Portugal encontra-se na fase 1 do alívio de medidas, mantendo apenas algumas regras, nomeadamente o uso obrigatório de máscara em espaços fechados, o isolamento de infetados com Covid-19 e a apresentação de certificados/testes em locais específicos.
Segundo o plano apresentado por peritos e autoridades de saúde, esperava-se que no início do próximo mês de abril (dia 3, estimou a diretora geral da saúde), o país avançasse para a fase 0, onde todas as regras seriam eliminadas.
A ministra da saúde, Marta Temido, disse na terça-feira que Portugal estava “em condições de cumprir aquilo que estava programado, a não ser que haja uma circunstância imprevista”.
Mas especialistas ouvidos pela Multinews discordam e deixam avisos de que é imprudente aliviar neste momento, sobretudo por causa da subvariante da Ómicron, que tem contribuído para um aumento de infeções.
Máscaras devem manter-se obrigatórias
“Estamos a testemunhar a afirmação da subvariante BA.2, com os números a mostrar que podemos estar perante algum crescimento (de casos) em determinadas zonas do país”, refere Bernardo Gomes, professor na Faculdade de Medicina e no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).
O responsável recorda também que a questão dos óbitos, que foi tida como decisão para o alívio de medidas, “é um indicador tardio e por isso não me parece a melhor forma de encarar a situação”, até porque, alerta, “a pandemia ainda não acabou”.
“Julgo que o cuidado com os espaços interiores, sobretudo públicos, é importante e eu ficaria mais confortável com a retenção da obrigatoriedade da máscara”, afirmou. “A questão dos certificados é algo acessório, agora a mensagem chave da necessidade de FFP2, em contexto de espaços fechados de primeira necessidade deve passar”, reiterou.
Bernardo Gomes ressalvou ainda que devemos ter “noção de que mesmo que essa não seja a decisão e se opte pela recomendação, a exposição ao vírus não é desejável”, por outro lado, “alguma mitigação do risco, sobretudo em espaços interiores é o pretendido, a moral da história é esta”.
“É sempre importante fazer um balanço entre a recomendação e a obrigação, agora a mensagem não pode ser logo de facilitação”, afirmou adiantando que se for essa a decisão das autoridades, as pessoas até podem aliviar, desde que isso não esteja “alheado da cautela” e que a “a recomendação se mantenha sempre”, porque esta “não é uma questão individual, mas sim coletiva”.
Incidência do vírus “continua preocupante”
Da mesma opinião é Gustavo tato Borges, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP). “Há aqui uns dados que temos de ter em atenção: na última semana o número de casos tem vido a aumentar, com particular preocupação em Lisboa e no Alentejo”, sublinhou.
“Este aumento de casos precisa ainda de ser estudado para perceber se estamos em condições de no início do próximo mês avançar para esse alívio, temos de aguardar para ver”, disse ressalvando que “nesta fase ainda não estão reunidas as condições para levantar as poucas medidas que restam. Provavelmente inícios de abril poderá ser cedo demais, talvez meados ou finais desse mês”.
Tato Borges explicou que temos ainda uma incidência elevada do vírus, não há quase nenhum concelho abaixo dos 960 casos por 100 mil habitantes, o que continua a ser preocupante e precisamos de ter um pouco mais de controlo, colocar uma pedra em cima desta pandemia, para que quando aliviarmos as medidas não nos venhamos a arrepender”.
“Tem sido a subvariante da Ómicron a principal causa das infeções em Lisboa e no Alentejo, que tem levado ao aumento de casos e por isso precisamos de perceber se vamos conseguir estabilizar este aumento, ou se, pelo contrário, a BA.2 veio mesmo para nos preocupar, como está a acontecer no Reino Unido, por exemplo”, reiterou.
Para o médico de saúde pública, “importa agora ter calma, já não temos praticamente medidas restritivas nenhumas, o que pode aumentar a circulação do vírus e portanto é bom ter expectativas para aliviar medidas, mas é preciso estar cientes de que não podemos dar um em passo falso”.
Alívio total deve ser adiado para finais de abril
Também Henrique Oliveira, investigador do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, corrobora estas posições. “Não estamos em condições de aliviar já. A incidência está a crescer e o Rt já está acima de 1, causando um aumento de casos. A única coisa que podia evitar o alívio das medidas era o surgimento de uma nova variante”, o que aconteceu com a BA.2, afirmou.
“Ela tem agora uma alta taxa de reinfeção e propaga-se ainda mais do que a variante original da Ómicron. O nosso indicador de controlo da pandemia já esteve em 64, e agora vai em 80, está a subir a sete dias por causa do Rt. Provavelmente vão subir os internamentos e cuidados intensivos, ligeiramente, não como em janeiro, mas vão subir”, alertou.
Nesse sentido, o especialista recomenda “prudência neste momento”, vendo “com muita dificuldade a retirada das máscaras, porque é um mau sinal, é uma das últimas coisas que faltam”, mas que não deve ser já aliviada, só no final do próximo mês. “O surgimento desta nova variante adiou o alívio das medidas em cerca de um mês, ou seja, só em finais de abril, entre 21 e 30”, apontou.
“O problema é que as autoridades de saúde têm de olhar para os números e decidir. Se começarem a subir, os casos internamentos e óbitos (o que já se verifica) é porque já passou o tempo útil de 4 meses de proteção da vacinação e isso tem de ser tido em consideração, nomeadamente nos mais idosos”, concluiu.







