42% das mortes por cancro podem ser evitáveis, revela estudo: há 44 fatores de risco a que ‘ninguém liga’

O tabaco continua a ser o principal inimigo, responsável por uma em cada cinco mortes por cancro. Este hábito está ligado ao desenvolvimento de vários tipos de tumor e mantém-se como a maior ameaça entre os fatores de risco

Francisco Laranjeira
Outubro 4, 2025
9:00

O cancro é hoje a principal causa de morte no mundo e continua a crescer a um ritmo preocupante. Num artigo publicado no jornal ‘El País’, é referido que um estudo publicado na revista ‘The Lancet’ revelou que, em 2023, foram diagnosticados 18,5 milhões de novos casos de cancro, o dobro do registado em 1990. As previsões apontam para um aumento de 61% até 2050, impulsionado pelo envelhecimento e pelo crescimento da população.

Mas há um dado ainda mais alarmante: segundo a publicação, 42% das 10,4 milhões de mortes por cancro ocorridas em 2023 estão relacionadas com 44 fatores de risco evitáveis.

O tabaco continua a ser o principal inimigo, responsável por uma em cada cinco mortes por cancro. Este hábito está ligado ao desenvolvimento de vários tipos de tumor e mantém-se como a maior ameaça entre os fatores de risco.

Contudo, não é o único. O estudo destaca ainda a obesidade, o excesso de açúcar no sangue, dietas pouco saudáveis, o consumo de álcool, drogas e o sedentarismo como causas que aumentam significativamente o risco da doença. Há também riscos ambientais fora do controlo individual, como a poluição do ar, a exposição ao radão, ao amianto ou ao arsénico.

Os investigadores defenderam que grande parte destes casos poderia ser evitada através de medidas de prevenção eficazes. Exemplos disso são políticas fiscais mais duras contra o tabaco, programas de vacinação contra o vírus do papiloma humano (VPH) e rastreios regulares.

Para além disso, vários especialistas sublinharam que os mesmos fatores de risco associados ao cancro também estão presentes noutras doenças graves, como problemas cardiovasculares. Assim, a adoção de hábitos de vida saudáveis teria um impacto positivo muito mais amplo.

Cancro em jovens adultos: uma tendência preocupante

O cancro sempre foi associado ao envelhecimento, mas os oncologistas alertaram agora para o aumento de casos em pessoas com menos de 50 anos. Tumores colorretais são um exemplo desta tendência, e os especialistas apontaram as alterações nos hábitos alimentares e na flora intestinal como possíveis causas.

Portugal não foge ao ‘flagelo’

O especialista Rui Tato Marinho alertou, no final do ano passado, para o aumento de casos de cancro da mama, colorretal e do fígado em pessoas mais jovens, apontando a obesidade e o consumo exagerado de álcool e carnes vermelhas como causas para este problema.

“Os cancros têm aumentado em pessoas mais jovens, mas a nossa preocupação principal é o aumento do cancro da mama em mulheres com 30 e tal, 40 anos, e do cancro do cólon e do intestino grosso também em pessoas com 40 anos”, disse o diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais.

Segundo o gastrenterologista, o cancro do fígado também tem mostrado um crescimento entre a população mais jovem, o que leva a um apelo para a realização de rastreios precoces.

Atualmente, recomenda-se que os portugueses com 50 ou mais anos realizem o rastreio do cancro colorretal (pesquisa de sangue oculto nas fezes ou colonoscopia), mas os especialistas começam a recomendar que se realize aos 45 anos, disse Tato Marinho.

O especialista aponta várias explicações para o aumento deste cancro em idades mais jovens, como a obesidade, “um problema gravíssimo de saúde pública”. “Apesar de várias campanhas, a população está cada vez mais obesa”, disse, alertando que a obesidade “aumenta o risco de cancro não só do cólon, do fígado, mas também da mama”.

O consumo excessivo de álcool e uma dieta rica em carne vermelha também têm sido identificados como fatores de risco. “Nós somos dos países do mundo onde se consome mais álcool por cabeça e começa-se a consumir muito cedo. Isso também é um fator de risco para o cancro da mama e do cólon”, avisou.

Enfatizou que muitos jovens não têm consciência dos riscos associados aos seus comportamentos e estilo de vida, defendendo, por isso, que as campanhas de sensibilização deviam começar no ensino básico.

Defendeu igualmente atividades na escola que promovam o exercício físico e uma alimentação saudável, criando uma base para um estilo de vida que previna doenças futuras. “Um jovem que tem excesso de peso, que fuma, bebe, vai viver menos 20 ou 30 anos, porque o risco de ter cancro do pulmão, do fígado ou do cólon é mais elevado”, elucidou.

As doenças oncológicas são a segunda causa de mortalidade em Portugal, onde a cada ano são detetados mais de 7.000 casos de cancro colorretal, registando uma taxa de mortalidade superior à média da UE, cerca de 9.000 novos casos de cancro da mama e cerca de 1.400 novos casos de cancro do fígado.

Questionado sobre a situação das hepatites B e C, o especialista afirmou que estão “mais ou menos controladas”, realçando que Portugal é dos melhores países do mundo na aplicação da vacina da hepatite B quando o bebé nasce.

“Só metade dos países do mundo fazem isto, que é das medidas mais eficazes para evitar a hepatite B”, enalteceu.

Para a hepatite C, o tratamento é gratuito em Portugal e cura quase 100% dos casos, assinalou, destacando, contudo, a importância de se realizarem cada vez mais rastreios para detetar a doença precocemente.

“Temos uma forte imigração (…). Nem todos tiveram acesso, como nós, aos melhores cuidados de saúde. Estão cá para sobreviver, para ajudar Portugal e precisamos muito deles, mas muitos vêm de países em que não se faz a vacina de hepatite B à nascença ou não tem disponível o tratamento da hepatite C”, referiu.

Portanto, concluiu Tato Marinho, “é uma história inacabada” e daí a necessidade de cada vez mais testes e “as farmácias que são ofertas de saúde de proximidade, com pessoas esclarecidas, podem ser um instrumento fantástico para detetar mais pessoas” nos rastreios.

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