A invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou uma resposta enérgica do Ocidente sob a forma de sanções: à partida, um conflito desta envergadura e as pesadas sanções ameaçaram travar o crescimento em todos os cantos do mundo. Mas, um ano volvido, pode-se constatar que houve algumas economias que se podem considerar ‘vencedoras líquidas’ do conflito, ou seja, que se superaram economicamente graças à guerra e às sanções.
Por partes: as sanções ocidentais ao petróleo e derivados russos e iranianos geraram uma revolução nos fluxos dessa matéria-prima que está a beneficiar vários países. Agora, o combustível mais barato escoa para a Ásia, o que terminou com o histórico prémio pago pelos países desse continente para importar energia quando comparados com regiões como a Europa que compravam com descontos. Segundo os analistas da ‘Refinitiv Eikon’, e de acordo com o jornal espanhol ‘El Economista’, os dados foram invertidos.
Para a Ásia, o fim deste prémio “equivale a um estímulo económico, o que destacou outra consequência indesejada das sanções ocidentais, que fez igualmente aumentar o preço que os europeus agora pagam pelo gás natural”.
“É seguro dizer que alguns dos principais consumidores da Ásia, especialmente Índia e China, são os maiores vencedores das sanções”, referiu Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank. Embora esses sejam os grandes players, há também uma série de países menores que atuam como intermediários para a Rússia e que estão a receber um desconto nas suas relações comerciais com o Kremlin.
Apesar das sanções, os países europeus continuam a precisar de diesel ou óleo: a questão é que agora têm de fazer enfrentar mais alguns milhares de quilómetros antes de chegar as estações de armazenamento de combustível da União Europeia.
Em suma, a Europa está a substituir os produtos refinados pela Rússia por outros refinados na China e Índia, assim como dos Estados Unidos. Estes países investiram milhões de euros para expandir as suas capacidades de refinação – embora sem dados oficiais, estima-se que a Índia pode ter economizado cerca de 4 mil milhões de dólares em poucos meses comprando o petróeleo russo com desconto.
Embora a UE tenha imposto embargos (proibições de importação) e tetos aos preços dos combustíveis originários da Rússia para terceiros países, essas potências que têm importantes capacidade de refinação compram petróleo russo (respeitando o teto de 60 dólares imposto pela UE e G7) no mercado para transformá-lo em diesel e outros derivados e exportá-lo diretamente para a Europa.
Esta situação deixa antever outro vencedor global: os países da OPEP. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo têm visto crescer os seus negócios com a Europa, apesar de ter tido necessidade de baixar os seus preços para países como a China e Índia para competir com o petróleo russo.
Nos últimos três meses, a Arábia Saudita reduziu os preços do seu petróleo estrela, o ‘Arab Light’, para compradores asiáticos, embora tenha aumentados os preços de outros tipos de petróleo. Outros grandes exportadores da OPEP, Iraque e Kuwait, também cortaram os seus prémios para a Ásia desde novembro. O Iraque, o único dos dois países que também emite preços para a Europa, cortou so spreads de petróleo ‘Basrah Médio e Pesado’ para a Ásia, tendo aumentado para a Europa.
“O Irão e agora a Rússia estão a competir cada vez mais ferozmente no preço, enquanto os outros produtores no Médio Oriente precisam de ajustar os seus preços, o que resulta num preço final de venda relativamente mais alto para a Europa”, precisou Hansen.
Historicamente, “os países asiáticos costumavam ter menos opções do que o resto do mundo para negociar, já que o petróleo que eles compravam tinha de viajar muitos quilômetros”, frisou Jorge Montepeque, especialista que trabalhou por décadas na S&P Global Platts, em declarações à agência ‘Reuters’. Agora, a Europa perdeu o petróleo russo como fonte de abastecimento, por isso o continente precisa de adquirir petróleo de mais longe e “em teoria, os preços no Médio Oriente são mais caros para os europeus”, explicou o especialista.
Se as sanções forem mantidas e a guerra não terminar num futuro próximo, a Europa terá de continuar a suportar preços de energia relativamente mais altos, ao passo que a Ásia pode continuar a beneficiar dessas fontes de energia a preços de ‘saldo’.
A ordem económica global está a mudar lentamente. No entanto, as sanções contra a Rússia podem ser um acelerador de tendências, com uma Europa com acelerado declínio, ao passo que as grandes potências da Ásia começam a ganhar terreno, uma realidade que pode ser vista nos rankings globais do PIB – as economias chinesa e indiana são as que mais mexem nessas tabelas.














