Vacina contra a Covid-19 não impedirá propagação nem aliviará restrições, defendem especialistas

Uma vacina contra a Covid-19, por si só, não vai conseguir impedir a propagação do vírus, com as restrições na vida diária provavelmente a terem de se manter durante algum tempo.

Simone Silva

Uma vacina contra a Covid-19, por si só, não vai conseguir impedir a propagação do vírus, com as restrições na vida diária provavelmente a terem de se manter durante algum tempo, defende uma equipa de especialistas, citada pelo ‘The Guardian’.

Um relatório de um grupo multidisciplinar convocado pela Royal Society, chamado Delve (Avaliação de Dados e Aprendizagem para Epidemias Virais), afirma que a produção de uma vacina enfrenta sérios desafios, incluindo obstáculos na fabricação e armazenamento, questões sobre a eficácia real e problemas com a confiança pública.



Nilay Shah, diretor do departamento de engenharia química do Imperial College London e autor do relatório, disse que, embora se esperem vacinas disponíveis em Março, a grande questão é se os fármacos mostram ser realmente eficazes e se são aprovados em todos os processos regulatórios.

«Mesmo se passarmos por isso e o material estiver disponível com a vacinação a começar na primavera, vai demorar muito tempo para conseguir trabalhar com os diferentes grupos prioritários inicialmente e depois com a população em geral», disse o responsável ao ‘The Guardian’, acrescentando que pode demorar até um ano.

Por sua vez, Charles Bangham, presidente de imunologia do Imperial College London e co-autor do relatório, afirmou que «mesmo que seja eficaz, é muito improvável que possamos voltar completamente ao normal. Teremos que aliviar gradualmente algumas das outras restrições».

Bangham refere que poucas vacinas bloqueiam completamente uma infeção, mas podem reduzir a gravidade da doença e a probabilidade de transmiti-la. No entanto, no caso de vacinas em desenvolvimento contra a Covid-19, continuam por responder inúmeras questões.

Já foram levantadas preocupações de que as vacinas contra a Covid possam ser menos eficazes em adultos mais velhos do que em outros grupo, um problema potencial se o abastecimento for limitado e as vacinações tiverem que ser priorizadas para aqueles com maior risco de infeção.

A equipa afirma que uma política de vacinação ampla, na tentativa de produzir uma imunidade de grupo, também pode gerar dificuldades, principalmente se a vacina tiver eficácia limitada. E para qualquer programa de vacinação em massa, há obstáculos de produção e fornecimento que têm de ser ultrapassados.

«É preciso ter a certeza de que [teremos] materiais suficientes para produzir as dezenas de milhões de doses no Reino Unido e vários mil milhões em todo o mundo», disse Shah, observando que estes variam desde produtos químicos a frascos de vidro.

O programa de vacinação teria de ser realizado num ritmo cerca de 10 vezes superior ao das vacinações contra a gripe sazonal, disse Shah. «Isso exigiria muitos milhares de profissionais de saúde individuais, pessoas devidamente especializadas, dedicadas exclusivamente à aplicação de vacinas», acrescentou citado pelo ‘The Guardian’.

A confiança do público numa vacina também pode representar um obstáculo. Zania Stamataki, especialista em imunologia viral da Universidade de Birmingham, disse: «Quando as primeiras vacinas forem lançadas, temos de fazer o nosso melhor para dissipar quaisquer mitos em torno da vacinação e tranquilizar os indivíduos e famílias de que estão seguros».

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