Cientistas apresentam solução para a maior corrente de resíduos do mundo: fazer areia

Investigadores da Universidade de Genebra (UNIGE) e do Instituto de Minerais Sustentáveis ​​da Universidade de Queensland (UQ), na Austrália, são os responsáveis por um estudo no qual apresentaram o potencial de uma alternativa viável à areia natural, um material denominado ‘areia de minério’

Francisco Laranjeira

Depois da água, a areia é o recurso natural mais explorado do planeta. Concreto, asfalto, vidro e chips eletrónicos: a areia tem diversas aplicações. Composto por pequenas partículas minerais, este material granular é proveniente de ambientes dinâmicos sensíveis, como mares, praias, lagos e rios ou, de ambientes terrestres estáticos, como depósitos de rios antigos e pedreiras. Estima-se que 50 mil milhões de toneladas de areia são usadas a cada ano. Nas últimas duas décadas, a procura triplicou principalmente devido à urbanização e ao crescimento populacional, uma tendência que deve continuar e que pode atingir mais de 50 mil milhões por ano até 2030.

Além dos riscos de escassez local, a extração de tal volume de areia tem consequências ambientais e sociais – pode conduzir à erosão das margens dos rios, o que aumenta significativamente o risco de inundações.



No entanto, os investigadores da Universidade de Genebra (UNIGE) e do Instituto de Minerais Sustentáveis ​​da Universidade de Queensland (UQ), na Austrália, são os responsáveis por um estudo no qual apresentaram o potencial de uma alternativa viável à areia natural, um material denominado ‘areia de minério’.

“Tem o maior potencial em volume para reduzir a quantidade de areia retirada no ambiente natural, ao usar o que até agora foi considerado como material ‘de sobra’. O projeto dá um impulso importante para uma economia mais circular”, explicou Pascal Peduzzi, professor adjunto da UNIGE para as ciências ambientais e aquáticas.

A produção de areia mineral pode ajudar a reduzir a produção de resíduos de mineração e, portanto, o acumular das sobras nas minas. Os resíduos da mineração representam atualmente o maior fluxo de resíduos do planeta, estimado entre 30 e 60 mil milhões de toneladas por ano – estes resíduos são provenientes de operações de britagem para extrair certos metais da rocha.

A ‘areia de minério’ tem potencial para enfrentar dois desafios globais de sustentabilidade simultaneamente, segundo Daniel Franks, líder do programa de Minerais de Desenvolvimento da SMI. “Separar e reaproveitar esses materiais semelhantes à areia antes de serem adicionados ao fluxo de resíduos não apenas reduziria significativamente o volume de resíduos gerados mas também poderia criar uma fonte responsável de areia”, precisou.

O estudo, que durou um ano, colheu amostras e investigou de forma independente a areia produzida a partir da mineração de minério de ferro, no Brasil. Após uma análise das propriedades químicas e algumas operações de refinação, os investigadores conseguiram demonstrar que parte do fluxo de material que de outra forma acabaria como resíduo de mineração poderia ser usado como substituto da areia de construção e industrial. “Se esses resultados puderem ser ‘copiados’ com outros tipos de minérios, há potencial para grandes reduções nas ‘sobras’ de minas globais.”

“Ao mapear locais de mineração de todo o mundo e modelar o consumo global de areia, descobrimos que quase um terço dos locais de minas pode encontrar pelo menos alguma procura por areia mineral dentro de um alcance de 50 km. Isso poderia contribuir para uma redução de pelo menos 10% no volume de ‘sobras’. Simultaneamente, quase metade do mercado global de areia (em volume) poderia encontrar uma fonte local de areia mineral. Por exemplo, o minério de areia poderia substituir mil milhões de toneladas métricas na procura de areia na China”, explicou Daniel Franks.

“Considerar a coprodução de areia de minério é uma vantagem significativa para as empresas mineradoras: reduz os grandes rejeitos que dificultam as atividades operacionais de mineração, ao mesmo tempo em que pode gerar receitas adicionais. A areia de minério é um passo em direção a uma ‘mina sem rejeitos'”, explicou Pascal Peduzzi.

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