Há cada vez mais raparigas a entrar mais cedo na puberdade: risco de neoplasias, depressão e distúrbios alimentares aumenta, garantem especialistas

A idade média para o aparecimento dos primeiros sinais de puberdade era os 11 anos – assim, o primeiro período menstrual surgia por volta dos 13 anos. No entanto, na viragem do século, diversos estudos apontaram para 18% das raparigas caucasianas tinham entrado na puberdade aos 8 anos

Revista de Imprensa

Há cada vez mais raparigas a entrar na puberdade mais cedo, o que tem preocupado os especialistas. “A criança que começa a ter maminhas aos 7 anos provavelmente vai menstruar aos 9”, explicou a pediatra e endocrinologista pediátrica Cíntia Correia, do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, em declarações ao jornal ‘Público’. Os riscos, no entanto, são elevados: desde a interrupção no crescimento a probabilidades maiores de estas crianças virem a sofrer neoplasias, depressões ou desordens alimentares.

“Do ponto de vista emocional são ainda muito pequeninas e imaturas, mas do ponto de vista físico já são umas mulheres. E é-lhes difícil gerir esta dicotomia”, apontou o pediatra Fernando Chaves. “Uma rapariga que está em idade de andar a rebolar no chão e que de repente aparece toda ensanguentada, não está preparada, sente medo, diferente em relação aos pares, e pode até ser estigmatizada, porque já apresenta sinais, como as maminhas, que mais tarde são valorizados, mas que nestas idades são motivo de vergonha”, lembrou a endocrinologista pediátrica Filipa Vasconcelos Espada.



Os especialistas sublinham, no entanto, que os casos de puberdade precoce têm vundo a aumentar nos últimos anos, sobretudo entre raparigas. “Se antes via uma criança por mês nesta situação, agora vejo uma quase todas as semanas”, explicou Filipa Vasconcelos Espada. A Sociedade de Endocrinologia e Diabetologia Pediátrica (SEDP) criou, em 2017, uma plataforma digital para recolher dados quantitativos e estudar esta nova realidade. “Nesse ano, tínhamos 200 casos e agora já vamos nos 400, e, apesar de os números estarem a aumentar desde muito antes da pandemia, a sensação que temos é que durante a pandemia houve uma subida ainda mais expressiva”, referiu Catarina Limbert, pediatra com especialização em endocrinologia e diabetologia pediátrica.

A idade média para o aparecimento dos primeiros sinais de puberdade era os 11 anos – assim, o primeiro período menstrual surgia por volta dos 13 anos. No entanto, na viragem do século, diversos estudos apontaram para 18% das raparigas caucasianas tinham entrado na puberdade aos 8 anos. Segundo a revista americana ‘The New Yorker’, os especialistas atribuíram esta escalada de puberdade precoce a diversos fatores que vão do agravamento da obesidade entre crianças e jovens a uma maior exposição aos ecrãs fora de horas, o que levou a quedas na produção de melatonina, passando pela assimilação pelo organismo dos “disruptores endócrinos”, como os químicos presentes nos plásticos, dos biberões aos tupperwares em que se aquece a comida no microondas, mas também nalguns cosméticos e na comida processada, além de ao stress ou ao facto de viverem em ambientes domésticos abusivos.

A puberdade precoce preocupa “na aquisição estatural”. “Sabe-se que as meninas crescem mais até à idade da menarca e depois disso a velocidade de crescimento diminui. Portanto, quando elas têm uma menarca mais cedo, o que acontece muitas vezes é que elas não atingem o seu potencial genético em termos de estatura”, lembrou Cíntia Correia. “Alterações de comportamento, diminuição da auto-estima, o risco maior de virem a ter neoplasias e tumores ováricos, uma menopausa mais precoce, tudo isso está associado”, garantiu Filipa Espada.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.