Desvendado o enigma da ‘mulher que grita’. Cientistas explicam ‘expressão de agonia’ em múmia com 3.500 anos

Um enigma arqueológico de 3.500 anos, conhecido como a “mulher que grita”, foi recentemente esclarecido através de uma investigação inovadora. O estudo revela que a expressão facial de agonia da múmia não resulta de uma “mumificação deficiente”, como se acreditava anteriormente, mas sim de dor extrema

Pedro Zagacho Gonçalves

Um enigma arqueológico de 3.500 anos, conhecido como a “mulher que grita”, foi recentemente esclarecido através de uma investigação inovadora. O estudo revela que a expressão facial de agonia da múmia não resulta de uma “mumificação deficiente”, como se acreditava anteriormente, mas sim de dor extrema. A investigação foi liderada pela doutora Sahar Saleem, professora de radiologia no Hospital Kasr Al Ainy da Universidade do Cairo, e publicada na revista Frontiers in Medicine.

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Em 1935, uma equipa de arqueólogos do Museu Metropolitano de Nova Iorque descobriu uma tumba na necrópole de Tebas, localizada na atual Luxor, Egito. A tumba, pertencente a Senenmut, um renomado arquiteto e suposto amante da faraó Hatshepsut, revelou uma câmara funerária adicional. Nela encontraram o sarcófago de madeira de Hat-Nufer, a mãe de Senenmut, junto a outros familiares. Entre os achados, destacava-se uma múmia com uma expressão facial macabra, que levou a sua denominação como “a mulher que grita”.

A investigação revelou que a múmia foi embalsamada com materiais caros e importados, contrariando a teoria de uma mumificação de baixa qualidade. A doutora Saleem explica que o estado de conservação da múmia e a qualidade dos materiais utilizados refutam a ideia de uma operação descuidada. A análise revela que a expressão facial da múmia pode ser atribuída a um espasmo cadavérico, resultante de dor intensa ou agonia antes da morte.

A pesquisa utilizou tecnologias avançadas para examinar a múmia, incluindo tomografias computorizadas, microscopia eletrónica de varrimento (SEM), espectroscopia de infravermelhos por transformada de Fourier (FTIR) e difração de raios X. Estas técnicas permitiram uma análise detalhada do estado de conservação da múmia e das condições patológicas que possa ter enfrentado.

O estudo revelou que a múmia tinha evidências de reabsorção óssea na boca, sugerindo perda de dentes e possíveis extrações dentárias. A doutora Saleem estima que a mulher tinha cerca de 48 anos na altura da sua morte e exibia sinais de artrite leve na coluna vertebral.

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Embora a mumificação no Antigo Egito frequentemente envolvesse a remoção de órgãos internos, no caso da “mulher que grita”, os órgãos foram preservados. A análise revelou que a múmia foi embalsamada com materiais de luxo, como o zimbro e o incenso, importados do Mediterrâneo oriental, África ou o sul da Arábia. A sua peruca, tecida com fibras de palma e tratada com cristais de quartzo e magnetita, refletia uma riqueza e sofisticação significativas.

Os achados reforçam a ideia de um comércio desenvolvido de materiais para embalsamamento no Antigo Egito. A pesquisa revela que a qualidade dos materiais utilizados estava alinhada com as práticas de embalsamamento de elite da época, semelhantes às encontradas nas tumbas de figuras como Tutankhamon.

Apesar de os resultados terem descartado a hipótese de uma embalsamação apressada, muitos mistérios permanecem. A identidade da “mulher que grita” e as circunstâncias exatas da sua morte ainda não são totalmente compreendidas. Contudo, o estudo proporciona uma visão mais clara sobre as técnicas de mumificação e o estado de saúde da mulher que, apesar do tempo decorrido, continua a fascinar arqueólogos e historiadores.

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