Covid-19: Molnupiravir, o primeiro antiviral da pandemia, não é melhor do que placebo, alerta estudo

Estudo ‘PANORAMIC’ da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, recrutou 25.783 pessoas com a Covid-19, metade das quais recebeu molnupiravir. Após 28 dias, 103 pessoas que receberam molnupiravir morreram, em comparação com 96 no segundo grupo. “Claramente, não está a ter um grande impacto”

Francisco Laranjeira

O molnupiravir, um medicamento considerado o primeiro antiviral contra a Covid-19, não funciona melhor do que placebo, segundo alertou um estudo massivo realizado no Reino Unido. O comprimido antiviral foi desenvolvido pela farmacêutica Merck e revelou ter uma eficácia de 50% no risco de morte e hospitalização em pacientes infetados pela Covid-19.

O medicamento destina-se a pessoas com alto risco de doenças graves – pessoas com mais de 50 anos que têm fatores de risco e imunocomprometidos – depois de testarem positivo para a Covid-19 mas antes de ficarem doentes o suficiente para precisar de um hospital.



O estudo ‘PANORAMIC’ da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, recrutou 25.783 pessoas com a Covid-19, metade das quais recebeu molnupiravir. Após 28 dias, 103 pessoas que receberam molnupiravir morreram, em comparação com 96 no segundo grupo. “Claramente, não está a ter um grande impacto”, apontou Peter Wark, especialista em antivirais da Universidade de Newcastle. “Acho que teríamos de analisar muito criticamente a relação custo-benefício.”

Muitos Governos mundiais, interessados em terminar com as restrições à Covid-19, apoiaram-se nos antivirais como uma saída para a pandemia, exlpicou Wark. “Um relaxamento mais lento das restrições provavelmente teria um impacto maior do que depender fortemente desses antivirais”, avançou.

Kyle Sheldrick, investigador da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália e coautor de um artigo no início deste ano sobre os problemas do molnupiravir – criticou a abordagem dos Governos. “Não deveria ter sido aprovado antes do ‘PANORAMIC’. E certamente não deveria ser agora.”

Um porta-voz da Merck, responsável pelo medicamento, apontou que o estudo ‘PANORAMIC’ concentrou-se num grupo de baixo risco e apontou outros estudos que mostram que o tratamento é eficaz. Em abril último, a Merck previu um faturação de entre cerca de 5 mil e 5,5 mil milhões de euros com a venda do medicamento.

As incertezas iniciais sobre o molnupiravir resultaram de resultados estranhos no estudo original da Merck que obteve a aprovação do medicamento. No estudo, a Merck recrutou cerca de 1.500 pacientes e deu metade do medicamento. Os primeiros resultados da primeira metade dos pacientes testados foram tão positivos – uma redução pela metade da chance de morte – que o teste foi interrompido mais cedo para que todos pudessem receber o tratamento que aparentemente salvava vidas. Mas quando os dados da metade restante dos pacientes do estudo foram publicados, um mês depois, contaram uma história diferente. O segundo grupo tinha-se saído muito pior do que o primeiro. De facto, os dados sugeriram que o molnupiravir não melhorou os seus resultados. Combinados, o estudo completo sugeriu que o molnupiravir pode não reduzir o risco de morte.

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