Os Estados Unidos enfrentam esta terça-feira uma situação inédita: mais de 100 mil trabalhadores federais vão apresentar formalmente a sua demissão, no que se antecipa como a maior saída em massa da história do país. O fenómeno decorre de um programa de “demissões diferidas” criado pela administração de Donald Trump, que visa reduzir de forma drástica o número de funcionários públicos.
A decisão surge num momento crítico, com o Congresso obrigado a aprovar até terça-feira um novo pacote de financiamento para evitar uma paralisação parcial do governo federal. Caso não haja acordo, centenas de milhares de trabalhadores poderão ser despedidos ou colocados em licença sem vencimento, numa crise que ameaça paralisar serviços públicos essenciais já a partir de quarta-feira.
Vários funcionários que se preparam para deixar os seus cargos descrevem meses de “medo e intimidação” que, segundo dizem, os levaram a não ter alternativa senão sair. “Os trabalhadores federais ficam pelo sentido de missão. Mas quando essa missão nos é retirada, quando somos transformados em bodes expiatórios, quando a segurança no emprego desaparece e até o pequeno equilíbrio entre vida pessoal e profissional é destruído, partimos”, relatou ao Guardian um antigo funcionário da Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema).
Segundo um relatório democrata no Senado, divulgado em julho, o programa custará 14,8 mil milhões de dólares, já que cerca de 200 mil trabalhadores receberam ordenado e benefícios durante até oito meses em licença administrativa. A administração Trump defende, contudo, que este é um investimento que permitirá poupanças significativas no futuro. O Gabinete de Gestão de Pessoal (Office of Personnel Management) alegou que os custos imediatos permitirão reduzir as despesas governamentais a longo prazo e criticou as proteções laborais no setor público, defendendo que os EUA devem adotar “um sistema de emprego à vontade, moderno, como a maioria dos empregadores”.
Um porta-voz da Casa Branca reforçou essa visão, afirmando que “não há custos adicionais para o governo”, já que os salários seriam pagos de qualquer forma. “Na verdade, este é o maior e mais eficaz plano de redução da força de trabalho da história e permitirá poupar 28 mil milhões de dólares por ano”, acrescentou. No total, espera-se que cerca de 275 mil funcionários deixem o serviço público através de demissões diferidas, programas de separação voluntária, reformas antecipadas e por via da própria taxa de saída natural.
Perante este cenário, Trump procura agora, em contrarrelógio, evitar um “shutdown” do governo federal. Depois de ter cancelado reuniões nos últimos dias, o presidente recuou e vai receber esta segunda-feira, na Casa Branca, os quatro principais líderes do Congresso. O encontro, previsto para as 14h00 locais (19h00 em Lisboa), junta os democratas Hakeem Jeffries, líder da minoria na Câmara dos Representantes, e Chuck Schumer, líder da minoria no Senado, bem como os republicanos Mike Johnson, presidente da Câmara, e John Thune, líder da maioria no Senado.
Johnson confirmou no domingo, em entrevista à CNN, ter falado longamente com Trump no sábado e garantiu que os democratas aceitaram o convite. O objetivo, disse, é “convencê-los a seguir o bom senso e a fazer o que é certo para o povo americano”. Já Schumer, em declarações à NBC, mostrou-se esperançado, mas prudente: “Espero que consigamos fazer algo real. Mas não sei em que disposição vamos encontrar o presidente. Se for apenas para gritar, atacar os democratas e falar das suas queixas, não vamos conseguir nada. Não queremos uma paralisação. Esperamos uma negociação séria.”
Apesar desta tentativa de diálogo, o próprio Trump terá confidenciado ao jornalista Robert Costa, da CBS News, que não acredita num acordo iminente. “Parece provável que haja uma paralisação neste momento, com base na minha conversa com ele”, disse Costa, acrescentando que fontes da Casa Branca veem até uma vantagem estratégica no cenário de “shutdown”, já que o presidente acredita poder usar esse contexto para “eliminar o que chama desperdício, fraude e abuso”.
A proposta republicana em cima da mesa é uma resolução de curto prazo que manteria o financiamento por sete semanas, aprovada na Câmara dos Representantes mas bloqueada no Senado, onde precisa de oito votos democratas. Os democratas recusam-na, exigindo a prorrogação de créditos fiscais da Lei dos Cuidados de Saúde Acessíveis (Affordable Care Act), conhecidos como subsídios do “Obamacare”, que expiram a 31 de dezembro.
Hakeem Jeffries sublinhou que, sem essa extensão, “mais de 20 milhões de americanos enfrentarão aumentos dramáticos de prémios, copagamentos e franquias, numa altura em que o custo de vida já é demasiado elevado”. O líder democrata garantiu ainda: “Estamos prontos, dispostos e capazes de nos sentar com qualquer pessoa, a qualquer hora e em qualquer lugar, para financiar o governo, evitar uma paralisação causada pelos republicanos e enfrentar a crise de saúde que eles provocaram.”
Os republicanos rejeitam esta condição, acusando os democratas de usar o tema da saúde como arma política. “Os subsídios do Obamacare são um debate que deve ser resolvido até ao final do ano, não agora, quando apenas tentamos manter o governo aberto”, afirmou Mike Johnson. O senador John Thune reforçou, também à NBC, que “a bola está do lado dos democratas”, acusando-os de manter “o governo e o povo americano como reféns”.
Do lado democrata, o senador Chris Van Hollen acusou os republicanos de dar a Trump “um cheque em branco” para gastar em benefício político próprio: “Até agora, o presidente disse que prefere encerrar o governo a impedir que os custos da saúde disparem. Os democratas estão unidos nesta questão. Estou satisfeito por estarmos finalmente a falar. Vamos ver o que acontece.”
Com o prazo a expirar já esta terça-feira, o clima em Washington é de incerteza. Caso não haja acordo, os primeiros setores do governo federal poderão começar a encerrar na manhã de quarta-feira, num cenário que, a par com a saída em massa de mais de 100 mil trabalhadores, promete mergulhar a administração norte-americana numa das maiores crises da sua história recente.




