Por que é que as vacinas podem não ser capazes de eliminar a covid-19

O caminho para eliminar a covid-19 é longo e incerto. Muitos países estão a contar com as vacinas para construir imunidade suficiente nas populações, fazendo com que a transmissão do novo coronavírus abrande e, eventualmente, acabe por parar.

Mara Tribuna

O caminho para eliminar a covid-19 é longo e incerto. Muitos países estão a contar com as vacinas para construir imunidade suficiente nas populações, fazendo com que a transmissão do novo coronavírus abrande e, eventualmente, acabe por parar.

Mas mesmo com o lançamento de vacinas altamente eficazes, a cobertura de imunização pode não atingir esse nível, chamado imunidade de grupo. Por um lado, não se sabe exatamente que nível de imunidade é necessário ou se as vacinas serão suficientemente fortes para o atingir.



1. Pode a covid-19 ser erradicada?

Provavelmente não. Até agora, apenas uma doença humana – a varíola – foi oficialmente erradicada, ou seja, reduzida a zero casos e aí mantida a longo prazo sem medidas de intervenção contínua.

A varíola foi erradicada graças a uma vacina altamente eficaz e ao facto de os humanos serem os únicos mamíferos naturalmente suscetíveis à infeção pelo vírus da varíola que provoca a doença, por vezes, mortal.

Pensa-se que o SARS-CoV-2 persiste na natureza em morcegos e tem também infetado martas (ou visons), gatos, gorilas e outros animais. A erradicação do vírus exigiria que fosse ‘banido’ de todas estas espécies, além dos humanos, o que não é tão viável.

2. O que é a erradicação?

Acontece quando os esforços para suprimir um surto resultam em zero novos casos de uma doença ou infeção numa área definida durante um determinado período. Não existe uma definição oficial de quanto tempo isso deve durar. Uma das hipóteses é fazê-lo durante 28 dias, o que corresponde ao dobro do período de incubação do SARS-CoV-2 (o tempo entre a infeção e o aparecimento dos sintomas).

Alguns países, como a Nova Zelândia, alcançaram zero novos casos por longos períodos, através do encerramento de fronteiras, confinamentos e deteção e isolamento diligente de casos.

Durante uma pandemia, sustentar a eliminação de qualquer doença infeciosa a nível nacional é um grande desafio, uma vez que o vírus pode reentrar no país a partir de viajantes internacionais infetados.

3. As vacinas vão eliminar a covid-19?

É difícil de dizer. Não se sabe que proporção da população necessita de imunidade para impedir a circulação do vírus, ou se mesmo as vacinas mais potentes serão capazes de impedir a sua propagação.

Um estudo estimou que para parar a transmissão, 55% a 82% da população precisaria de ter imunidade, o que pode ser conseguido quer recuperando de uma infeção, quer através da vacinação. Contudo, a imunidade de grupo não foi alcançada em Manaus, a capital do estado do Amazonas no Brasil, mesmo depois de uma estimativa de 76% da população ter sido infetada.

Ainda assim, há razões para acreditar que as inoculações em massa terão um efeito mais poderoso porque as vacinas parecem suscitar uma proteção mais forte e mais duradoura do que uma infeção anterior.

4. Será que as vacinas têm de prevenir a infeção para diminuir os casos?

Não. As vacinas não têm de ser perfeitas para ter um benefício de saúde pública. A vacinologista neozelandesa Helen Petousis-Harris aponta o rotavírus e a varicela como exemplos de doenças que foram “virtualmente eliminadas utilizando vacinas que são muito boas na prevenção de doenças graves, bastante boas na prevenção de qualquer doença, mas que não previnem completamente a infeção em toda a gente”.

Uma vez que o SARS-CoV-2 se propaga através de partículas respiratórias da garganta e do nariz de uma pessoa infetada, uma vacina que reduz a quantidade de vírus nas vias respiratórias ou reduz a frequência com que uma pessoa infetada tosse pode diminuir a probabilidade da sua transmissão a outras pessoas.

O chefe do programa de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Mike Ryan, disse que em vez de se concentrar na eliminação do novo coronavírus, o sucesso deve ser visto na “redução da capacidade deste vírus de matar, de pôr as pessoas no hospital, de destruir a economia e a vida social”.

5. E se a covid-19 não for eliminada?

O presidente do Grupo Consultivo Estratégico e Técnico da OMS para os Riscos Infeciosos, David Heymann, advertiu: “parece que o destino do vírus é tornar-se endémico”. Os vírus que são endémicos circulam continuamente na comunidade, causando frequentemente picos periódicos quando as características da doença e os padrões de comportamento humano favorecem a transmissão.

Exemplos incluem o norovírus, a notória causa da gastroenterite em navios de cruzeiro, e a miríade de vírus, incluindo quatro coronavírus, que causam a constipação comum, especialmente durante o Inverno.

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