodidades tão fundamentais como o alojamento das tropas tornam-se inutilizáveis, mesmo quando as armas de alta tecnologia são substituídas e melhoradas.

É também necessária mais experimentação com o recrutamento que apele às mudanças demográficas, “por exemplo, com experiências de serviço de um ano que podem ser combinadas com estudos universitários ou outra formação”. “E apesar de muita discussão, poucos exércitos fizeram o suficiente para recrutar mulheres e combater o assédio sexual”, apontou a publicação ‘The Economist’.

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Países como a Noruega e a Suécia têm tido sucesso com abordagens híbridas e seletivas de recrutamento, consideradas o “modelo escandinavo”. Mas será necessária “uma visão mais ampla de como tornar uma carreira militar mais apelativa” para nos prepararmos para o pior resultado possível. “Para dissuadir os inimigos mais perigosos, é preciso estar preparado para uma guerra que não se quer travar”, concluiu o ‘The Economist’. “Basta perguntar aos corajosos ucranianos.”

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