“A Coelima é uma caixa cheia de histórias”. A estratégia da nova gestão para dar a volta ao negócio

A indústria têxtil sempre desempenhou um papel crucial na economia portuguesa, sendo um dos sectores mais tradicionais e importantes do país. A empresa que outrora já empregou mais de 3000 pessoas, hoje quer fazer valer a sua história e know-how para vingar no mercado.

André Manuel Mendes

A indústria têxtil sempre desempenhou um papel crucial na economia portuguesa, sendo um dos sectores mais tradicionais e importantes do país. Desde os tempos antigos, Portugal tem sido reconhecido pela qualidade dos seus tecidos e produtos têxteis, o que lhe conferiu uma posição proeminente no mercado internacional.
No entanto, nos anos 90, o têxtil português enfrentou uma série de dificuldades que colocaram em risco a sua sobrevivência. A liberalização do comércio internacional, a concorrência crescente de países com mão-de-obra mais barata e a falta de investimento em inovação e modernização foram a tempestade perfeita para este sector.
Como resultado, muitas empresas têxteis em Portugal foram forçadas a fechar as suas portas. A região do Vale do Ave, proeminente durante vários anos neste sector, deixou de ter edificações cheias de trabalhadores, famílias inteiras que trabalhavam nestas empresas, para dar lugar a gigantes de cimento vazios, que perduraram anos e anos.
Mas o têxtil não esmoreceu, cresceu, viu investimento a levantar o que outrora foi a glória nacional, e para muito contribuíram os empresários, como é o caso do homem que salvou a Coelima, aquela que foi um dos maiores empregadores do concelho de Guimarães durante décadas.



A história de Dâmaso Lobo mistura-se com a da empresa fundada por Albano Coelho Lima. Aos 12 anos, juntava-se ao pai, ao avô e aos tios quando estes prestavam serviços de serralharia e ajudavam a reparar máquinas na Coelima.
O empresário iniciou-se na metalomecânica Custódio Castro Lobo, criada pelo pai a convite de Albano Coelho Lima, para prestar serviços à empresa.
E a partir daí começou o seu percurso e o seu apelo para salvar empresas, até culminar em 2021 com a compra da centenária Coelima, empresa que se encontrava em processo de falência, à qual pretendia polir para trazer de volta o brilho de antigamente. A empresa que outrora já empregou mais de 3000 pessoas, hoje quer fazer valer a sua história e know-how para vingar no mercado.
Ao seu lado, nesta nova fase da Coelima, Dâmaso Lobo tem Rui Pereira como director-geral e seu braço direito, um homem que já conhece há vários anos, que entrou na Coelima aos 13 anos, como ajudante de electricista.
Subindo pelas margens do Ave acima, a Executive Digest entrou pelos portões da Coelima para testemunhar a colossalidade de uma têxtil que marcou uma geração e que quer continuar a marcar a singularidade.

Que histórias contam estas paredes?
Dâmaso Lobo (DL): A Coelima é uma caixa cheia de histórias. Em Guimarães, a maior parte das famílias trabalhou na Coelima, porque esta empresa chegou a ter empregadas cerca de 3600 pessoas, sendo uma das maiores empregadoras da região.
Também aqui trabalhava o meu pai, o meu avô e o meu tio, e como o meu pai tinha uma grande proximidade do senhor Albano Coelho Lima, fundador da Coelima, foi convidado a criar uma empresa para trabalhar exclusivamente para eles, isto há 50 anos.
Aí, o meu pai abriu a empresa, começamos a prestar serviços à Coelima, quando a têxtil no Norte começou a desenvolver. Nós fomos pioneiros e tínhamos uma grande experiência pois trabalhávamos com empresas internacionais que vendiam equipamentos e máquinas.

Rui Pereira (RP): É muito interessante o pai do Dâmaso ter sido incentivado pelo fundador da Coelima para abrir a sua própria empresa. É esta a ligação forte que tem com a empresa.
Ainda há pouco tempo descobriu numas revistas antigas da empresa uma história do avô, que recebeu uma menção honrosa, devido a um acidente com uma botija de gás que se tinha incendiado, tendo o avô do Dâmaso tomado a iniciativa de lá ir desligar a torneira e impedido um grande incêndio.

DL: Temos uma grande ligação à Coelima. Eu vinha com o meu pai prestar serviços para esta empresa, e desde pequeno que sempre tive ligação com a têxtil.

E o que aconteceu à Coelima?
RP: Primeiro, há uma crise nacional no têxtil nos anos 90. O que está escrito, e que se sabe, é que a Coelima tinha montado tecelagens e havia um grande empréstimo, e quando se dá a crise os juros dispararam, tornando-se incomportável pagar esses juros.
Foi aí que começou a queda da Coelima.

O que sentem quando vêem as fábricas têxteis abandonadas ao longo das margens do rio Ave?
RP: Podemos ser a melhor empresa do mundo, mas se houver uma crise prolongada, é muito difícil para uma empresa com muitos funcionários sobreviver.
A Coelima tinha mais de 3000 trabalhadores directos, e mais de 10 000 indirectos, desde cartão, etiquetas, das linhas, tudo circulava à volta da empresa.

DL: Quando a crise se instalou, tornou-se insuportável aguentar uma empresa com mais de 3000 pessoas. Os salários ainda eram baixos, mas era muita gente, e quando começaram a abrir empresas da concorrência noutros lados do mundo, o trabalho começou a escassear.
Foi aí que o Governo tentou intervir na Coelima para amortecer o impacto, porque se a empresa fechasse naquela altura, era o concelho que iria sofrer bastante.
Intervieram, a Coelima aguentou-se, e na crise de 2011 voltou a sofrer, quando a banca teve de tomar a iniciativa e dar um apoio à estrutura.

RP: A têxtil é um negócio com lucros marginais. Vive da mão-de-obra barata, porque o know-how da primeira fase da têxtil é muito reduzido, é muito fácil transferir esse conhecimento desde as fiações até à tecelagem.
O plano, nessa fase, era como o de hoje, de fazer com que a têxtil sobrevivesse não pela quantidade, mas sim pela qualidade, pela diferenciação. Hoje, as fiações que existem, apresentam produtos diferenciados, fio mescla, tingidos, em quantidades pequenas, e é esse um pouco o caminho da têxtil em Portugal.
Acho interessante porque a zona Norte continua a ser responsável por uma parte significativa do PIB, e soube adaptar-se a todas estas dificuldades: concorrência de preços baixos externos, necessidade de evoluir para uma qualidade diferenciada, pequenas séries, novos mercados, novas ideias.
É isso que tem sido a resiliência do povo do Norte e das pessoas que estão na têxtil.

Acredita então que o sector têxtil em Portugal está a «sobreviver»?
RP: O ano passado e este têm sido bastante difíceis, muito difíceis mesmo, devido à conjuntura que estamos a passar.

DL: Tivemos a pandemia de COVID-19, e logo a seguir surgiu a guerra que ninguém esperava na Europa. Tivemos um grande problema da energia, e as pessoas não têm a noção do que é uma empresa que trabalha com estes preços perde milhares de euros mensais, como foi o caso de 2020, porque somos uma empresa intensiva de gás.
Recorde-se que há sete ou oito anos começou-se a investir na têxtil novamente, porque havia diversos apoios para o fazer, e as pessoas começaram a comprar máquinas novas, fizeram investimentos significativos, e agora a subida do preço da energia e do gás está a criar muitos problemas novamente a este sector.
Posso dizer que gastamos uma média de 150 mil euros mensais, e chegamos a pagar mais 400 mil euros devido à subida de preços. Aí, só tínhamos uma solução, aguentar os preços para ver quando o preço baixava, ou então aguentar até onde fosse financeiramente possível.
Os empresários concordaram, na altura, que as empresas fechariam todas por este caminho, e só não fecharam mais empresas porque tinham algum pé-de-meia que foram gastando.
Actualmente, a energia até já não está tão cara, só que se paga mais de taxas do que do consumo.
Tem sido uma montanha-russa viver nas empresas, para os empresários é uma dor de cabeça diariamente, nunca sabemos com o que contar.

Tendo em conta esta conjuntura, a Coelima apostou em produtos novos e na inovação…
RP: Sim, e isso está relacionado com a forma como o Dâmaso, que veio de fora, trouxe ideias diferentes. Como estamos há muito tempo neste mercado, estávamos habituados a uma determinada forma de trabalhar, e como estávamos muito virados para dentro, não vimos o que ele via de fora.
Quando chega, chega com uma mentalidade nova, e desafia a uma mudança de caminho, e isto cria, com as nossas equipas de design e vendas, novos produtos e novas formas de vender.
A têxtil, neste momento, está a dar um passo para procurar novos produtos, nomeadamente os sustentáveis.
Nós, Coelima, estamos como todos os outros a tentar procurar produtos sustentáveis, com pigmentos naturais, fibras naturais, mas ainda não é um negócio com volume que permita sustentar a empresa.
No entanto, é um caminho que temos de seguir, de ir para produtos diferenciados.

E que produtos diferenciados são esses?
RP: Temos por exemplo uma palete de cores naturais para os nossos produtos e, como são naturais, cingem-se às cores dos pigmentos naturais, à casca da laranja, casca de noz, carvalho. 

DL: No sleep wear, por exemplo, investimos imenso na formação, mas era já uma mais-valia da empresa, só que como era um trabalho moroso e caro, subcontratavam fora. Mas como o mercado está a emagrecer cada vez mais, temos de aproveitar todas as energias que temos dentro de portas.
Tentamos apostar em vários nichos e aproveitar todos os nossos recursos. Actualmente, na Coelima, temos mais de 200 pessoas. Já não são as 3600 de antigamente, mas, hoje, 200 pessoas é muito para uma empresa.

RP: Na realidade, temos tudo o que é de têxteis-lar. Temos dois segmentos, a colecção interna com a marca Coelima, que serve Portugal e Espanha, e o private label que tem o mercado global, que serve por exemplo o mercado da hotelaria, e que complementamos com felpos, sleep wear, home wear e o segmento pet. O private label procura empresas com algumas credenciais.
De sublinhar que a facilidade que o Dâmaso tem com os industriais da região permite fazer parcerias com outras empresas. Mesmo que não tenhamos produção interna própria, temos o know-how e fazemos a produção noutras empresas. E os outros fazem ao contrário, trocamos serviços.
A marca própria Coelima pode ser encontrada por todo o país, está no comércio tradicional, vende muito neste comércio, onde as pessoas procuram qualidade e diferenciação, e no final do ano começámos a apostar muito nas novas tecnologias, no digital, nas redes sociais, e numa nova loja de venda online.
Esta é uma aposta que vem dar resposta a um novo público mais jovem. A Coelima vive muito do comércio tradicional, das pessoas que conhecem a marca há muitos anos e que sabem que tem qualidade. Queremos agora apostar num segmento mais jovem, e começamos com a venda de produtos online, inicialmente com linho lavado, que é sustentável e nem é necessário passar a ferro.

Quais são as perspectivas para este ano para a Coelima?
DL: Para este ano só sabemos dizer alguma coisa se o mercado melhorar. Actualmente até estamos em crescimento, mas não sabemos como vai estar daqui a meio ano.

E para vocês, qual é o segredo de uma boa liderança numa empresa?
DL: O segredo de uma boa liderança é, em primeiro lugar, contar com as pessoas que estão na empresa a trabalhar. Não é o líder que faz uma empresa, mas sim os empregados. Portanto, se tivermos uma boa estrutura e as pessoas motivadas é meio caminho andado.
Não é uma pessoa que vai mudar uma empresa, mas sim todas as pessoas que a constituem. 

RP: É isso mesmo, é esta mentalidade que o Dâmaso traz, de confiar nas pessoas com quem trabalha, e fazer a delegação de responsabilidades é uma coisa nova, porque não coloca a responsabilidade apenas numa pessoa num gestor, e aposta no know-how de todos.
Essa parte tem sido a mais-valia daquilo que ele tem feito na Coelima, e que fez idêntico nas outras que salvou anteriormente, que está relacionado com a forma como ele vê o negócio e de por as pessoas a trazer novas ideias para o negócio. 

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