O presente outono está a revelar-se mais quente do que o habitual em muitas regiões, em especial junto ao Mediterrâneo. As condições mais amenas do que o que seria expectável em novembro na Península Ibérica estarão na origem de um problema de saúde pública que tem aumentado um pouco por toda a Espanha: infestações de ratazanas e de baratas.
O caso é especialmente grave em Madrid. Nancy Berrocal, florista naquela cidade, conta ao El País que chegou a ver “torrentes de baratas e de ratazanas” quando foram remover um monte de lixo que estava na rua. “Agora continuam a vir assim que fica escuro, à procura de comida”, explica. Outra moradora, Adela Crespo, relata que “há ratazanas que parecem gatos” nos edifícios, que “aproveitam qualquer buraco para fazer ninho e só saem à noite”. Uns e outros madrilenos são unânimes: o problema tem aumentado.
E não é só em Madrid. De acordo com a EZSA, empresa especializada na eliminação de pragas e pestes, a segunda maior no setor, em outubro verificou-se “um aumento sem precedentes” nos pedidos de ajuda para eliminar infestações em habitações, lojas, restaurantes e outros. O diretor de Inovação da empresa, Ignacio Santamarta, alerta que todo o ano tem sido “atípico” e explica: em 2021 receberam 17 284 chamadas e, até agora, já são 28 518 em 2022. Os números representam um aumento de 60% nos pedidos de ajuda.
O diretor da Associação nacional de Empresas de Saúde Pública (Anecpla) também relata que, neste outono, se tem verificado um aumento nos casos de pragas “totalmente anormal para esta altura do ano”.
A EZSA detalha que os pedidos de ajuda para infestações de baratas subiram 58,2% em outubro de 2022, comparado com o mesmo período do ano passado. É nas grandes cidades que se verificou maior aumento: 70% em Madrid, 59% em Valência, 55% em Barcelona, 47% em Málaga e 46% em Sevilha. No total anual, o aumento face a 2021 já ultrapassa os 65%, uma vez que o problema já se vinha a arrastar desde o verão.
Quanto a ratos, detalha a EZSA, os pedidos para combater esta praga subiram em média 52,1%. Madrid registou o maior aumento (63%), seguida de Barcelona (63%) Valência (50%), Sevilha (48%) e Málaga (43%).
Em Valência, que tem uma infestação grave em La Fuensanta, fonte do município diz que está previsto um aumento nas taxas por habitante para combater o problema: de 80 cêntimos para 2,12 euros.
Em Barcelona, o caso fez soar alarmes no verão, quando se tornou viral um vídeo no TikTok que mostra os ‘turistas’ noturnos a invadir a cidade espanhola. O município admite também que os casos de infestações de baratas subiram em flecha entre maio e outubro deste ano. Até agora contavam-20 1000, enquanto no ano passado foram 800.
Também a cidade tem previsto um reforço orçamental para combater as pragas e todos os organismos em alerta para enfrentar o problema.
Ainda, destaca Ignacio Santamarta, contam-se também mais casos de infestações de outros insetos voadores, como mosquitos e moscas,
Os responsáveis explicam que, com o tempo mais quente, os ciclos reprodutores e de desenvolvimento das baratas e dos ratos são acelerados, pelo que se reproduzem durante mais e mais meses, com menos mortalidade das crias e larvas. Por outro lado, menos frio significa também que as pragas têm menos tendência a recolher devido ao mau tempo.
Para o diretor da Anecpla, a culpa é das alterações climáticas: “Tínhamos um clima subtropical, mas agora estamos a aproximar-nos cada vez mais de um clima tropical”.
Rubén Bueno, entomologista e diretor-técnico dos laboratórios Lokímica acrescenta outros fatores, como a resistência cada vez maior destas espécies a venenos e biocidas. “Para além de se tornarem menos eficazes, há outro problema. É que por trás das pragas está também a transmissão de doenças”, avisam todos os especialistas: salmonela, hepatite, lepra, peste bubónica, disenteria, raiva, febre tifoide pulgas e carraças são transmitidas por uma ou outra espécie.





