As mulheres continuam a enfrentar desafios e a superá-los na ascensão a cargos de liderança nas empresas. A Executive Digest falou com Sandra Fazenda Almeida, Diretora Executiva da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, para perceber quais os principais entraves das mulheres na progressão para posições de liderança.
Desafios na progressão para posições de liderança
“Há um estereótipo de género, que influencia a perceção da capacidade das mulheres para cargos de liderança. A nossa maior empatia, ou a forma mais alegre como vivemos, como nos expressamos ou como nos vestimos, poderá ter uma conotação mais negativa, eventualmente de falta de seriedade para o desempenho de cargos de liderança.
Acresce que, as mulheres têm, na maioria das vezes, um ‘duplo emprego’, pessoal e profissional. Por isso, e além do esforço adicional que despendem diariamente, acabam por ter menos tempo para investir na sua formação e carreira e para participar em eventos e oportunidades de networking profissional.
Destaco ainda, em muitos casos, a falta de flexibilidade no local de trabalho ou a pouca ou nenhuma tolerância para questões associadas à maternidade ou à própria condição de mulher (como a menstruação), que representam desafios específicos das mulheres no mercado de trabalho.”
Falta de exemplo inspiracional
“Enquanto se mantiver um deficit de representação feminina em cargos de liderança faltará sempre o exemplo inspiracional para outras mulheres e para demonstrar os ganhos da diversidade de género”
O que podem (e devem) as empresas fazer?
“As empresas devem analisar este tema e implementar um conjunto de medidas que promovam a igualdade de género. Não podemos perpetuar a ‘política de avestruz’, pelo que as organizações devem criar políticas formais de remuneração igualitária, de licença parental equitativa e de combate ao assédio e discriminação no local de trabalho.
Devem ainda estabelecer as suas metas de diversidade, implementando práticas de recrutamento inclusivas, para promoverem uma cultura que valoriza a diversidade e as diferentes perspetivas, trazidas pelo género feminino. Até porque a falta de diversidade, perspetivas e ideias limita a inovação e o progresso da empresa”.
Diversidade no local de trabalho
“A diversidade no local de trabalho não deve ser limitada só à diversidade de género, sendo importante que se reconheça e valorize a diversidade em todas as suas formas, incluindo raça, etnia, orientação sexual, idade, religião, habilidades e experiências de vida. Um ganho que a pandemia deixou em muitas empresas é a maior flexibilidade introduzida pelas políticas de trabalho remoto”.
Vantagens aportadas aos cargos de liderança
“De um modo geral, fruto da nossa educação e das regras sociais, as mulheres tendem a ser mais empáticas, multitarefa e comunicativas. Embora não existindo características genéticas específicas que possam ser atribuídas exclusivamente às mulheres, em relação aos cargos de liderança, é possível argumentar que, como resultado das suas experiências e desafios, podem ter desenvolvido capacidades que acabam por ser vantajosas para cargos de liderança. Estou a falar de características como a resiliência, resolução de problemas, capacidade de adaptação para enfrentar a discriminação e os desafios dos ambientes dominados por homens.
Em regra, as mulheres até são mais eficazes na gestão do tempo, empáticas e com uma comunicação eficaz. Têm treino pessoal, nomeadamente pelas responsabilidades e tarefas familiares. Costumo dizer que sou uma ‘mental worker’, uma verdadeira profissional do ‘worry work’: responsável pela organização da casa e despensa, refeições, consultas médicos dos filhos, compromissos dos filhos e aniversários… são vários os papéis invisíveis que uma mulher acumula. Este trabalho emocional é invisível, não compensado, (por vezes) não reconhecido e que não tem fim.
E no futuro?
Já assistimos à ascensão das mulheres em cargos de liderança e há várias tendências que apontam para um aumento da participação e liderança das mulheres no mercado de trabalho.
Sinto que há um crescente movimento de entreajuda e networking feminino, com as mulheres a unirem-se para promoverem a igualdade de género e a lutarem contra a discriminação e a desigualdade no mercado de trabalho.













