Muito se tem especulado sobre o que está Putin a preparar para as celebrações do 77º aniversário do fim da II Guerra Mundial? Uma falsa vitória ou uma vitória suja na Ucrânia?
Dia 9 de maio é o ‘Dia da Vitória’ para os russos e o presidente russo tem previsto fazer um anúncio especial relacionado com a guerra na Ucrânia. Historicamente, a data ficou sempre marcada por discursos poderosos, perante uma congregação de massas populares e exibição do poderio militar russo na Praça Vermelha em Moscovo – este ano, inquestionavelmente, não será menor. Em 1945, ficou marcado o fim da II Guerra Mundial para a Rússia. Para a Europa e Estados Unidos celebra-se no dia 8, isto devido a um desfasamento horário – a capitulação nazi deu-se às 22h43 de dia 8, que correspondia à 00h43 de Moscovo.
Há sete anos, com as tropas russas já em território ucraniano, no Donbass e Crimeia, todos os líderes ocidentais rejeitaram o convite de Putin para assistir à festividade mais sagrada e patriótica da Rússia, ainda para mais num aniversário ‘redondo’. No entanto, estiveram presentes mandatários das potências que atualmente dão oxigénio a Moscovo por entre as sanções ocidentais: China e Índia.
Mas houve um detalhe interessante. No dia seguinte, a 10 de maio de 2015, houve um chefe de governo europeu que aceitou regressar a Moscovo: nada menos do que Angela Merkel, chanceler alemã que cresceu, tal como Putin, em território da URSS, que domina o russo e é respeitada nos salões dourados do Kremlin. Merkel quis homenagear a memória dos mais de 20 milhões de soviéticos mortos às mãos do Terceiro Reich e manter aberta a ponte entre Berlim e Moscovo, pese embora a guerra perigosa em que Putin tinha entrado.
Nos discursos do ‘Dia da Vitória’, pronuncia-se, com lógica, a palavra “nazi” em algumas ocasiões em referência ao essencial e relevante que deve ‘sobrar’ do horror do Terceiro Reich. No entanto, este termo perdeu contextualização na boca de Putin. Desde o final de fevereiro, o presidente russo tem insistido que a “operação militar especial” na Ucrânia tem por objetivo acabar com os “elementos neonazis” e travar o “genocídio” – ou seja, uma narrativa semelhante à usada para explicar os tristes e verídicos acontecimentos da II Guerra Mundial. Por isso, há a curiosidade em verificar que terminologia vai usar Putin na próxima segunda-feira.
Nesta altura as opções são múltiplas: uma vitória falsa, batizada como a “libertação” da Ucrânia; a queda de Mariupol, falando-se até da possibilidade de acontecerem celebrações do ‘Dia da Vitória’ nesta cidade; ou um triunfo sujo através de um ataque com uma arma nuclear tática, embora líderes russos tenham afastado esse cenário nos últimos dias.
O que está claro que é nos festejos na Praça Vermelha não se falará de revezes ou derrotas. Certo é que se vai ocultar todos os tropeções russos na Ucrânia. Putin tem cometido os mesmos erros estratégicos de Hitler, que conduziu o seu exército a várias derrotas por ‘saltar’ a cadeira de comando e dar ordens diretas no campo de batalha, provocando o caos, descontrolo e fracasso.
O momento mais perigoso desde a Segunda Guerra Mundial com “riscos terríveis”
“Julgo que a mensagem principal do presidente Putin vai ser dirigida ao seu povo por um lado e evidentemente à NATO e à Ucrânia”, considerou Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático de Filosofia na Universidade de Lisboa, em declarações ao MultiNews.
“Em relação ao povo russo, existe uma forte probabilidade de Putin apresentar uma imagem da situação, nomeadamente uma imagem que no Ocidente não temos, de que não se trata de uma guerra entre um estado mais frágil, a Ucrânia, e um estado mais forte, a Rússia, mas sim uma guerra entre a Rússia e a NATO por intermédio da Ucrânia”, antevê Soromenho-Marques.
O professor universitário acrescenta que “não é de excluir a possibilidade de neste discurso Putin acentuar o perigo existencial para a Rússia e passar da terminologia ambígua da ‘operação militar especial’ para uma declaração de guerra aberta à Ucrânia”. “Isso vai permitir-lhe uma mobilização geral, apelar a um esforço de guerra e tornar os riscos de expansão da guerra muito maiores”, observou.
Quanto à mensagem para a NATO e para a Ucrânia, Soromenho-Marques acredita que “Putin vai chamar a atenção do Ocidente de que a possibilidade da Rússia perder esta guerra é nula e que vai fazer de tudo para a ganhar”.
Advertindo que “nunca estivemos num momento tão perigoso desde 1945”, lembra que “os principais riscos nesta situação são terríveis e deviam ser medidos”.
“Se se prosseguir com esta estratégia de guerra, e sobretudo se da parte do Ocidente avançarmos numa estratégia de usar os soldados ucranianos e as nossas armas para tentar encostar a Rússia a uma possível derrota militar, corremos dois riscos”, ressalvou Viriato Soromenho-Marques.
“O primeiro é a destruição da Ucrânia. Ou seja, numa situação em que a Rússia esteja a ser vencida da forma convencional na Ucrânia, pode usar armas nucleares. Faz parte da sua doutrina desde 1993 e foi reforçada no ano 2000. A ideia de que perante um inimigo superior esteja a perder no terreno pode legitimar o uso de armas nucleares táticas. E esse ataque poderá ocorrer na Ucrânia. O segundo risco seria que, perante uma situação dessas, houvesse uma escalada por parte da NATO e a NATO respondesse com armas nucleares, atacando as forças russas e a Rússia”, disse o docente universitário, salientando que perante este cenário “estaríamos muito próximos da Terceira Guerra Mundial”.
A solução para evitar a escalada do conflito pode passar por aquilo que Soromenho-Marques define como uma “paz imperfeita”. “Um esforço para negociar diretamente com o Kremlin” e conseguir um cessar-fogo no terreno.
Guerra na Ucrânia não parece ter fim à vista
A invasão da Ucrânia começou no dia 24 de fevereiro, dias depois de Vladimir Putin ter reconhecido formalmente a independência das autoproclamadas repúblicas separatistas de Donetsk e de Lugansk, na região do Donbass.
Putin e o Kremlin esperavam que a operação na Ucrânia fosse rápida, e que no espaço de dias as forças russas tomassem o controlo de Kiev e derrubassem o governo liderado por Volodymyr Zelensky. O objetivo de Putin era colocar no lugar de Zelensky um presidente fantoche controlado a partir de Moscovo.
Mas as forças russas depararam-se com uma forte resistência dos militares ucranianos, e com o passar das semanas também se começou a perceber que a “operação militar especial” russa na Ucrânia carecia da organização e planeamento necessários para obter uma vitória.
Cerca de um mês depois do início da invasão, a Rússia mudou a sua estratégia face às dificuldades que encontrou no terreno. Recuou de Kiev e reposicionou as suas tropas no leste da Ucrânia, na região do Donbass, e reforçou a aposta na conquista de Mariupol, no sul do país.
O recuo de Kiev e de cidades em vilas em seu redor, revelou ao mundo o impacto da presença das tropas russas na Ucrânia: os massacres e atrocidades cometidos em locais como Bucha e Borodyanka chocaram o mundo. A Ucrânia e organizações não-governamentais acusam as forças russas de crimes de guerra, algo que a Rússia tem negado repetidamente.
Atualmente, a Rússia concentra os seus esforços na conquista do Donbass e no controlo de Mariupol, onde ainda subsiste um ultimo reduto de resistência ucraniana, no complexo industrial de Azovstal.



