A cultura Pop na “desordem” internacional

Opinião de Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Executive Digest

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O “pop” é a abreviação de “Popular” ou então deriva de “popcorn” (pipoca) numa alusão ao processo instantâneo de estouro do milho. Ambas as definições refletem sentimentos e pensamentos, tendências e crenças que surgem e estão na boca do povo. Uma cultura que evolui constantemente e não pára de se atualizar, pois os meios de comunicação são a sua principal fonte de informação. A comunicação social, a internet e as redes sociais engrandeceram esta tendência. Assim como aparece de forma rápida, rapidamente desaparece, pois é baseada em crenças (na maioria dos casos) ou uma mera interpretação dos factos e da ciência, amplificados pelos meios de comunicação que torna a mensagem “sexy” e apelativa. Não se trata de uma cultura de massas mas os meios de comunicação tradicionais e digitais, as estrelas, os comentadores, os bloggers e os influencers estão a contribuir para que isso aconteça. Tudo começou com a intervenção das figuras públicas e célebres na indústria cultural mas que rapidamente saltou para todas as outras áreas, inclusive em áreas tão formais no conhecimento, como a saúde, a economia ou a política. Por exemplo, a alegada terapia de saúde “cupping” não tem evidência científica mas é utilizada e divulgada por atletas olímpicos como Michael Phelps; figuras célebres como Justin Bieber ou políticos como o Primeiro Ministro do Canadá. Trata-se portanto de uma cultura sedutora, fácil de apreender, superficial e com um “megafone”. Tudo isto para chegar ao “pretenso” conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que se está a tornar num braço de ferro. O Sr Putin tornou-se a celebridade que pretensamente está a defender os interesses russos ao querer afastar a NATO de perto das suas fronteiras. Acompanhado por outras celebridades que se opõem,  como Joe Biden, Macron, Boris Johnson, Xi Jiping e até o presidente turco quis aparecer também.



Faz sentido que a Rússia não queira a NATO perto das suas fronteiras? Não. Isso é interferir na soberania da Ucrânia e presumir que a Aliança Atlântica é uma organização agressora capaz de invadir um país soberano como a Rússia, sem mais. Apenas faz sentido para alguns Russos e para o presidente Putin, que estava a perder importância no panorama internacional. Os EUA tinham mudado o seu foco de atenção para a Área do indo-pacífico e para a China com o pacto AUKUS, relegando a Rússia para segundo plano. A Rússia conseguiu, com este conflito, voltar a estar no centro das atenções do mundo, criando um novo equilíbrio geo-político internacional e também geo-económico. Provocou o aumento do preço do gás e do petróleo pelo risco do colapso do fornecimento do gás natural russo, num momento em que a Europa (e Portugal como muito bom aluno) decidiu acabar com as centrais energéticas a carvão. Este cenário tornou a inflação resiliente, gerou a quebra generalizada dos mercados financeiros mundiais, a fuga dos activos de risco de bolsas e moedas emergentes consideradas voláteis (o Brasil por exemplo), um forte aumento no preço do milho e um maior ainda no preço do trigo (produtos dos quais a Ucrânia é um produtor relevante), a valorização do dólar em relação ao euro por causa da volatilidade energética, entre outras consequências gravosas. Nada que seja benéfico ao mundo na reta final de uma recessão provocada por uma pandemia Netflix (que surge sempre mais uma temporada ou variante). Mas esta cultura pop política faz lembrar a filósofo Nietzsche : “Muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolheram, poucos os que se empenham no objectivo”!

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