Rússia mobiliza secretamente militares enquanto Kremlin teme reação de recrutamento

Vladimir Putin sabe que uma mobilização geral seria uma decisão muito impopular na Rússia

Francisco Laranjeira

As autoridades da Rússia estão envolvidas numa campanha de mobilização secreta, depois das especulações de que o presidente Vladimir Putin iria utilizar as comemorações do Dia da Vitória, a 9 de maio último, para anunciar uma mobilização em massa.

O presidente russo não usou, como havia sido previsto, o fervor patriótico das celebrações do triunfo na II Guerra Mundial para declarar guerra, o que lhe daria justificação para o recrutamento generalizado para ajudar a reforçar as perdas de tropas na sua invasão da Ucrânia. Ao sustentar que a guerra é uma “operação militar especial”, a Rússia não está tecnicamente em guerra e, portanto, soldados voluntários podem renunciar e os recrutas, em teoria, não podem ser enviados para a Ucrânia. No entanto, há relatos crescentes de esforços conjuntos para fazer com que os russos se alistem nas forças armadas, segundo garantiu esta terça-feira a revista ‘Newsweek’.



A 13 de maio último, a ‘BBC’ russa informou que, nas últimas semanas, os escritórios de registo e alistamento militar enviaram “intimações” aos homens. Desde o início de março, milhares de vagas para militares contratados foram publicadas nos sites de procura de emprego civil ‘HeadHunter’ e ‘SuperJob’. As instituições governamentais russas em todo o país estão a recrutar funcionários para “especialistas em mobilização em tempo de guerra”. Um anúncio do Departamento de Assuntos Internos do distrito noroeste de Moscovo, publicado a 29 de abril, pedia que os candidatos realizem uma série de tarefas – estas incluíam desenvolver e ajustar “documentos de planeamento de mobilização” e implementar “decisões especiais de órgãos executivos federais em termos de prontidão para mobilização e treinamento de mobilização”.

Embora o Kremlin tenha negado repetidamente os planos de mobilização em massa, os especialistas apontaram para uma escassez de mão de obra que ameaça a campanha de Putin. Rob Lee, analista militares, garantiu que Putin entende que a mobilização seria “muito impopular” e que a Rússia pode continuar a operação atual por enquanto, “mas não pode fazer isso para sempre”.

No entanto, qualquer movimento para declarar guerra e se mobilizar pode representar outros problemas para Putin. Evgenia Albats, editora da publicação russa independente ‘The New Times’, apontou que Putin “entende que para os russos toda essa ideia de uma guerra é muito difícil de compreender”. “Perdemos 27 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, então para os russos pode ser uma guerra de defesa, não uma guerra de conquista”, explicou. “A mobilização é um passo mortal para Putin, então realmente duvido que ele vá fazer isso.”

Glen Grant, especialista sénior em defesa do think tank ‘Baltic Security Foundation’, que aconselhou a Ucrânia na sua reforma militar, lembrou que Putin precisa de mais mão de obra. “É uma mobilização silenciosa no momento. Eles estão a mobilizar-se mas não estão a dizer que o estão a fazer”, explicou. “O meu sentimento é que eles vão mobilizar-se totalmente porque tudo vai desmoronar. Eles não têm capacidade de treinar pessoas. Eles vão fazer isso silenciosamente ao ritmo que podem pagar.”

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