Na nova realidade empresarial, a digitalização é essencial para impulsionar o crescimento e a eficiência das organizações. À medida que o mundo se torna cada vez mais interconectado, a capacidade de adotar e integrar tecnologias digitais torna-se crucial para a sobrevivência e sucesso no mercado.
A Executive Digest conversou com Ricardo J. Machado, que lidera o Instituto CCG/ZGDV, um dos mais conceituados Centros de Tecnologia e Inovação do país na área das Tecnologias de Informação e Comunicação, para perceber a forma como as tecnologias e digitalização podem impulsionar o crescimento das empresas.
É Presidente do CCG/ZGDV desde 2020 e responsável pela criação, em 2008, de um dos seus atuais departamentos de investigação e inovação. Há mais de três décadas que dedica o seu trabalho à educação, investigação, inovação e empreendedorismo.
Como é que a investigação do CCG/ZGDV pode ajudar as empresas a enfrentar desafios específicos nos seus setores, como otimização de processos, redução de custos ou melhoria da eficiência?
Ao desenvolver investigação aplicada no âmbito da computação gráfica, computação ubíqua, interação pessoa-máquina e engenharia de informação, o Instituto CCG/ZGDV tem capacidade para ajudar as empresas a manterem-se competitivas, inovadoras e adaptadas às mudanças tecnológicas em constante evolução, nomeadamente no que diz respeito à conceção e prototipagem de novos processos, serviços e produtos de elevado valor para a economia digital. Globalmente, o CCG/ZGDV melhora a eficiência das organizações através da prototipagem e integração de tecnologias emergentes, como Internet das Coisas (IoT) e análise de dados em tempo-real, do desenvolvimento de ferramentas de visualização de dados para facilitar a tomada de decisões e da conceção de soluções de realidade virtual/aumentada para treino de trabalhadores em operações processualmente complexas. Nestes contextos, o CCG/ZGDV desenvolve habitualmente algoritmos avançados para otimizar processos empresariais, prototipa soluções de automação baseadas em inteligência artificial para melhorar a eficiência operacional e aplica novas técnicas de visualização e análise de dados para identificar gargalos (bottlenecks) e áreas de melhoria nos processos, reduzindo os custos de operação das organizações através da gestão eficiente de recursos, como energia, matéria-prima, ou mão de obra.
Como analisa o tecido empresarial nacional no que respeita à implementação de tecnologias e digitalização para a melhoria de processos?
Na última década, o tecido empresarial português tem estado envolvido num processo crescente de digitalização das suas atividades, não só para melhorar e tornar mais eficientes os seus processos, mas também para marcar a sua presença na economia digital. As políticas públicas têm vindo a promover programas de financiamento para incentivar a transformação digital das empresas, tendo resultado num grande aumento da conscientização sobre a importância da digitalização dos processos organizacionais e da necessidade de investir na formação dos recursos humanos para lidar com tecnologias digitais. A pandemia COVID-19 contribuiu para acelerar a experimentação de tecnologias digitais, pelo facto de muitas empresas terem sido forçadas a adotar soluções remotas e digitais para manter a continuidade dos seus negócios. O interesse recente por parte das empresas para adotarem tecnologias de IoT, de inteligência artificial, de big data, de blockchain, de entre outras, tem levado a que entidades de investigação aplicada, como o CCG/ZGDV, sejam solicitadas a participar ativamente nos seus processos de modernização tecnológica.
Qual o papel na Inteligência Artificial no desenvolvimento do tecido empresarial nacional? Como podem os líderes aproveitar as suas potencialidades?
A Inteligência Artificial (IA) desempenha, na atualidade, um papel muito significativo no desenvolvimento do tecido empresarial nacional, em primeiro lugar porque, como referi anteriormente, tem sido, juntamente com outras tecnologias, catalisadora do recente movimento de transformação digital que está a ocorrer, de forma generalizada, nas empresas. Os líderes empresariais têm privilegiado, sobretudo, a adopção de tecnologias de IA na automatização de tarefas rotineiras e repetitivas e no suporte à análise de grandes conjuntos de dados para fornecer insights valiosos e identificar padrões que podem orientar a tomada de decisões, tipicamente ao serviço da melhoria da eficiência das suas organizações. Os quatro departamentos de I&I (Investigação e Inovação) do CCG/ZGDV desenvolvem investigação aplicada no âmbito da inteligência artificial que vai totalmente ao encontro das necessidades do nosso tecido empresarial. Destaco a nossa grande experiência em algoritmos para visão computacional, em aprendizagem computacional para análise de dados de negócio e para optimização de processos organizacionais, em raciocínio automático aplicado a robótica colaborativa e em localização inteligente de pessoas e objectos em ambientes de computação ubíqua. Este nosso percurso levou à atribuição, pela Big Data Value Association (BDVA), do BDVA i-Space gold label, a máxima distinção atribuída às entidades europeias que promovem a adopção de Big Data e que desenvolvem inovação baseada em IA em todos os domínios da indústria europeia. O estatuto de Entidade de Utilidade Pública reconhecido pela Presidência do Conselho de Ministro, pelos serviços científicos prestados à sociedade através dos cerca de cerca de quatro centenas de projectos concretizados nestes 30 anos, obriga-nos a ser extremamente cuidadosos no enquadramento deste tipo de tecnologias em referenciais éticas e legais de privacidade, designadamente o Regulamento Geral de Proteção de Dados, bem como a futura Lei Europeia sobre a Inteligência Artificial.
Em que consiste o passaporte digital do produto têxtil? De que forma o CCG/ZGDV trabalha com este setor histórico português e que soluções procuram?
O termo “passaporte digital” tem sido utilizado para referir o conjunto de dados, armazenados em suporte digital, caracterizadores de um produto específico relativos ao processo produtivo que lhe deu origem, bem como correspondente a atributos intrínsecos ao próprio produto. No caso do produto têxtil, o passaporte digital pode incluir dados sobre a origem dos materiais e eventuais práticas agrícolas sustentáveis, os métodos utilizados na produção têxtil, as condições de trabalho na produção das peças têxteis, as certificações obtidas (como orgânicas, de comércio justo ou de padrões ambientais) e os métodos de reciclar o produto no final da sua vida útil. A implementação de passaportes digital para produtos têxteis visa aumentar a transparência na cadeia de abastecimento, fornecendo aos consumidores informações mais detalhadas sobre a origem e os aspectos sustentáveis dos produtos que estão a adquirir, o que pode ser particularmente relevante num contexto em que os consumidores estão cada vez mais conscientes e interessados na sustentabilidade e na ética associadas aos produtos que consomem. No âmbito do projecto be@t – Bioeconomia na Indústria Têxtil, cujo objetivo global consiste na geração e consolidação de uma Fileira Nacional da Indústria Têxtil e Vestuário verdadeiramente inovadora, sustentável e circular, o CCG/ZGDV está a desenvolver, em parceria com outras entidades, o passaporte digital do produto têxtil. O be@t resulta da parceria, já de longos anos, que o CCG/ZGDV estabeleceu com o Cluster Têxtil – Tecnologia e Moda, sendo o coordenador do Grupo de Interesse Especial (SIG) sobre a Digitalização. Este projecto insere-se numa das linhas de trabalho mais intensas do CCG/ZGDV, nomeadamente a transformação digital na Indústria (vulgarmente designada de “Indústria 4.0”). Nesta linha de trabalho, temos outros projetos em curso, com empresas nacionais e multinacionais, relacionados, por exemplo, com a criação de digital twins das linhas de produção. A enorme experiência de 30 anos do CCG/ZGDV nestes domínios levou a que fosse, recentemente, designado coordenador das atividades de testar antes de investir do Pólo Europeu de Inovação Digital (EDIH) Produtech.
No que respeita ao tema das cidades inteligentes, como analisa o cenário atual em Portugal, e qual o contributo do CCG/ZGDV neste âmbito?
O conceito de “cidade inteligente” refere-se a um modelo de desenvolvimento urbano que utiliza tecnologias da informação e comunicação para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, através da otimização da gestão urbana e da promoção da sustentabilidade. Nos últimos anos, este conceito tem dado origem a uma aposta estratégica por parte das entidades públicas nacionais e das de administração dos municípios e territórios de várias regiões do país, resultando em programas de investimento e em acções concretas conducentes a um considerável número de mudanças tecnológicas. Destaco: o alargamento das redes de comunicações de alta velocidade e a instalação de sensores e dispositivos IoT; a implementação de sistemas inteligentes de iluminação, de gestão de resíduos e de monitoração de consumo energético e da qualidade do ar; a promoção de soluções de transporte público eficiente, partilhando veículos, bicicletas públicas e sistemas de transporte autónomos, por forma a reduzir congestionamentos, emissões de poluentes e melhorando a mobilidade; o envolvimento dos cidadãos na gestão urbana através da utilização de plataformas digitais, aplicações móveis e sistemas de feedback. No âmbito do projecto mobilizador CityCatalyst, recentemente terminado, em parceria com empresas de plataformas urbanas e com quatroCâmaras Municipais (Vila Nova de Famalicão, Porto, Aveiro e Guimarães), o CCG/ZGDV desenvolveu mecanismos de interoperabilidade tecnológica através de arquitecturas avançadas de federação de dados pluri-municipais e um serviço para plataformas urbanas de auto-aprendizagem computacional no suporte à análise de dados e previsão de cenários de tomada de decisão sobre mobilidade eléctrica e urbana, consumos energéticos e sustentabilidade ambiental. Actualmente, no âmbito do projecto Be.Neutral estamos envolvidos na concepção de plataformas de gestão da mobilidade urbana de veículos eléctricos de duas e quatro rodas. No contexto da Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes, estamos com diversos municípios da região metropolitana do Porto, nomeadamente, na avaliação de maturidade do desenvolvimento digital dos territórios.
No âmbito da condução autónoma, o que está a ser desenvolvido pelo CCG/ZGDV e pelos seus parceiros, e que resultados esperam alcançar?
Desde 2013, o CCG/ZGDV tem vindo a colaborar com a Bosch Car Multimedia, no estudo de diversos fenómenos relevantes para a prototipagem de soluções tecnológicas relativas à condução autónoma e semi-autónoma de veículos, nomeadamente no que respeita ao “ensino” de veículos autónomos a lidar com o tráfego complexo e a interagir com peões e ciclistas, e a compreender sinais e gestos humanos. No âmbito do projecto europeu 5G-Mobix (projecto âncora da Comissão Europeia para o estímulo à cooperative, connected and automated mobility) coordenámos o grupo de trabalho que implementou o corredor Luso-Espanhol de validação de tecnologias 5G ao serviço da mobilidade autónoma, cooperativa e conectada. Para suportar estes projectos, dispomos de diversas infraestruturas laboratoriais avançadas, tais como, simuladores ciber-físicos e de condução de veículos de duas e quatro rodas e a única Cave Automatic Virtual Environment (CAVE) existente no país. A nossa CAVE consiste num ambiente de realidade virtual imersiva com imagens 3D estereoscópicas, em grande escala e em tempo-real, sincronizadas com áudio espacial e equipada com sistemas de monitorização da posição e orientação dos utilizadores (dentro da CAVE), através de dispositivos de interação com o ambiente virtual, possibilitando a manipulação de objetos e a navegação no espaço. Destes projectos têm resultado avanços significativos em algoritmos de aprendizagem e de visão computacionais, bem como diversos contributos sobre a forma como os humanos interagem, cooperam e controlam máquinas explícita ou implicitamente computacionais.
Qual o volume total de investimentos realizados e para onde foram canalizados principalmente? Quais os projetos e previsões para o futuro?
Estamos envolvidos em seis Agendas Mobilizadoras de Inovação e uma TestBed do PRR, com um volume total de investimento CCG/ZGDV de mais de 15 milhões de euros. Reforçamos assim o nosso total comprometimento com os nossos parceiros empresariais no desenvolvimento de tecnologia com prontidão de nível 7, para problemáticas económicas e sociais tão diversificadas como mobilidade urbana, transição energética, digitalização dos processos da indústria transformadora, da indústria têxtil e da cerâmica e do vidro, digitalização de processos e de produtos da área da saúde. Planeamos investir, adicionalmente, cerca de 4 milhões de euros no alargamento das nossas competências científicas, na acreditação de um laboratório de certificação de software, na criação de um gabinete de capacitação empresarial e de formação especializada e de um outro dedicado à transferência de tecnologia. Estando todas estas apostas firmadas no nosso projecto estratégico aprovado pelo Ministério da Economia, no âmbito do nosso reconhecimento enquanto Centro de Tecnologia e Inovação (CTI), projetamos a expansão e adaptação do nosso edifício, até porque temos a necessidade de mais espaço para acolher as novas equipas (permitindo passar dos actuais 130 colaboradores para cerca de 250), os novos equipamentos e as novas áreas de teste e experimentação tecnológica. Acredito que, nos próximos cinco anos, estes investimentos serão capazes de impulsionar o CCG/ZGDV para um outro nível de catalisação da adopção das tecnologias digitais na economia nacional e europeia.










