A solução ‘verde’ que se tornou uma ilusão: biocombustíveis derivados do amido (afinal) poluem mais que os combustíveis ‘normais’

Sempre que abastece um veículo numa bomba de gasolina, 10% desse combustível vem de plantas e não do petróleo

Francisco Laranjeira

A solução verde para os combustíveis pode, afinal, não ser tão ‘verde’ assim: cada vez que abastece o seu veículo numa bomba de gasolina, 10% desse combustível vem de plantas, não do petróleo. Veja-se o exemplo dos Estados Unidos: o ‘Renewable Fuel Standard’ (RFS) foi promulgado pela primeira vez em 2005 e exige que as empresas adicionem etanol, um líquido combustível derivado do amido, a todos os combustíveis. Inicialmente proposto para aumentar a produção de etanol de várias fontes, acabou por ser o milho a tomar a primazia: 95% do etanol americano provém desta fonte.

O programa RFS pretendia reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo estrangeiro e minimizar a carga ambiental dos milhares de milhões de quilómetros que os americanos fazem em estrada todos os anos. No entanto, os méritos desta política, em particular os efeitos ambientais, têm sido muito debatidos desde o seu início – um novo estudo, publicado recentemente na revista ‘Proceedings of the National Academy of Sciences’, reforçou o argumento de que a política fez mais mal ao planeta do que bem.



Os investigadores concentraram-se nos custos da mudança climática para criar terras agrícolas adequadas para o cultivo de todo o milho necessário para o etanol – que incluem o carbono libertado quando as pastagens e florestas são cortadas para dar lugar à agricultura intensiva, os gases de efeito estufa emitidos pelos fertilizantes aplicados nas plantações e as consequências da erosão do solo e poluição da água. Foram comparados os dados ambientais, entre 2008 e 2016, com modelos do que poderia ter acontecido sem o RFS – a conclusão apontou que as mudanças tornaram o gaseamento 25% mais intensivo em carbono.

Não foram incluídas as emissões de carbono do fabrico de etanol de milho ou dos fertilizantes, “pelo que as nossas estimativas podem ser conservadoras”, explicou Tyler Lark, principal autor do estudo e cientista de sustentabilidade da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

“Precisamos pensar em coisas como reduzir os nossos custos gerais de transporte e melhorar a eficiência”, garantiu Lark, tais como biocombustíveis derivados de gramíneas nativas perenes que também podem fornecer habitat para a vida selvagem e ajudar a capturar o carbono do solo.

“Se quisermos reduzir as emissões de gases de efeito estufa do transporte, não devemos tentar-nos livrar do problema”, explicou Jason Hill, engenheiro de biossistemas da Universidade de Minnesota, que não esteve envolvido no estudo. “A ideia é usar menos combustível em vez de mais. O ‘Renewable Fuel Standard’ não cumpriu as suas promessas climáticas.”

“A terra não é gratuita”, frisou Tim Searchinger, especialista em política agrícola e ambiental da Universidade de Princeton, que também não esteve envolvido na nova pesquisa. Na realidade, a terra e a forma como a usamos tem imensa importância – um acre de milho convencional que é fertilizado várias vezes ao ano, pulverizado com pesticidas, cultivado, irrigado e colhido tem uma pegada de gases de efeito estufa diferente de um acre de pradaria nativa ou floresta que retém carbono, melhora a saúde do solo e fornece habitat para a vida selvagem.

“Estamos num momento em que a ação climática é mais urgente do que nunca”, apontou Tyler Lark. “Neste ponto, não podemos realmente permitir outro erro do tamanho do etanol de milho.”

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