Um painel de 29 especialistas alerta para que as ondas de calor que assolaram a Índia e o Paquistão em março e em abril colocam em risco as cadeias de abastecimento globais de trigo. Com o aumento da temperatura média global, devem esperar-se mais disrupções.
Avança o jornal ‘El País’ que um painel de 29 especialistas de vários países alerta que as vagas de calor intenso e duradouro que esses dois países do sul asiático sofreram não podem ser vistos como acontecimentos distantes. Sendo, de acordo com dados do portal ‘Statista’, a Índia e o Paquistão o segundo e o sétimo maiores produtores de trigo a nível mundial, respetivamente, as perdas de colheitas devido a temperaturas elevadas durante longos períodos de tempo constrangem a oferta mundial e criam escassez nos mercados mundiais.
A guerra na Ucrânia, país que até à eclosão do conflito ocupava o sexto lugar na lista dos maiores produtores de trigo, é um fator de stress acrescido sobre as cadeias de abastecimento mundiais.
Citado pelo periódico espanhol, Aditi Kapoor, uma das especialistas que participou no estudo, aponta que às temperaturas anormalmente altas que se registaram em março e em abril juntam-se níveis de pluviosidade muito abaixo do que seria de esperar para essa altura do ano. Esse conjunto de condições faz com que os especialistas estimem perdas de 20% nas colheitas de trigo indianas este ano.
Depois de a produção e exportações de trigo da Ucrânia terem saído da equação por causa da guerra, esperava-se que a Índia assumisse uma maior quota-parte no abastecimento dos mercados externos, apesar de a sua produção ser maioritariamente focada para o consumo interno. E o governo de Nova Deli, aponta o mesmo jornal, tinha planos para aumentar o volume de exportações de trigo, até cerca de 10 milhões de toneladas.
Contudo, na semana passada, a Índia anunciou que iria proibir as exportações desse cereal, deixando os mercados com menos um ponto de apoio e fazendo os preços disparar.
O estudo aponta também que a escassez de carvão na Índia fez com que a produção de energia sofresse cortes. Com intensas vagas de calor e sem eletricidade para aceder a equipamentos como o ar condicionado, as pessoas tiveram que limitar as suas atividades aos períodos de menor calor, de madrugada e à noite. Essas limitações tiveram também impacto no rendimento das produções agrícolas.
A redução do número de fontes de produção e abastecimento de trigo, bem como de outros cereais e alimentos, fará aumentar ainda mais os preços de um leque cada vez maior de produtos, impulsionando a inflação e constrangendo o poder de compra dos consumidores, num ciclo vicioso com consequências potencialmente catastróficas.
Com as emissões de gases com efeito de estufa a registarem aumentos sucessivos (dados de março da Agência Internacional de Energia apontam aumentos de 6% em 2021 de emissões globais de CO2 relacionadas somente com a produção energética), as previsões apontam para mais eventos meteorológicos extremos, para menos chuva e mais ondas de calor de grande duração, pelo que as produções agrícolas que alimentam parte dos mercados mundiais podem vir a sofrer cada vez mais reveses e agudizar a crise alimentar que tem vindo a ganhar corpo.




