Há quatro albufeiras nacionais que podem ficar em água até 2024, revelou esta 2ª feira a rádio ‘Renascença’: um modelo matemático previu que as albufeiras de Alto Lindoso (Viana do Castelo), Alto Rabagão (Vila Real), Bravura (Faro) e Campilhas (Setúbal) fiquem vazias se pouco ou nada chover e se nada for feito para combater a seca que se tem feito sentir nestes territórios do país. Paulo Maia, analista de dados, referiu no entanto que o modelo estatístico aprende com os “dados históricos” do volume de água nas albufeiras e não quer dizer “que as coisas aconteçam mesmo”, realçando porém que são dados que “podem ser prevenidos”.
“A primeira componente é a tendência, que é o valor de crescimento, que normalmente é uma coisa mais a longo prazo. Por exemplo, se o nível da água está a baixar ao longo do tempo, a tendência vai ser uma linha de crescimento negativa. Esta componente é linear. Depois há componentes sazonais que são adicionados à tendência original. E podes ter aqui sazonalidades semanais, mensais, anuais. E o modelo tenta também aprender isto”, explicou.
Em fevereiro deste ano, o Governo ordenou a suspensão da produção elétrica em cinco barragens da EDP: Alto Lindoso/Touvedo, Alto Rabagão, Vilar/Tabuaço, Cabril e Castelo de Bode no Zêzere. Foi também suspenso o abastecimento de água para a rega a partir da albufeira da Bravura em Lagos. O objetivo: garantir o abastecimento de água para consumo humano durante dois anos, mesmo em barragens utilizadas para produzir eletricidade.
Segundo o Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, a barragem em pior situação é a de Campilhas, no concelho de Santiago do Cacém, que está a 3% da sua capacidade, com valores abaixo do volume morto de 1 milhão de metros cúbicos. A albufeira da Bravura, situada no barlavento algarvio, está a 9% de capacidade, com valores abaixo dos 4 milhões de metros cúbicos. Situada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, a albufeira do Alto Lindoso é uma das sete maiores albufeiras de Portugal e encontra-se agora a 19% de capacidade. No último ano perdeu 30% do seu volume total de água. Já a albufeira do Alto Rabagão perdeu 50% do volume de água nos últimos 12 meses, mantendo-se agora nos 20%.
Sara Serrão, da plataforma Juntos Pelo Sudoeste, mostrou-se preocupada com a previsão do modelo matemático e defendeu que a agricultura intensiva “tem de se adaptar” ao território. “É uma profunda injustiça social. A agricultura intensiva tem tarifas de água que não se comparam com as tarifas de consumo doméstico, mas são estas últimas que vão aumentar. Toda a gente, todos os sectores têm de poupar”, criticou.
Rodrigo Proença de Oliveira, especialista em planeamento e gestão dos recursos hídricos, sublinhou por seu lado os “imensos problemas com os dados em Portugal”. “O que nós temos é uma tendência genérica de diminuição da precipitação, sobretudo no sul do país, que resulta muito das alterações climáticas. Mas dentro dessa tendência há, pois, ciclos de anos mais húmidos e anos mais secos”, defendeu, referindo que a solução passa por “melhorar em muito a eficiência hídrica”.
“Há ainda muito desperdício, quer no sector urbano quer no sector agrícola. O sector agrícola é mais preocupante porque usa mais volumes de água mais significativos. E é utilizar outras fontes. Para outras fontes temos a desalinização e temos a utilização de águas residuais tratadas”, apontou, reforçando: “Também o uso mais intensivo, mas cuidadoso das águas subterrâneas. E finalmente, temos também a construção de mais uma ou outra barragem, o que nalguns casos pode justificar”, finalizou.






