Sombra de Prigozhin ameaça Putin: líder do Grupo Wagner tem aproveitado invasão da Ucrânia para subir no Kremlin

Depois de ter feito fortuna nos anos 1990 no negócio do catering, a sua influência no Kremlin permitiu-lhe ganhar força, não só a nível financeiro mas sobretudo político

Revista de Imprensa

A sombra do responsável pelo Grupo Wagner, Yevgeny ​Prigozhin, ‘pesa’ cada vez mais junto de Vladimir Putin – o oligarca, antigo chef do presidente russo, está mais ativo do que nunca e não se poupa a criticar as ações militares da Rússia na Ucrânia – já afirmou que iria criar “movimento patriótico conservador”, que deverá tornar-se num partido político em breve, para fazer oposição ao líder russo.

“Prigozhin é um político que sabe tirar proveito dos tempos de crise. Tem os recursos para responder num tempo de crise, e pensa logo nas coisas a partir desta questão. É popular também entre a classe média, entre os trabalhadores. E há muita população que acha que está na altura de a Rússia te rum líder destes. Isso torna-o influencial e perigoso”, considerou Valery Solovey, ex-diretor de Relações Públicas do prestigiado Instituto de Relações Internacionais de Moscovo.



Depois de ter feito fortuna nos anos 1990 no negócio do catering, a sua influência no Kremlin permitiu-lhe ganhar força, não só a nível financeiro mas sobretudo político, sendo mesmo procurado pelo FBI devido a alegada interferência nas eleições que conduziram Donald Trump à Casa Branca.

Segundo o ‘The Washington Post’, em outubro último, Prigozhin confrontou Putin pela má gestão na invasão da Ucrânia, tendo mesmo elogiado Zelensky. “Embora seja o presidente de um país hostil à Rússia no momento, Zelensky é um tipo forte, confiante, pragmático e porreiro”, frisou o ‘chef’ de Putin. “Não o subestimem.”

A possível ascensão de Prigozhin ao lugar mais elevado do Kremlin é, para a investigadora Joana de Deus Pereira, analista de segurança e risco geopolítico do Royal United Services Institute (RUSI-Europe), contestável. “A janela de oportunidade deu-se quando as tropas russas começaram a dar sinal de desgaste, de fraqueza e de falta de preparação e liderança por parte do Kremlin. Ele não hesitou e avançou dizendo que o Ministério da Defesa não estava a cumprir devidamente as suas funções”, explicou a especialista portuguesa, em declarações ao jornal ‘Público’. “A saída da sombra de Prigozhin pode ser vista como uma afirmação de poder”, assumiu.

Para Joana de Deus Pereira, Prigozhin representa “uma clara ameaça” ao Governo de Putin, uma vez que se está a transformar numa “espécie de centro das atenções políticas”, sobretudo depois do sucesso na batalha de Bakmut – conforme o exército russo retirava, o Grupo Wagner reforçava a presença na cidade. “É uma demonstração que sugere que este grupo armado tem poder, força e estrutura para avançar mesmo quando o Exército está em retirada. Ou seja, é mais uma forma de Prigozhin retirar dividendos políticos”, explicou a investigadora. “Tudo isto lhe deu espaço de manobra para criticar abertamente o Kremlin sobre a estratégia russa no conflito. Algo inimaginável há meses”, revelou.

O peso de Prigozhin no Kremlin é tanto que, segundo o dissidente Mikhail Khodorkovsky, terá já tanto poder como alguns dos membros do Governo. “Faz parte do círculo mais próximo de Putin. E no sistema russo é tudo sobre Putin. Só que ele tem-se destacado dos restantes devido ao Grupo Wagner, que, por exemplo, em África funciona como uma extensão de Moscovo, atuando nos locais onde as forças ocidentais fraquejam, como o Mali ou a República Centro-Africana”, relatou Christopher Kinsey, investigador do Kings College, em Londres. “Tudo isto é uma estratégia para ganhar mais poder no Kremlin e na própria opinião pública russa.”

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