Tal como para a construção dos estádios e infraestruturas, o Qatar recorreu a trabalhadores migrantes para garantir a segurança no enorme recinto que será o coração do Mundial de Futebol, o Parque Al Bidda, um espaço verdejante ao lado do Fifa Fan Festival. Será aqui que os adeptos poderão aproveitar o relvado, espaços de piquenique e vistas sobre a cidade de Doha. Mas enquanto os fãs de futebol terão uma série de infraestruturas para disfrutar, os trabalhadores não terão tanta sorte – já que estarão a fazer turnos de 12 horas seguidas.
As condições de trabalho precárias são descritas pelos próprios trabalhadores ao The Guardian. Estes homens não são contratados diretamente pela Fifa e, quando os adeptos saem daquele espaço para os hotéis, os trabalhadores têm à sua espera barracões apertados, com quatro beliches em cada um, onde nem há espaço para esticar as pernas.
“Nós só podemos andar entre o nosso espaço de trabalho e o local onde estamos acomodados. Não conheço nada do Qatar”, conta um trabalhador migrante.
Com turnos de 12 horas e, segundo relatam, “apenas um dia de folga por mês”, não lhes restará tempo para conhecer Doha, ou sequer aproveitar o que a capital do Qatar tem para oferecer.
Olhando à folha de ordenado, cada segurança recebe 1330 rials (pouco mais de 355 euros por mês, por 348 horas de trabalho. Recebem como extra um reduzido subsídio de refeição. No contrato estão previstas um máximo de 104 horas, pagas a 150 rials. Isto significa que, no total, receberão pouco mais de 40 cêntimos por hora de trabalho.
Estas condições, segundo o The Guardian, desrespeitam as leis laborais qataris. “É ilegal, mas o governo não vai dizer nada e quer que estejamos calados. O que é que vamos fazer? Nós aguentamos tudo, porque precisamos do dinheiro. Estou feliz só por receber alguma coisa…”, contam alguns dos migrantes que estão empregados como seguranças no Mundial.
Um relatório da Amnistia Internacional já tinha revelado exploração no setor da segurança privada no Qatar, ainda durante a preparação do Mundial. “Os seguranças são essenciais para que tudo corra bem no Mundial. Ninguém devia ter de trabalhar nestas condições, e quem sofreu qualquer tipo de abusos devia de ser indemnizado”, explica Ella Night, investigadora sobre direitos laborais de migrantes da Amnistia Internacional.
O diretor do Al Nasr Group, responsável por contratar os seguranças migrantes, confrima que os trabalhadores fazem turnos de 12 horas, mas assegura que cada um têm duas horas de pausa por dia e um dia de folga por semana. No entanto, a empresa recusou fornecer os registos de trabalho dos funcionários ou informações adicionais sobre os salários pagos aos migrantes.





