Deve-se ou não tomar aspirina para prevenir ataques cardíacos? Estudo de Harvard deixa novas recomendações

Artigo publicado na revista científica ‘Jama’ da autoria dos médicos Clínica Mayo e Harvard University School of Medicine, salientou que há benefícios grandes mas o risco de sangramento é maior

Francisco Laranjeira

Na década de 1960, descobriu-se o potencial da aspirina para prevenir a formação de trombose (antiagregante plaquetar). Em 1985, a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos aprovou a sua indicação para prevenir segundos eventos cardiovasculares em pessoas que já haviam tido antes um enfarte. Desde então, o seu uso para esse fim tem sido controverso e as recomendações mudam, desde a sua eficácia para prevenção primária (quando nunca houve evento cardiovascular) em pessoas de risco (hipertensos, diabéticos, obesos, com colesterol elevado) até limitar a indicação para quem já está doente (prevenção secundária).

As últimas recomendações são de abril, quando a ‘U.S. Preventive Services Task Force’ (USPSTF) alterou a indicação de 2016 sobre o uso e consumo diário de aspirina em baixas doses para prevenir doenças cardiovasculares (DCV). “Não inicie o uso de aspirina em baixas doses para a prevenção primária de doenças cardiovasculares em adultos com 60 anos ou mais”, foi a recomendação. Essas últimas diretrizes afirmaram que para pessoas de entre 40 e 59 anos, que apresentam risco de pelo menos 10% de desenvolver doenças cardiovasculares, o benefício é pequeno pelo que a decisão de tomar o medicamento deve ser tomada em conjunto entre o médico e paciente.



Quatro meses depois, chegou uma nova nuance, na qual as mulheres são colocadas no centro da prevenção. Especificamente, “a aspirina em baixa dose deve ser considerada para prevenção primária para mulheres entre os 40 e 59 anos com risco elevado de doença cardiovascular aterosclerótica (ASCVD) e para aquelas entre 60 e 69 anos com risco cardiovascular de pelo menos 20% ou que tenham diabetes associado a um risco de ASCDV de 10%”, pôde ler-se no artigo publicado na revista científica ‘Jama’ da autoria dos médicos Clínica Mayo e Harvard University School of Medicine.

As conclusões resultam a análise de 13 ensaios clínicos de prevenção primária, que incluíram 161.680 participantes sem histórico de doença cardiovascular, dos quais 53% eram mulheres. Foram avaliadas em 11 ensaios doses de aspirina inferiores a 100 mg, no qual não foi observada uma redução significativa na mortalidade. O que se descobriu foi que tomar o medicamento reduziu o número de acidentes cardíacos e derrames não fatais – os dados para as mulheres vieram de um único estudo (do ‘Women’s Health Study’, o primeiro estudo de prevenção em larga escala), que incluiu 39.876 participantes. A parte mais negativa é que a revisão confirmou um risco aumentado de sangramento – sangramento gastrointestinal, sangramento intracraniano, até sangramento maior com necessidade de transfusão – logo após o início da aspirina com intenção preventiva, principalmente em homens a partir dos 60 anos.

Então, é bom tomar doses baixas de aspirina para prevenir ataques cardíacos em quem não teve um?

Estas são as propostas de diferentes organizações médicas:

‘U.S. Preventive Services Task Force’ (USPSTF), em 2022: O uso de 100 mg pode ser considerado entre pessoas de 40 a 59 anos com 10% de risco de desenvolver doenças cardiovasculares;

American Diabetes Association, em 2022: Doses de 75-162 mg estão a ser consideradas em diabéticos com mais de 50 anos com fator de risco cardiovascular adicionado e que não correm risco de sangramento.

Sociedade Europeia de Cardiologia, em 2021: Não é recomendado quando o risco cardiovascular é baixo pois o risco de sangramento é maior. Abaixo dos 70 anos, e para aqueles com risco cardiovascular muito alto, cada situação particular deve ser avaliada.

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