O papel das mulheres na liderança tem ganho destaque, trazendo à tona questões fundamentais sobre igualdade de gênero e oportunidades profissionais. Assim, procuramos entender os obstáculos enfrentados pelas mulheres que lideram empresas.
A Executive Digest entrevistou diversas empresárias a quem foi questionado: “Qual foi o maior desafio que enfrentou como mulher na liderança e como o superou?”. As suas respostas nos proporcionam insights valiosos sobre as realidades enfrentadas pelas mulheres em posições de liderança, bem como sobre as estratégias e resiliência necessárias para superar esses desafios.
Ana Sofia Amaral, Scientific and Regulatory Affairs Director & Sustainability and CSR Manager da L’Oréal Portugal

A vida é muito engraçada, não nos deixa sossegados, está sempre a desafiar-nos. Muitas vezes quando menos esperamos e de forma surpreendente.
Para mim, uma dessas vezes surgiu inesperadamente com uma pergunta: “Gostarias de te candidatar para representares os trabalhadores portugueses no Comité de Empresa Europeu da L’Oréal?”
Eu, farmacêutica, área técnico regulamentar… nunca tinha pensado nisso. Porquê eu? Primeira pergunta. E porque não?
E assim começou aquele que foi o maior desafio e, sobretudo, aquele que eu nunca imaginei ter na vida. Representar os trabalhadores da L’Oréal Portugal no Conselho de Empresa Europeu (CEE) durante os anos de 2006-2014. Tudo começou simples, mas rapidamente se complicou com a chegada da crise financeira de 2008-2011. De repente tive de me reinventar. Já não passava apenas por discutir as questões transversais dos países para encontrarmos pontos de melhoria e conhecermos a visão estratégica do Grupo, passava por escutar os meus colegas, as suas preocupações durante esses anos e partilhá-las com a Direção, no sentido de encontrarmos as melhores soluções que acomodassem as diferentes perspetivas.
Estabelecer pontes, convergir interesses, muita escuta e observação, diálogo e bom senso, inteligência emocional e um grande sentido de responsabilidade, foram as ferramentas fundamentais para ultrapassar esse período. O não baixar os braços perante as frustrações também ajudou.
Foram provavelmente estas caraterísticas que fizeram com que em 2014 fosse eleita pelo CEE para representar todos os trabalhadores no Conselho de Administração do Grupo, como Administradora Representante dos Trabalhadores.
Na primeira reunião do Conselho quando me sentei à mesma mesa com os acionistas maioritários do Grupo, senti-me pequenina, mas, mais uma vez, com muito trabalho, muita observação, escuta, construindo pontes e criando empatia fui aprendendo a fazer-me ouvir e a colocar as questões que me pareciam pertinentes. Foram 8 anos de uma grande riqueza pessoal e profissional, aprendi muito e acredito ter deixado a minha marca.
Sou franca, na minha carreira não senti da parte dos outros algo diferente por ser mulher. Senti sim da minha parte. A necessidade de nunca descurar a família, que é a minha prioridade. A insegurança de saber se sou capaz de ir mais longe, quando não domino os temas, traz-nos por vezes dificuldades acrescidas para avançar, mas nesta perspetiva ajudou-me a dificuldade que tenho em dizer não a um bom desafio!
Andreia Paulo, Diretora de Marketing da JCDecaux Portugal

A diversidade tem sido essencial e uma constante no meu caminho profissional. Nós aprendemos fundamentalmente com as diferenças, com aquilo que desconhecemos, não com o igual.
Por isso, na minha opinião, um fórum de decisão diverso será sempre mais rico e, por conseguinte, com maior capacidade de antecipar diferentes cenários e vislumbrar soluções inovadoras. Desde líderes visionários até colegas com sentido de entrega e compromisso, cada encontro contribuiu para a minha formação profissional. Hoje, como diretora de marketing na JCDecaux Portugal, continuo a ser inspirada pelos líderes deste Grupo. A visão ousada, liderança inovadora e valores alinhados com os meus próprios princípios fazem deste ambiente um estímulo constante para continuar a inovar e alcançar a excelência. Uma equipa diversificada no conselho de administração reflete o compromisso real com a promoção da igualdade de género e fortalece a convicção de que a diversidade enriquece as tomadas de decisão.
Nesse sentido, e porque ao longo do meu percurso tive a sorte de me cruzar tanto com homens como com mulheres extraordinários, os maiores desafios com os quais me deparei foram mais técnicos. Diziam respeito ao próprio acesso do consumidor ao digital e à tração dos serviços online. Depois de já mais de 60% da população estar ligada à internet e a consumir conteúdos digitais, deparámo-nos com o desafio de evangelizar o mercado sobre a massificação deste novo meio e do seu potencial de comunicação. Depois de todas as partes rendidas ao digital, vim para o mundo da publicidade exterior, no qual o digital me leva novamente a viver desafios incríveis, muito exigentes, mas acima de tudo, muito empolgantes.
Carla Colaço, Diretora de Recursos Humanos do Grupo Openbook

Ao longo da minha vida profissional vários foram os desafios com que me deparei. Por ter trabalhado num universo predominantemente masculino, a necessidade de ser aceite e criar a confiança das equipas “de homens” foi, sem dúvida, o maior obstáculo profissional que enfrentei enquanto mulher, dado que, nessa época as mulheres ainda tendiam a ser vistas como sendo mais frágeis e com menos capacidades para liderar.
No meu caso, houve necessidade de conquistar as equipas, nomeadamente através da escuta ativa, colocando-me no lugar do outro e procurando compreender as dificuldades sentidas de cada um, tentando sempre encontrar a melhor forma para apoiar na resolução das situações, adotei uma postura conciliadora e facilitadora e consegui alcançar o respeito e a confiança das equipas. Por outro lado, as relações empáticas que se estabeleceram contribuíram para um ambiente de trabalho mais harmonioso, fortalecendo a coesão do grupo e por seu lado os níveis de motivação para a realização de tarefas, alcance dos objetivos definidos e cumprimento dos procedimentos instituídos.
Hoje no universo corporativo, o paradigma está a mudar e a identificação de mulheres para ocupar lugares de destaque e liderança é uma realidade. O reconhecimento de skills que as diferenciam, como a capacidade de relacionamento interpessoal e a inteligência emocional, com o foco nas pessoas, fazem das mulheres líderes de sucesso muito valorizadas no mundo empresarial.
Gemma Baz, HR Manager da Schindler Iberia

Numa sociedade em que o mundo profissional sempre dificultou a vida às mulheres, temos vindo a conquistar gradualmente o nosso lugar. No entanto, chegar ao topo continua a ser um desafio para qualquer mulher hoje em dia. O maior desafio que enfrentei a este respeito foi ter de provar todos os dias que não estou nesta posição por causa de uma quota, mas sim porque mereço verdadeiramente graças ao meu conhecimento, às minhas conquistas e ao valor que posso acrescentar devido à minha experiência e conhecimento do negócio do qual faço parte.
Ao longo da minha carreira, demonstrei o meu valor, tal como qualquer outro colega. Atualmente, ocupo um cargo de grande responsabilidade, que alcancei através da minha experiência, conhecimento e track record, valências que são tão valiosas como as de qualquer outro colega numa posição semelhante – e que nunca são postas em causa.
Temos de normalizar a ideia de que as mulheres podem chegar ao topo sem qualquer dúvida sobre a razão pela qual lá estão. Felizmente, tal como eu, muitas outras mulheres estão a conseguir eliminar este estigma, e acredito que continuaremos a crescer em número, tendo adquirido a experiência e o conhecimento necessário. No meu caso, antes de me tornar Diretora de Recursos Humanos da Schindler Iberia, trabalhei em grandes empresas multinacionais onde comecei ‘por baixo’, apresentando sempre resultados que correspondiam à confiança que as minhas empresas e chefias depositavam em mim.
Na Schindler, tanto eu como os meus colegas somos avaliados pelo nosso mérito, analisando se somos ou não competentes com base no nosso trabalho. O nosso género não é avaliado, mas sim o nosso desempenho. Todas as pessoas na Schindler devem sentir que as únicas coisas que importam são o seu profissionalismo, talento e desempenho. Neste sentido, a Schindler continua a implementar o seu Plano de Igualdade de Oportunidades, com o objetivo de criar equipas diversificadas e assegurar a ausência de procedimentos ou políticas discriminatórias, independentemente do género, religião, raça, orientação sexual ou qualquer outra característica pessoal, garantindo assim uma real e efetiva igualdade de oportunidades.
Isabel Azeredo, Country Head da ONE Portugal

É certo que na liderança os desafios são algo permanente, sobretudo pelo facto de vivermos numa economia e numa sociedade em constante mudança e transformação.
A liderança no feminino é ainda mais desafiante pelo papel que as mulheres têm na sociedade, particularmente no papel de cuidadoras, quer enquanto mães quer como filhas. A conciliação dos papéis exige muita disciplina, organização, muito rigor e uma definição clara de prioridades, estimulando o sentido prático no processo de decisão. É ainda vital ter uma boa retaguarda para ter a disponibilidade física e mental para o desenvolvimento de uma carreira em posições de liderança.
Num mundo ainda liderado por homens, como é o caso da indústria na qual estou inserida, o shipping, são poucas as mulheres que chegam ao topo das organizações, as quais devem desenvolver estratégias para a diversidade e traçar metas claras onde se incluem questões de remuneração, de igualdade de oportunidade, de reconhecimento e progressão na carreira, de equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
No meu caso em particular, continuo a ser a única Country Head feminina, no entanto, já é possível encontrar mulheres em posições de liderança intermédia. Acredito ser cada vez mais importante que seja dada visibilidade às mulheres em posições de topo e Portugal possui já bons exemplos na área da economia, assim como na política e na sociedade em geral.
Paula Amaral, Responsável de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da Bel Portugal

Depois de 3 anos no Middle East em cargo de liderança, seria esperado que o maior desafio enquanto mulher viesse dessa região.
Ao contrário, o maior desafio veio de Portugal: ser mãe e profissional relevante, conjugando um trabalho altamente desafiante com os momentos únicos e irrepetíveis com os nossos filhos.
Superei pedindo ajuda em casa e no trabalho. Fiz parte da equipa que teve a visão da Bel como Empresa Familiarmente Responsável, a primeira empresa FMCG com esta certificação em 2014, um legado que ainda hoje me enche de orgulho.
Patrícia Santos, CEO da Zome

O meu maior desafio como mulher líder foi também o meu maior triunfo: o de vencer a batalha interna entre a minha ambição profissional e a minha missão como mãe.
Foi uma jornada de autoconhecimento e libertação da culpa.
Aquela culpa que tantas vezes me assombrava por querer evoluir na carreira, por ter de viajar em trabalho, por não poder estar sempre presente na vida das minhas filhas.
Aquela angústia que me apertava o coração, quando me perguntava se estava a ser uma boa mãe, se estava a ser egoísta, se estava a perder momentos preciosos.
Mas compreendi que esses pensamentos não me faziam crescer, nem me faziam feliz.
Entre fraldas e reuniões, aprendi que ser mãe é uma profissão sem diploma, mas cheia de desafios e emoções:
Tem de saber um pouco de tudo, desde mudar fraldas até reparar canalizações, desde dar colo até repreender, desde contar histórias até fazer contas.
Tem de ter muitas competências, para lidar com a diversidade, para acalmar a ansiedade, para estimular a curiosidade, para resolver a dificuldade, para incentivar a bondade.
Tem de ter um sorriso no rosto, mesmo após uma noite mal dormida; tem de ser líder, sem ser tirana; tem de ser firme, sem ser dura; tem de ser flexível, sem ser mole; tem de ser adaptável, sem se perder; tem de ser resiliente, sem se abater, e tem de ser empática, sem se anular.
E ainda tem de ter um dom especial, para entender o que está por trás do olhar, para captar o que não se diz, mas que se sente, para saber o que se quer, mas que não se pede.
Tem de ser inovadora, sem ter medo, tem de ser criativa, sem limites: Afinal, quem mais poderia transformar uma simples ida ao supermercado numa aventura educativa? Ou arrumar a sala numa atividade de team building?
Percebi que liderar e ser mãe são duas faces da mesma moeda. Ambos requerem amor, dedicação e uma paixão por servir e estar ao serviço.
Venci o meu maior desafio, que era eu mesma, libertando-me da culpa e ganhando a consciência que para ser uma boa mãe tenho de ser uma mulher feliz e realizada, valorizando os momentos em família pela qualidade e não pela quantidade.
Celebro e agradeço cada instante em que as minhas filhas me olham com admiração e me dizem que sou a melhor mãe que elas podiam ter.
E quando o “vírus” da dúvida tenta infetar-me de novo, ativo o “anti-vírus”, que é a lembrança da minha filha a contar que, na escola, quando escolheu o seu super-herói favorito e porquê, disse com orgulho: a minha mãe! Porque ela adora ajudar os outros e quando quer algo ela luta e não desiste.
São estes momentos que fortalecem a confiança na jornada que escolhi seguir e me fazem sentir orgulho da mulher e mãe que sou, pelas extraordinárias qualidades humanitárias das minhas filhas e pela sua iniciativa de fazer a diferença e servir a comunidade.
Aprendi que ser líder e mãe é ser um exemplo, mostrando a importância da realização pessoal para o nosso bem-estar e o bem-estar de todos à nossa volta.
Sandra Monteiro, Diretora-Geral do MAR Shopping Matosinhos

Segundo estudos recentes, as mulheres representem atualmente cerca de metade da força de trabalho total, contudo só uma em quatro mulheres ocupa um cargo de liderança.
Num mundo ainda liderado por homens, é certo que ainda há barreiras a quebrar nas empresas rumo a uma maior igualdade. O género é apenas uma delas. Gostaria de salientar que o meu percurso na Ingka Centres é apenas um exemplo do compromisso da empresa em promover um ambiente em que haja 50/50% de cargos ocupados por homens e mulheres.
Considero, assim, essencial que os cargos e os salários sejam estabelecidos consoante o mérito e a competência, independentemente de género, religião, etnia ou orientação sexual.
Em suma, sinto-me uma privilegiada por trabalhar numa empresa que promove a igualdade e a diversidade e que nos dá a oportunidade de crescer e aprender coisas novas todos os dias. O maior desafio para as mulheres continua a ser a conciliação e o equilíbrio entre as vidas profissional e familiar e eu ter conseguido faz de mim, definitivamente, uma mulher muito completa e feliz.








