Procuradores suíços acusam quatro banqueiros de ajudar a esconder milhões de Putin

“É notório que o presidente russo Vladimir Putin tem oficialmente um rendimento de pouco mais de 100.000 francos franceses e não é rico, mas na realidade tem enormes ativos geridos por pessoas próximas dele”, refere a acusação.

Beatriz Maio

Os procuradores na Suíça acusaram quatro banqueiros de ajudar a esconder dezenas de milhões de francos suíços em nome do presidente russo Vladimir Putin, num dos primeiros processos judiciais no Ocidente que envolve diretamente bens alegadamente pertencentes ao líder da Rússia.

Os quatro acusados eram empregados da subsidiária suíça do Gazprombank, e entre eles encontra-se o chefe executivo, Roman Abdulin, avança o Financial Times que teve acesso à cópia de uma acusação fornecida por um tribunal em Zurique, onde refere que os banqueiros foram negligentes ao permitir a abertura de contas na Suíça em nome de Sergei Roldugin, violoncelista e padrinho da filha de Putin, sem questionar a origem dos fundos.



“É notório que o presidente russo Vladimir Putin tem oficialmente um rendimento de pouco mais de 100.000 francos franceses e não é rico, mas na realidade tem enormes ativos geridos por pessoas próximas dele”, refere a acusação.

Um porta-voz do Gazprombank Suíça, que está em vias de encerrar as suas operações como resultado das sanções internacionais impostas contra a Rússia, negou as acusações contra os funcionários do banco, mas recusou-se a comentar mais sobre os “processos judiciais em curso”.

Os banqueiros assinaram declarações de que o violoncelista não era uma “pessoa politicamente exposta”, apesar das informações públicas generalizadas sobre as suas ligações com o Kremlin e Putin, pode ler-se no documento.

As contas abertas na Suíça pelos banqueiros indicavam que Roldugin tinha ativos de pelo menos 50 milhões de dólares e planeava canalizar mais de 10 milhões de dólares anualmente para o país através de uma complexa cascata de empresas e contas de fachada. “Os ativos declarados não eram de forma alguma plausíveis de ser como ativos próprios de Roldugin”, argumentaram os procuradores.

O ficheiro oficial do banco sobre Roldugin continha apenas uma impressão do website do teatro Mariinsky em São Petersburgo, onde o russo era maestro, e um único resultado de pesquisa negativo no Worldcheck, uma base de dados. Os promotores alegam que o quarteto Gazprombank estava plenamente consciente do verdadeiro significado e das ligações de Roldugin e não hesitou em proporcionar as condições para o seu plano.

Na acusação consta ainda, de forma detalhada, como as empresas criadas em nome de Roldugin foram criadas por funcionários do Bank Rossiya, que tentaram encobrir o seu envolvimento através de endereços de correio eletrónico anónimos.

“O Bank Rossiya é o banco dos principais políticos da Rússia e o seu acionista maioritário e presidente do conselho [Yuri Kovalchuk] é considerado o tesoureiro de Putin,” defende a acusação.

O caso foi aberto como resultado da fuga de documentos do Panamá em 2016, um tesouro de mais de 11 milhões de documentos relacionados com 214.000 entidades offshore, alguns dos quais foram utilizados para esconder a riqueza obtida ilegalmente.

Um consórcio internacional de organizações de comunicação social, incluindo a revista alemã Der Spiegel e o jornal britânico The Guardian, destacaram Roldugin e a sua proximidade com Putin e mencionaram a sua vasta riqueza inexplicável.

O Finma, egulador dos mercados financeiros da Suíça, abriu uma investigação contra o Gazprombank como resultado da fuga de informação. Em 2018, o regulador concluiu que o banco estava “em grave violação dos seus requisitos de due diligence contra o branqueamento de capitais no período de 2006 a 2016” e impôs sanções rigorosas. Apresentou também uma queixa junto dos procuradores em Zurique, o que desencadeou uma investigação criminal.

Os procuradores pedem agora penas de prisão para os quatro banqueiros em questão, estando o início do julgamento, em Zurique, marcado para dia 8 de março.

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