Náuseas, falta de ar, palpitações e dores de cabeça. No final de novembro, cerca de 18 estudantes do conservatório Noor, na cidade iraniana de Qom, começaram a sentir-se indispostas durante as aulas. Algumas semanas mais tarde, outras 50 alunas da mesma escola tiveram de ser hospitalizadas após terem experimentado os mesmos sintomas.
Até ao momento, estima-se que mais de mil raparigas foram afetadas pela ‘misteriosa’ onda de envenenamentos que abala o Irão. No início, as autoridades minimizaram a situação por acreditarem que se tratava de envenenamento por monóxido de carbono, proveniente do gás natural utilizado para aquecimento. Contudo, o grupo ativista 1500tasvir começou a relatar incidentes semelhantes noutras cidades do país, tais como Shahriar, Pakdasht e Teerão, a capital.
No total, estima-se que pelo menos 58 escolas, em mais de 20 províncias, tenham registado incidentes como estes, de acordo com os meios de comunicação locais, citados pelo jornal El Español. Todos têm algo em comum: ocorrem apenas em escolas femininas e todas as vítimas recordam cheirar “o cheiro de tangerinas”, “peixe podre” ou “produtos de limpeza” antes de adoecerem, sugerindo que podem ter sido envenenadas com gás.
A origem e os autores destes alegados ataques, que causaram pânico no país e forçaram o regime iraniano a falar após meses de silêncio, são ainda desconhecidos. Especialmente depois dos casos terem aumentado na semana passada e na quarta-feira, último dia da semana laboral iraniana, foi noticiado que cem estudantes femininas foram envenenadas em oito escolas e institutos, em diferentes locais.
Na sexta-feira, o presidente iraniano Ebrahim Raisi comentou apenas que se tratava de uma conspiração levada a cabo pelos “inimigos” do país persa. “O inimigo quer criar o caos nas escolas com insegurança e uma atmosfera de medo e desespero em outras áreas” argumentou, num discurso relatado pela Europa Press, ao garantir que estavam a ser realizadas investigações para “rapidamente pôr fim à conspiração”.
Também o Ministério do Interior do país manifestou-se numa declaração, onde referiu que a onda de intoxicações por gás é, na realidade, uma operação de “contaminação psicológica” destinada a reavivar os protestos desencadeados na sequência do caso de Mahsa Amini, que morreu enquanto se encontrava sob custódia, a 16 de setembro de 2022, três dias após a sua detenção por utilizar o hijab de forma “inadequada”, segundo a polícia da moralidade do Irão. “Estão a tentar provocar o encerramento dos centros de educação e ciência do país e reavivar o projeto falhado dos tumultos”, pode ler-se no documento.
Este argumento do governo iraniano refere-se aos protestos em massa que ocorreram em setembro e motivaram mais revolta para com o regime iraniano, desencadeando uma brutal repressão estatal que resultou na morte de quase 500 pessoas, de acordo com números de várias Organizações Não Governamentais (ONG), como a ‘Iran Human Rights [Direitos Humanos do Irão]’. Os protestos, contudo, perderam impacto nas últimas semanas, após as execuções públicas de quatro manifestantes.









