As empresas agrícolas estão sob crescente pressão de grupos de agricultores ucranianos e políticos da União Europeia para parar de lucrar com os seus negócios na Rússia, embora garantam que o mundo vai passar fome se eles saírem. Não impressionado com os argumentos, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, apontou que esses laços contínuos vão deixar o mercado russo “inundado com o nosso sangue”.
Desde a invasão da Ucrânia no final de fevereiro, muitas empresas reduziram ou pararam os seus negócios na Rússia, mas isso não é verdade para grandes agronegócios como BASF e Syngenta, que têm negócios significativos no fornecimento de sementes e produtos químicos para a enorme indústria de alimentos do país.
Em março, o Fórum Agrário Nacional Ucraniano (UNAF) enviou ao CEO da BASF, Martin Brudermüller, uma carta, revelou o site ‘POLITICO’, com um “apelo urgente” para parar de fornecer agricultores russos até que Moscovo retire as suas tropas da Ucrânia. “Estamos confiantes de que tais ações vão ajudar os russos a entender as consequências dos crimes de Putin e vão contribuir para o fim da guerra”, relatou Mariia Didukh, diretora da UNAF.
No entanto, ao mesmo tempo, os produtores ucranianos também dizem que é extremamente desafiador para eles conseguirem abastecimentos num período de guerra, tendo muitas vezes de confiar nas mesmas empresas que, segundo eles, continuam a lucrar com a Rússia sem problemas.
Dmitry Skornyakov, CEO da HarvEast, uma das maiores empresas agrícolas da Ucrânia, referiu: “Tínhamos um grande contrato com a Syngenta… e a Syngenta simplesmente parou de fornecer à Ucrânia. Tínhamos um contrato pré-pago, pagámos e eles simplesmente não forneceram”, criticou. “De acordo com as minhas informações, ainda fornecem os russos. Porque fazem isso? É muito estranho”, lamentou.
Mas um porta-voz da Syngenta garantiu que a empresa continua a fornecer à Ucrânia, fazendo-o com alto risco e sem esperar lucro. “As mercadorias que enviamos não estão mais seguradas contra perdas”, explicou.
As empresas que fornecem aos agricultores russos equipamentos agrícolas, como colheitadeiras e pesticidas, argumentam que estão numa missão humanitária. A Rússia é o maior exportador mundial de produtos básicos como cevada, trigo e óleo de girassol – particularmente para partes do Médio Oriente e norte da África com intensa insegurança alimentar – e argumenta que milhões de pessoas nos países mais pobres do mundo podem passar fome se se travarem os negócios.
Jon Erik Fyrwald, CEO da gigante chinesa de sementes e produtos químicos Syngenta, argumentou, num post da rede social Linkedin, que fornecer aos agricultores na Rússia e na Ucrânia é “a coisa humanitária a fazer” por causa da ameaça da fome mundial.
“Entendo que negócios contem dinheiro mas também podem contar vidas”, disse Roman Slaston, diretor geral do Clube de Agronegócios da Ucrânia, que está a realizar uma campanha para que outras empresas parem de operar com a Rússia – Com exceção de luxos como vodka e caviar, as várias rondas de sanções da União Europeia contra a Rússia evitaram tocar nos sectores de alimentos e agricultura.
A gigante alemã BASF já anunciou que a empresa assistiu a “quedas significativas nas nossas vendas” após a decisão, a 3 de março, de não procurar “novas oportunidades de negócios” na Rússia e na Bielorrússia – embora sem incluir o negócio da produção alimentar. Outras empresas têm procurado ‘viver’ nesta equação ‘humanitária’: a Bayer garantiu que os seus abastecimentos para a Rússia e Bielorrússia para 2023 eram “contingentes” da paz na Ucrânia, ao passo que a americana Corteva garantiu que entregava “produtos necessários” para os agricultores russos para a colheita de 2022 mas “todas as outras atividades foram suspensas”.
Com um sector de máquinas agrícolas “altamente dependente de importações”, segundo uma análise comercial dos Estados Unidos, a missão de Putin pretender tornar a Rússia mais autossuficiente em alimentos, tendo por objetivo aumentar as exportações em 70% até 2024. “Isso coloca-nos num dilema muito, muito grande”, explicou Per Brodersen, diretor da Aliança Alemã de Agronegócios – os membros de sua aliança, que inclui a Syngenta, BASF, Bayer e CLAAS, que fabrica máquinas agrícolas na Rússia, querem evitar interrupções na produção global de alimentos mas ao mesmo tempo não querem fornecer à Rússia agrotecnologias “para que possam reter coisas sempre que quiserem”. Neste caso, saltam à vista as ameaças de Dmitry Medvedev, antigo presidente russo, que pretende fornecer exportações russas de alimentos apenas para países “amigos”. Medvedev garantiu que as exportações são uma “arma” para lutar contra as sanções ocidentais.
A Rússia proibiu as exportações de grãos para os antigos países soviéticos até ao final de junho e a maioria das exportações de açúcar para o bloco comercial vizinho até ao final de agosto. Ainda assim, Brodersen disse que parar de fornecer tecnologias para a Rússia “teria um impacto tão grande para o mundo inteiro que isso é algo que precisamos considerar com muito cuidado”.






