É uma das histórias de encantar mais conhecidas do mundo, com um elemento que ganhou por si próprio significado especial. Ao longo de centenas de anos, o sapatinho de cristal da história da Cinderela, que a personagem principal perde ao sair do baile à meia-noite, foi sinal do destino, da esperança e da magia. Agora, estudiosos descobriram que a sua criação está ligada às festas no Palácio de Versalhes e aos hábitos da corte e aristocratas franceses da época de Luís XIV.
“O sapato de cristal é uma piada inteligente. Tem como objetivo ser uma mascote literária da modernidade económica francesa”, explica Genevieve Warwick, professora de história de arte da Universidade de Edimburgo, ao The Guardian. O objeto é suposto ser uma crítica mordaz ao amor que a corte de Luís XIV tinha por peças de roupa pouco práticas, vestes exóticas ou fatos extravagantes. “Ninguém conseguiria andar, quanto mais danças, calçado com sapatos de cristal”, assinala a investigadora e autora da obra ‘O Sapato de Cristal de Cinderela: Para uma História Cultural das Materialidades do Renascimento’.
De acordo com a estudiosa, os historiadores têm ignorado uma ligação importante entre o autor da história original, Charles Perrault, publicada em 1697, e a majestosa Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Perrault foi contratado por Luís XIV para equipar alguns dos palácios do rei. “Ele foi o cérebro por de trás da operação de montagem da Sala dos Espelhos e foi também o administrador responsável pelos trabalhos em vidro para os reis em toda a França”, assinala Warwick.
Quando, na história, Cinderela se transforma da rapariga humilde que varria cinza para uma mulher adulta, bela e que merece o amor do príncipe, os leitores compreenderiam que o sapato era uma referência à ostentação levada a cabo por Luís XIV e a Sala dos Espelhos. Da mesma foram, o sucesso de Cinderela, calçada com sapatos de vidro, em conseguir casar e viver feliz para sempre, é associado aos dias de glória vividos pela indústria do vidro em França. “Tornou-a numa espécie de emblema nacional, de como a França se ia tornar próspera, ao fabricar os próprios produtos de luxo”, explica a autora.
Warwick recorda as pressões sociais pada aderir às normas e às modas da alta-sociedade francesa da altura, e que o sapato seria também um comentário aos sacríficos que faziam em nome dos padrões de beleza. A autora recorda que, na mesma altura da publicação do livro, havia a moda de usar uma espécie de ‘andas’ que permitiam que as mulheres não sujassem os vestidos e sapatos de seda na lama, ao mesmo tempo “que era um sinal de maior elegância, o ser mais alto”, mesmo sendo uma moda “pouco prática” e que quase impedia qualquer movimento.
Ainda, Warwick traça simbologia entre os sapatos de material caro, neste caso vidro ou cristal, com outra história escrita por Perrault: o Gato das Botas. Também aqui, o gato do título sobe de estatuto ao calçar uma botas de couro, tornando-se aristocrata. “Os sapatos fazem-lhe o mesmo que fazem à Cinderela”, termina a investigadora.




