A perda do navio de guerra ‘Moskva’ será o naufrágio da ofensiva russa na Ucrânia?

Seja como resultado de um ataque ucraniano, como garante Kiev, ou um incêndio acidental, como alegou Moscovo, o desaparecimento do ‘Moskva’, o navio capitão da frota do Mar Negro, é um dos momentos mais marcantes da invasão russa

Francisco Laranjeira

É tentador ver no naufrágio do cruzador russo ‘Moskva’ o símbolo de uma queda maior: o da invasão da Ucrânia pela Rússia. Em primeiro lugar, o evento tem um alcance operacional, especialmente porque a frota russa no Mar Negro não pode ser reforçada pela frota do norte através dos estreitos de Dardanelos e do Bósforo, que a Turquia encerrou desde o início da “operação militar especial” lançada pelo Kremlin. Mas tem, acima de tudo, um significado político: o desaparecimento do principal navio russo parece ilustrar uma reversão gradual do equilíbrio militar, mediático e estratégico entre a Ucrânia e a Rússia, ilustrou o site ‘The Conversation’.

Seja como resultado de um ataque ucraniano, como garante Kiev, ou um incêndio acidental, como alegou Moscovo, o desaparecimento do ‘Moskva’, o navio capitão da frota do Mar Negro, destacou vários aspetos essenciais do confronto militar a decorrer.



Admitido ao serviço ativo em 1983, este navio de mais de 12 mil toneladas, inicialmente batizado de ‘Slava’ (‘Glória’), é um legado da URSS, projetado na década de 1970 por engenheiros soviéticos para travar a segunda Guerra Fria, a da era Brezhnev. Afastado do serviço entre 1990 a 2000, foi uma das ‘estrelas’ do grande plano de modernização lançado em 2009 por Vladimir Putin. O seu naufrágio tornou-se o símbolo dos limites desta modernização das forças armadas realizada há mais de uma década em todas as dimensões (ar, terrestre, marítima e cibernética) para afirmar o poder da Rússia à distância (na Síria desde 2015), mas também perto das suas fronteiras (Cáucaso, Báltico, Mar Negro e Atlântico Norte). Em outras palavras, a combinação da herança militar soviética e a modernização das forças de Putin não foi suficiente para alcançar uma vitória militar decisiva, clara e indiscutível.

Desde o início da invasão, a 24 de fevereiro, apesar das pesadas perdas civis e militares sofridas pela Ucrânia, apesar da destruição de várias cidades e inúmeras infraestruturas e apesar da alegada superioridade das forças armadas russas, Moscovo não alcançou os seus objetivos declarados: mudar o Governo ucraniano e impor um estatuto de estrita neutralidade à Ucrânia.

Para a Ucrânia, que alegou ter afundado o navio como uma ação brilhante – este episódio constitui todo um símbolo de esperança a nível militar: apesar das críticas e beneficiando só recentemente de um apoio limitado do Ocidente, o exército ucraniano ‘vingou-se’ da suposta invencibilidade do exército russo. O desaparecimento do ‘Moskva’ tem um efeito direto na dimensão marítima da invasão russa: se Mariupol no leste e Odessa no oeste são objetivos estratégicos da Rússia, é porque a conquista dessas cidades constituiria para Moscovo a conclusão estratégica da anexação da Crimeia – assim, poderia transformar o Mar Negro no ‘lago russo’ dos tempos soviéticos.

Por um lado, a Rússia minimizou o evento ao tentar diminuir a impressão do seu isolamento internacional, minimizar o número de soldados mortos na Ucrânia e negar as acusações de crimes de guerra. A comunicação de guerra de Moscovo está bem afinada pela experiência: já havia sido ‘testada’ desde o início da operação russa na Síria. Também é sustentado pelo domínio das omnipresentes ‘fábricas de trolls’ nas redes sociais, que encontram eco nos media tradicionais amplamente controlados pelo Governo de Putin em nome da Sagrada União.

Já a estratégia de media da Ucrânia é um claro ‘romper’ com o século XX – em geral devido à comunicação do presidente Zelensky mas também, em particular, com o episódio do naufrágio do navio de guerra, que já havia sido ‘ridiculizado’ no início do conflito, quando os marinheiros ucranianos em Snake Island dirigiram palavras ‘indelicadas’ perante a ameaça russa.

No conflito entre Ucrânia e Rússia pela condução da narrativa, a assimetria de meios e a heterogeneidade de estratégias são marcantes no caso do ‘Moskva’. Por um lado, a propaganda empolada do Estado, baseada na negação sistemática. Do outro, uma nova geração de comunicadores, reativos e ágeis.

A perda do cruzador ‘Moskva’ também sublinhou o estado do equilíbrio de poder político e diplomático entre uma Rússia que luta para alcançar a vitória e uma Ucrânia permanentemente enfraquecida. Este navio era essencial para permitir a superioridade militar da frota russa no Mar Negro. Graças ao seu poder de fogo, a Rússia conseguiu estabelecer um bloqueio das costas ucranianas, dificultando tanto a vida económicas das regiões do sul do país como a afirmação da soberania ucraniana nas suas próprias águas territoriais.

A perda deste navio não é uma “mudança de jogo”: não confirma nem a derrota da Rússia, nem a vitória da Ucrânia. Nem apressa as negociações de cessar-fogo, muito menos prepara as negociações de paz. Como muitos episódios da guerra, este evento não sugere uma saída. Esta é a tragédia desta guerra: sucessos simbólicos são possíveis, mas vitórias definitivas parecem excluídas. Como resultado, as hostilidades parecem-se arrastar, ao custo de várias vidas humanas, principalmente entre civis ucranianos.

Quando foi a última vez que um navio desse tamanho foi perdido na guerra?

O cruzador argentino ‘General Belgrano’ foi torpedeado e afundado pelo submarino britânico ‘HMS Conqueror’ a 2 de maio de 1982, durante a guerra das Ilhas Malvinas. O ‘General Belgrano’ e o ‘Moskva’ eram de tamanho semelhante – cada um com cerca de 600 pés (182 metros) de comprimento – embora a tripulação de cerca de 1.100 a bordo do ‘General Belgrano’ fosse mais do dobro da tripulação do ‘Moskva’, com cerca de 500 homens. Um total de 323 tripulantes morreram quando o ‘General Belgrano’ caiu.

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