Se a Europa quiser impedir uma possível agressão russa, precisa fazer um trabalho muito melhor de mover tanques, tropas e munições pelo continente, avisou esta segunda-feira um general francês, citado pelo jornal ‘POLITICO’ – de acordo com Bertrand Toujouse, responsável pelo recém-criado comando terrestre do exército francês para a Europa, durante a Guerra Fria os países estavam acostumados a transportar equipamentos militares, uma tarefa que era “muito simples” na época, mas que “se tornou gradualmente extremamente complexa”.
“É absolutamente essencial recolocar a mobilidade militar na mente dos europeus e, para isso, precisamos de praticar”, sustentou, defendendo que se a Rússia atacar um país da NATO, os soldados europeus e americanos vão precisar de chegar ao flanco leste da aliança militar o mais rápido possível.
No entanto, os obstáculos atuais à movimentação rápida incluem processos administrativos longos e fragmentados para transportar material de guerra através das fronteiras; infraestrutura inadequada — incluindo pontes e túneis — para mover veículos blindados; e falta de capacidade de transporte, como vagões ferroviários.
Em maio último, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia pediram às capitais que implementassem o Compromisso de Mobilidade Militar do bloco, que inclui compromissos de investir em infraestrutura e garantir acesso prioritário a rodovias, ferrovias e outros métodos de transporte para as forças armadas.
Em junho, França anunciou que se juntaria a um acordo já assinado pela Polónia, Alemanha e Países Baixos para criar um corredor de trânsito militar. Em julho, Grécia, Bulgária e Roménia assinaram uma carta de intenções de cooperação de mobilidade militar transfronteiriça.
O exército francês percebeu dolorosamente o quão difícil era cruzar a Europa na primavera de 2022, quando enviou um batalhão para a Roménia em resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia. “Descobrimos a extensão da burocracia administrativa. Há uma guerra na Ucrânia, mas os funcionários da alfândega explicam que não se tem a tonelagem certa por eixo e que os seus tanques não têm permissão para cruzar a Alemanha”, lembrou Toujouse. “É simplesmente inacreditável.”
Mais: o exército francês — que passou as últimas décadas a lutar no Afeganistão e na região do Sahel, na África Ocidental — não carregava equipamentos militares em comboios há cerca de 20 anos, destacou o general francês, sendo que os responsáveis da SNCF (a companhia ferroviária nacional francesa) estavam também no escuro. “Estamos a voltar a algo que sabíamos fazer e tínhamos esquecido completamente”, precisou Toujouse.
França enviou tropas para a Roménia como parte de um esforço mais amplo da NATO para reforçar as suas defesas orientais e espera usar a rotação regular de tropas e equipamentos para reaprender a arte do transporte militar.
Toujouse reconheceu que melhorar a mobilidade militar não será fácil porque as regras de transporte e alfândega são, em grande parte, uma prerrogativa nacional. O foco deve estar no transporte ferroviário, explicou. “As ferrovias ainda são de longe a maneira mais prática” de movimentar tanques, explicou. “É aqui que precisamos de nos concentrar.”
Uma ideia é cortar as taxas de acesso: Toujouse disse que, atualmente, os militares franceses têm de pagar 30 milhões de euros por ano para garantir acesso 24 horas a comboios transcontinentais.
Segundo o tenente-general dos EUA, Ben Hodges — ex-comandante do Exército dos EUA na Europa —, a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia em 2014 foi “um alerta” sobre a necessidade de melhorar a mobilidade militar. Desde então, frisou, “houve melhorias, mas principalmente na forma de reconhecimento de que há um problema”.














