Covid-19: subvariantes da Ómicron, como a ‘Centaurus’ ou ‘Bad Ned’, podem ser a causa de uma estranha constipação (ou pior…) no verão

Cada variante bem-sucedida deste então é um ‘spin-off da Ómicron: a ‘stealth Omicron’, BA.2, BA.2.12.1, BA.4 ou BA.5

Francisco Laranjeira

Se há uma coisa que aprendemos com a pandemia da Covid-19 é que a evolução não é necessariamente um processo demorado que leva milhares, senão milhões, de anos. Pode ser rápido e implacável.

Recentemente, o CDC (Centro de Controlo e Prevenção de Doenças), dos Estados Unidos, anunciou que a nova subvariante da Ómicron, a BA.5, que invadiu a África do Sul na primavera, tornou-se finalmente dominante nos EUA depois de ter sido detetada pela primeira vez em março.



Não houve ‘festa’, por assim dizer: no mesmo dia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou nas redes sociais um vídeo sobre uma nova variante que surgiu na Índia. A A.2.75 – apelidada de ‘Centaurus’ nas redes sociais – já chegou aos Estados Unidos, confirmou o CDC à revista ‘Fortune’, com os dois primeiros casos identificados a 14 de junho último. Entretanto, já foi localizada em aproximadamente 10 países, garantiu Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS. Ainda não foi declarada como uma variante de preocupação ou mesmo uma variante de interesse e é muito cedo para avaliar a transmissibilidade, gravidade e o potencial de evasão imunológica, acrescentou.

Mas há especialistas que já estão a levantar bandeiras vermelhas – particularmente as mudanças adicionais (até 9) que tem quando comparada com a Ómicron. Nenhuma mudança é individualmente preocupante, “mas aparecer todas em conjunto de uma só vez é outra questão”, alertou Tom Peacock, virologista do Departamento de Doenças Infeciosas do Imperial College em Londres, no Reino Unido.

A BA.2.75 é “algo com o qual todos nos devemos preocupar”, referiu Bruce Walker, diretor do Ragon Institute of MGH, MIT e Harvard, um instituto médico focado na erradicação de doenças. A nova variante “dá-nos uma visão do que o vírus é capaz em termos de mutação. Aqui está novamente um vírus que tem semelhanças com a variante Ómicron original mas com pequenas alterações de aminoácidos tornou-se algo que provavelmente será capaz de escapar à imunidade. Acho que o que todas essas variantes estão a mostrar-nos é que o vírus não chegou nem perto de explorar todo o espaço evolutivo disponível.”

Se a BA.2.75 vai causar uma onda global ou será um fracasso rapidamente – como as variantes Lambda e Mu –, isso não se sabe, explicou Stuart Ray, professor da Johns Hopkins Medicine, dos Estados Unidos. “Existem variantes que vemos a aparecer esporadicamente e têm características que nos deixam preocupados”, disse. “Mas até que as vejamos a ‘competir’ em vários cenários, é difícil saber o que poderão a significar para nós.”

Essas variantes já passaram despercebidas mas agora estão a ganhar atenção como resultado da “vigilância intensificada e maior atenção ao sequenciamento”, apontou Daniel Kuritzkes, chefe da divisão de doenças infeciosas do Brigham and Women’s Hospital e professor de medicina em Harvard. “Vimos todos os tipos de variantes na família Ómicron”, disse. “Realmente temos de ver um número substancial de casos a aumentar em muitos locais para saber se é realmente uma variante importante de preocupação.”

No entanto, a ‘Centaurus’ não foi a única subvariante da Covid-19 a chamar a atenção recentemente: cresce o interesse sobre a BA.5.3.1, também conhecido como ‘Bad Ned’, e que é um ‘spin-off’ da subvariante BA.5 atualmente em destaque no planeta. Na Alemanha, onde está em alta desde o final de maio, é responsável por quase 80% dos casos BA.5. A BA.5.3.1 também foi identificada nos EUA, segundo garantiu um porta-voz do CDC, mas representa menos de 5% dos casos.

Outro parente da BA.5 que atingiu os radares: a BA.5.1, que está a aumentar em prevalência no Reino Unido. “As variantes e subvariantes estão a fragmentar-se rapidamente. Não há uma ou duas, mas centenas de variantes e subvariantes.” A Ómicron entrou em cena no início de novembro de 2021. Nada tem sido o mesmo desde então.

Cada variante bem-sucedida deste então é um ‘spin-off da Ómicron: a ‘stealth Omicron’, BA.2, BA.2.12.1, BA.4 ou BA.5. Uma sucessão que, para Kuritzkes, é interessante. “Continuamos a ver derivados da Ómicron em vez de algo completamente diferente a surgir”, apontou. “Antes da Ómicron, tudo o que surgia era muito diferente do que circulava. A Delta não veio de Beta; a Beta não veio de Alpha.”

“O vírus pode finalmente ter encontrado um nicho evolutivo onde isso é o melhor que pode fazer, e está a modificar-se, mexendo nas margens para obter pequenas vantagens”, explicou o especialista. Alguns apontam para sintomas supostamente mais leves da Ómicron e aparente predileção pelo trato respiratório superior em comparação com a variante original, que muitas vezes se instalava nos pulmões inferiores, apresentando maior risco de pneumonia e morte.

Doenças menos graves e maior transmissibilidade podem realmente ser uma coisa boa, relatam os cientistas, se isso significar que a Ómicron está a transformar-se em nada mais do que uma constipação, ainda que desenfreada. Mas ainda é muito cedo para se chegar a essa conclusão, alertou Kuritzkes. O tempo dirá se as subvariantes emergentes são ameaças viáveis ​​ou meras distrações.

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