Cortar dependência da energia russa? Políticos não querem dizer aos cidadãos europeus para vestirem camisolas

A União Europeia enviou cerca de 800 milhões de euros por dia para a Rússia pelas importações de petróleo e gás, de acordo com o think tank ‘Bruegel’. O Governo da Ucrânia quer travar este fluxo financeiro

Francisco Laranjeira

Apesar de a Europa estar a braços com uma crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia, há poucos políticos interessados em dizer aos seus cidadãos para cortar o respetivo uso de energia. Embora haja uma exceção: Robert Habeck, ministro alemão da Economia e Clima, garantiu: “Estamos a fazer o máximo, faça o mesmo. Economize energia. Com um grande esforço comunitário entre o Governo e o povo deste país, empresas e cidadãos, já nos podemos tornar mais independentes das importações de energia russas.”

A União Europeia enviou cerca de 800 milhões de euros por dia para a Rússia pelas importações de petróleo e gás, de acordo com o think tank ‘Bruegel’. O Governo da Ucrânia quer travar este fluxo financeiro, argumentando que o dinheiro está a ajudar a alimentar a máquina de guerra de Putin, mas a maioria dos Governos da UE está relutante em arriscar as suas economias e a ira dos seus eleitores, mesmo quando confrontados com cidades ucranianas bombardeadas e civis mortos.



Não é que faltem soluções: a Agência Internacional de Energia (AIE) e a Comissão Europeia já apresentaram uma variedade de políticas nas últimas semanas, que incluem reduzir os termostatos nas residências em um grau para reduzir o consumo de gás, reduzir a procura de petróleo cortando nos limites de velocidade, introduzindo domingos sem carros, oferecendo transportes públicos gratuitos e fazendo com que as pessoas trabalhem em casa.

A AIE apontou que as suas medidas podem reduzir a procura de petróleo na União Europeia em 6% em quatro meses e as importações de gás russo em um terço até ao final do ano, ao passo que as propostas da Comissão podem reduzir a procura do gás russo em dois terços este anos.

A agência federal do meio ambiente da Alemanha disse, no início de março, que diminuir os termostatos em 2 graus permitiria reduzir as importações de gás russo em 7%. Esta semana, o presidente do regulador de energia francês, Jean-François Carenco, juntou-se ao coro de vozes que pede medidas de corte de energia – o que, como Habeck também apontou, teria o efeito colateral de economizar dinheiro para as pessoas. “Seja baixando o aquecimento, o ar condicionado, as luzes, há uma emergência e todos devem esforçar-se”, garantiu Carenco ao jornal francês ‘Les Echos’.

Mas os políticos estão a ser bastante cuidadosos com o que têm pedido às pessoas. Habeck reconheceu que o seu apelo pode parecer “desproporcional”. “Mas parece que agora é a hora”, referiu o chefe da divisão de eficiência energética da IEA, Brian Motherway.

No passado, o presidente americano Jimmy Carter causou um desastre de relações públicas quando sugeriu que os americanos vestissem camisolas para cortar na energia, durante a crise do petróleo na década de 1970. Algo que ninguém na Europa quer repetir. “É politicamente mais seguro que os políticos desafiem a Rússia construindo parques eólicos e aumentando os painéis solares – medidas que muitos Governos da UE apoiaram”, apontou Jan Rosenow, diretor de programas europeus do ‘Regulatory Assistance Project’.

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