A Comissão Europeia não realizou uma avaliação de impacto económico de seu esforço para reduzir as importações de gás russo em dois terços até o final do ano, o primeiro passo de seu plano de 300 mil milhões de euros para eliminar completamente as importações de energia russa até 2027, segundo revelou esta terça-feira o ‘EURACTIV’ – em vez de uma avaliação, a Comissão realizou uma “simulação” na sua previsão económica da primavera que considerou o impacto de uma interrupção abrupta das importações de qualquer gás russo.
“Em comparação com uma interrupção abrupta das importações de gás russo, uma redução gradual de 2/3 seria muito mais suave, pois empresas e consumidores teriam tempo para se preparar e os Governos poderiam garantir infraestrutura crítica para importações alternativas”, assegurou um porta-voz da Comissão.
No entanto, as empresas de todo o bloco europeu estão cautelosas com as consequências económicas da mudança. Desde o início da guerra na Ucrânia, a Alemanha reduziu a sua dependência das importações de gás da Rússia, representando mais da metade de todas as importações de gás, em cerca de 35%. Até o final do ano, Berlim planeia reduzir ainda mais as importações para 30% das suas importações totais de gás, quase metade do que importou no ano passado.
No entanto, a diminuição da dependência alcançada até agora é parcialmente impulsionada por uma diminuição da procura na indústria alemã. “Devido ao rápido aumento dos preços do gás, a procura pelo gás está a cair incessantemente, até 10% na indústria apenas nos primeiros meses da guerra”, anunciou Claudia Kemfert, chefe do departamento de Energia, Transporte e Meio Ambiente no Instituto Alemão de Pesquisa Económica (DIW).
Enquanto isso, as empresas alemãs criticam o plano da Comissão de reduzir as importações de gás russo em dois terços até o final do ano. “A forte vontade e o plano da Comissão da UE de cortar o fornecimento de dinheiro à Rússia através de um embargo de energia não passará despercebido às empresas”, alertou Marc S. Tenbieg, diretor executivo da Associação Alemã de Pequenas e Médias Empresas.
Mesmo que fosse encontrada uma alternativa às importações de gás da Rússia, um embargo de gás “levaria não apenas a encargos adicionais consideráveis para a economia alemã no curto prazo, mas também à procura de compensação por parte das empresas”, acrescentou.
No entanto, os analistas estão convencidos de que tal redução é sustentável sob certas condições. “É possível reduzir as importações de gás russo e que podem até ser dispensadas por completo”, frisou o especialista económico Kemfert – a Alemanha teria de aumentar as importações de GNL, encher os depósitos de gás, introduzir medidas para economizar gás e investir fortemente em energia renovável para atingir esse objetivo.
O corte do gás russo pode levar a perdas de até 5% do PBI na Alemanha e repercussões negativas consideráveis em outros países europeus.
Outras grandes economias europeias podem ser ainda mais atingidas. A desaceleração do crescimento do PIB da Itália será mais evidente do que no resto da Europa devido aos laços económicos e energéticos do país com Moscovo, apontou o comissário da Economia e ex-primeiro-ministro Paolo Gentiloni. “Num cenário de pior caso que simule o impacto de preços de energia mais altos por um período mais longo, juntamente com uma interrupção completa no fornecimento de gás da Rússia, daria um crescimento negativo para este ano”, acrescentou.
Após semanas de intensas conversas e desentendimentos, os líderes da UE chegaram a um acordo político para impor uma proibição parcial do petróleo russo. Uma medida para proibir o gás russo está, no entanto, “realisticamente fora da mesa”, garantiu um diplomata da UE ao ‘EURACTIV’. “Se houve tanta confusão com o petróleo da Rússia, imagine o que aconteceria com uma proposta para proibir o gás”, apontou. Fora da mesa está novo pacote de sanções num futuro próximo. “O 7º pacote de sanções contra Moscovo será extremamente difícil […] Estamos muito perto de atingir os nossos limites. O que poderá incluir o 7º pacote?”, finalizou.




