XV Barómetro: Ainda há confiança

Neste barómetro da Executive Digest, a maioria dos inquiridos diz-se crítico das medidas do governo e algo céptico em relação ao futuro. Mas confiam que é possível aprender com a crise.

JOÃO PAULO VELEZ
DIRECTOR DE COMUNICAÇÃO E MARKETING CORPORATIVO SANTANDER PORTUGAL

Reforçar o marketing digital, mudar a estratégia do negócio e melhorar a experiência do cliente são, por esta ordem, os instrumentos que os empresários dizem mais adequados para melhor preparar o pós-crise e dar a volta por cima. Esta é talvez uma conclusão improvável (embora não totalmente surpreendente) dos resultados do barómetro deste mês. Para a generalidade dos inquiridos, as perspectivas do OE para 2021 estão claramente aquém do desejado embora seja sublinhado o carácter positivo da manutenção das medidas de crédito fiscal extraordinário ao investimento (para 54,5%) e a eliminação do agravamento da tributação autónoma para as micro, pequenas e médias empresas (50%). O grau de confiança na economia está, digamos assim, a meio: para 38,6% existe pouca confiança; para 36,4% a confiança é moderada. A maioria (52,3%) continua a acreditar que o regresso à normalidade da actividade empresarial acontecerá entre 12 e 24 meses. A maioria dos inquiridos não tem receio ou tem pouco receio de uma interrupção no fornecimento de matérias-primas e só 22,7% tem intenção de diminuir o investimento em 2021. Para completar o cenário razoavelmente animador, quase o dobro dos inquiridos considera adequada a substituição encontrada para o lay-off simplificado em relação aos que acham pouco eficiente. Em suma: apesar das dificuldades, um barómetro que continua a mostrar empresários com pensamento positivo quanto aos tempos mais próximos.

JOSÉ GONÇALVES PRESIDENTE ACCENTURE PORTUGAL

Vivemos uma crise económica, sanitária e social sem precedentes. 2019 foi um ano positivo: ainda que o crescimento do PIB não tenha sido excepcional (~2%), foi o primeiro ano desde o 25 de Abril que Portugal conseguiu um excedente orçamental (+0,2%). Tudo apontava para que 2020 pudesse ser melhor. A realidade que temos é bem diferente: o PIB deverá decrescer quase 10%, com um regresso a um preocupante aumento da dívida. As perspectivas para 2021 não são melhores: o PIB deverá crescer, mas ainda sem conseguir recuperar os valores de 2019, e a dívida continuará a aumentar. As respostas ao XV Barómetro reflectem-no. A confiança é reduzida, com quase 95% reconhecendo que é negativa ou moderada. E há a consciência que a recuperação será gradual. Existe, no entanto, uma resposta positiva, para alguém que tanto acredita no digital como numa oportunidade única para Portugal, nomeadamente de atracção de investimento estrangeiro e aceleração do crescimento da economia com base na exportação de produtos e serviços de valor acrescentado: a necessidade de apostar em capacidades e competências digitais nas empresas como forma de preparar o futuro pós-crise. Gostaria de deixar uma mensagem de optimismo para o futuro, pois estou convencido que podemos sair mais fortes, assim saibamos aproveitar as oportunidades únicas e irrepetíveis que o plano de recuperação europeu vai criar para Portugal, fazendo chegar os quase 10 mil milhões anualmente, em grande parte a fundo perdido, às áreas estratégicas da nossa economia.

MANUEL LOPES DA COSTA COUNTRY MANAGING PARTNER BEARING POINT

O jogo do gato e do rato. O Estado tenta ajudar o possível até ao limite do endividamento razoável da nossa economia, os empresários acham pouco

. Isso mesmo revela este barómetro onde 80% dos inquiridos acreditam que as medidas propostas estão aquém ou muito aquém do que é preciso. Os respondentes concordam que as mais importantes são as relativas a desagravamento fiscal, e mais de 50% estão pouco ou nada confiantes face à economia. Todos acreditam que a normalidade voltará não obstante a maioria indicar que só será uma realidade dentro de um ou dois anos. Nessa altura acredita-se que só irão vencer as que conseguirem rever e reinventar a sua estratégia. A conclusão é obvia. Falta confiança. Confiança que nos permita acreditar que o futuro é sem esta pandemia e que vale a pena começar a investir nele. Não podemos continuar a comprometer a sanidade mental dos portugueses nem sanidade económica do País. Não perceber que tem que haver um equilíbrio entre estas três vertentes é um erro, e se persistirmos nele, através da imposição de confinamentos totais instaurando o Estado de Emergência iremos pagar muito caro. Temos de encontrar outro tipo de soluções. Exige-se mais pensamento estratégico, mais liderança, liderança essa que não tem que ser, e atrevo-me mesmo a dizer, não deve ser só do Estado e do governo. Sociedade Civil a altura é agora. Acordem…

STEVEN BRAEKEVELDT CEO GRUPO AGEAS PORTUGAL

É possível verificar um cepticismo generalizado entre os inquiridos. A grande maioria revela ter pouca ou moderada confiança na Economia portuguesa, considerando que as medidas previstas no OE para 2021 ficam aquém, e prevendo a retoma à normalidade dentro de um ou dois anos. Contudo, é de destacar aquela que parece ser a luz ao fundo do túnel: a grande parte manifesta a sua intenção de manter (31,82%) ou aumentar (25%) o investimento em 2021, um indicador que reflecte a esperança e a vontade de apostar no crescimento do negócio. Os inquiridos apontam as que consideram ser as melhores estratégias para enfrentar o pós-crise: o reforço do marketing digital, a revisão da estratégia de negócio e o foco na experiência do cliente. Não é altura para baixar braços, e os verdadeiros líderes sabem-no. Apesar do cepticismo, os gestores portugueses estão determinados em fazer prosperar os negócios. Precisamos de olhar para as grandes lições deste período: a forma como nos conectamos aos clientes; as condições que damos aos colaboradores; se é possível adaptar a nossa produção para fazer face às necessidades, e como podemos fazê-lo de forma mais sustentável. Os gestores precisam de ter a capacidade de aproveitar estas lições e apostar na reinvenção do negócio à imagem do novo contexto.

JOSÉ THEOTÓNIO CEO GRUPO PESTANA

Nos empresários e gestores portugueses 59,1% estão escassos ou sem nenhuma confiança e 5,5% estão com a confiança em alta. Um mau sinal para a Economia portuguesa, que tem causas múltiplas. A mais importante advém da incerteza provocada pela pandemia que vivemos e pelo falhanço na retoma prevista para o segundo semestre. Mas há também problemas com a forma como se tem lidado com a crise. Medidas de contenção que são anunciadas e que depois saem com outros contornos, muito em cima da hora e com muitas situações dúbias. Decisões de confinamento e limitações que coexistem com permissão de grandes ajuntamentos. Um discurso de apoio às empresas empregadoras que coexiste com medidas que tornam o enquadramento económico mais difícil, mais rígido e, por vezes, até contrário e intimador da iniciativa privada. Ou seja, falta um discurso mais claro de qual é o rumo para enfrentar a crise, e que independentemente da incerteza em que teremos de viver, esse rumo tem princípio e valores que serão respeitados e que não serão questionáveis. Com esse discurso as empresas e os decisores económicos ganhariam maior confiança e poderiam desenhar os cenários e tomar as decisões sem estarem “de pé atrás” (desconfiados) de políticas futuras que os poderão prejudicar para além da situação que já hoje enfrentam. A confiança aumentaria e ganharíamos todos!

JOSÉ MIGUEL LEONARDO CEO RANDSTAD PORTUGAL

Con·fi·an·ça: 1. Coragem proveniente da convicção no próprio valor; 2. Fé que se deposita em alguém; 3. Esperança firme; 4. Atrevimento; 5. Insolência; 6. Familiaridade, “confiança”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [online], 2008-2020. A confiança não se exige, ganha-se com o tempo, é uma relação. Uma relação que por vezes se assume com receio e sem optimismo… O que se compreende, porque poucos são os ventos a favor. Mas o que estamos a fazer para construir esta relação de confiança com a economia? O que estamos a fazer nas nossas empresas, nas decisões que tomamos e na forma como gerimos as nossas pessoas? Vivemos com medo. O medo que bloqueia, que deprime. O medo que não nos torna ágeis, não cria e muito menos tem a capacidade de transformar a adversidade em prosperidade. Este medo acompanha quem vai trabalhar, quem procura emprego, quem viu o seu negócio quebrar de um dia para o outro. O medo, a ansiedade, a depressão, o cansaço desta (a)normalidade. É preciso criar relações de confiança e para isso precisamos de lideranças. Lideranças que saibam viver num contexto em que qualquer previsão tem uma margem de erro demasiado elevada. Lideranças de proximidade não suportadas (apenas) em fé, mas com estratégia e visão. Líderes resilientes que reconhecem que não há excesso de comunicação no mundo em que vivemos, que temos de ser autênticos, ágeis e flexíveis. Temos todos de ser mais humanos, de ter um propósito que nos mova e que nos leve a ter coragem para lutar contra ventos contrários, reconhecendo que o excesso de optimismo é utopia, e que só com confiança é que vamos mesmo ficar todos bem.

 

VASCO ANTUNES PEREIRA CEO LUSÍADAS SAÚDE

A segunda vaga não chegou sem avisar, há muito que as previsões a garantiam mais agressiva. Mais exigente para a capacidade instalada, mais propagada, mais fatal, mas com a oportunidade de nos prepararmos face à experiência já vivida. Não nos poupou do medo e ansiedade que a falta de total conhecimento e domínio sobre o vírus nos exige, no entanto, reforço, não nos apanha desprevenidos. Se o mundo tende para um lugar onde se torna possível o controlo das situações e contextos, e facilita a visão global, a actual realidade veio-nos demonstrar o inverso, com resultado num baixo controlo sobre a pandemia e uma instabilidade e insegurança geral. Segundo os principais indicadores deste Barómetro, a produção nacional decresceu, as expectativas não são boas e as perspectivas nada animadoras. A confiança das pessoas e empresas é baixa, nomeadamente em relação ao Governo e a medidas. Espera-se uma recuperação lenta e as fragilidades da nossa economia, mais expostas, dificultarão a retoma. Tenho poucas certezas em relação ao futuro, mas parece-me claro que sozinhos não chegaremos longe e, só em conjunto, me parece haver caminho. A forma como todos actuarmos será a forma como seremos recordados, será sobretudo a forma como chegaremos a um futuro mais estável e mais saudável. Não nos desanimemos pela viagem, que se prevê longa. Este é o momento de colocarmos as opiniões e divergências políticas de parte e garantirmos coesão.

NELSON PIRES GENERAL MANAGER JABA RECORDATI

O Barómetro da Executive Digest, que já vai no 15.º questionário, reflecte bem o estado de espírito dos empresários e gestores em Portugal. Ou seja, aqueles que criam e mantêm empregos, dinamizando o consumo interno, pagando impostos e mais de uma centena de taxas, dinamizam as exportações… Daí a importância de os ouvirmos com muita atenção e este barómetro deveria ser a base do OE de qualquer governo. Começando pelo mesmo OE, em que cerca de 80% dos empresários e gestores, entendem que fica muito aquém (ou aquém) do que seria necessário. Este orçamento reflecte bem as opções multipartidárias que aí tiveram de ser inscritas, num efeito de manta de retalhos. E reflecte muito do que é a ideologia que entende que as empresas e o lucro são uma “maldade do capitalismo”. Não existe nenhuma medida que alivie a carga fiscal das empresas, que promova a recapitalização das mesmas através dos capitais próprios dos empresários, que dinamize as exportações, que reduza os custos de contexto, que flexibilize o emprego… E nem mesmo a promessa dos seis biliões que a “bazuca Europeia” promete, resolve o problema. O Estado não tem capacidade de implementar os projectos rápida e eficazmente, e a sua tendência de se substituir aos privados e fazer investimento público vai ser gigante. É um orçamento bom para as pessoas mas péssimo para as empresas. Num país que vive de Micros e PME, são as medidas mais desagravadoras para estas organizações, como o desagravamento da tributação autónoma e o crédito fiscal ao investimento no 1.º semestre. Trata-se um pouco de “empurrar o problema com a barriga”. O que é de salientar é que são muito poucos os empresários e gestores que apoiam a proibição do despedimento a empresas que tenham lucros, conforme defendem alguns políticos. As empresas têm de ser livres para decidir a sua estratégia e a forma de prevenir estes impactos; por isso o Governo criou um mecanismo (lay-off) que funcionou correctamente quando necessário para prevenir este impacto. O capital não tem pátria e move-se rapidamente, portanto temos de impedir a deslocalização de investimentos estruturantes para países mais confiáveis e expectáveis quer nas suas medidas de emprego, quer na sua política fiscal; pois não existe confiança na Economia portuguesa. A maioria das empresas não tem receio no fornecimento das matérias primas. Considerando que a China incorpora mais de 80% das suas matérias primas nos produtos vendidos no mundo, seria de esperar um receio maior. Mas os empresários e gestores entendem que a China não vai confinar, nem parar. Isso apenas pode acontecer num país como a China, que reporta apenas 14 casos de COVID num dia (todos importados), em que informação, democracia e bem-estar público não são a base da decisão política. Portanto pára quando o estado entender que deve parar! E para maior surpresa nos remete a questão em que mais de metade das empresas vai manter ou aumentar investimentos em 2021, num ano que vai ser difícil, em que não existe a certeza da retoma. Mas percebemos o porquê deste estado de espírito, analisando as prioridades do investimento em 2021: reforço do marketing em tempos de crise, melhorar a experiência dos clientes, novos produtos e inovação. As empresas querem voltar a crescer e incorporar o que aprenderam com a crise. E esta esperança é óptima, pois a economia é confiança!

LUÍS PAIS ANTUNES MANAGING PARTNER PLMJ

A dimensão da “segunda vaga” da COVID-19 parece ter apanhado desprevenidos os poderes públicos e muitas organizações. A proposta de OE para 2021 – aprovada na generalidade na Assembleia da República – que 80% do painel já considerava estar “aquém ou muito aquém do que é preciso” revela-se, à luz da evolução mais recente, desadequada à nova realidade e sofrerá ainda alterações significativas no processo de discussão na especialidade (ou obrigará mesmo à adopção de um orçamento retificativo a curto prazo). O novo “estado de emergência” e as restrições à mobilidade e à actividade económica – ainda que num quadro de confinamento que se antevê mais “suave” e selectivo – vão conduzir a um novo abrandamento da economia no trimestre final de 2020, depois da recuperação parcial ocorrida durante o Verão. Segundo o INE, os 121 municípios mais afectados pelas novas medidas representam não apenas cerca de 70% da população nacional, mas albergam também um conjunto de empresas que valem 80% da riqueza produzida em Portugal. Por outro lado, o recrudescimento da pandemia e as medidas restritivas também adoptadas na generalidade dos nossos principais parceiros comerciais antecipam uma dificuldade superior à identificada no barómetro tanto no fornecimento de matérias primas, como na actividade exportadora de muitas das nossas empresas. Para além da emergência sanitária, a protecção das empresas e empregos é uma prioridade incontornável. Sem prejuízo do papel que a cada um de nós deve caber nas respectivas organizações, é fundamental que os poderes públicos criem as condições para assegurar a melhor utilização dos fundos europeus e adoptem os instrumentos financeiros indispensáveis para evitar a destruição de empregos e empresas.

NUNO FERNANDES PROFESSOR CATEDRÁTICO DE FINANÇAS IESE BUSINESS SCHOOL (ESPANHA)

Portugal é um dos países mais afectado economicamente pela crise da COVID-19. Temos uma estrutura económica atomizada, e muito concentrada em sectores altamentes expostos a esta crise. Temos ainda, em termos relativos, um baixo nível de qualificação dos trabalhadores. E tal como no passado são as empresas pequenas, e com colaboradores de qualificações médias baixas, que sofrem mais. Para além disso temos um cenário político instável, uma gigantesca dívida pública, e um tecido empresarial atomizado e sem escala para competir a nível internacional. Estes aspectos acabam por estar reflectidos nos resultados do barómetro. A grande maioria dos inquiridos revela- -se pouco ou nada confiante na economia portuguesa. E já poucos acreditam numa recuperação rápida – mais de 20% dos participantes no barómetro apenas esperam voltar “à normalidade” dentro de dois anos ou mais. Parece óbvio que esta crise tem de levar a uma reafectação dos nossos recursos. Os resultados mostram claramente que não existem problemas nas cadeias de abastecimento globais. E aqui existem oportunidades para empresas portuguesas. Também a continuação das tensões EUA/ China pode ser benéfico para Portugal, dado que podemos ser nós a substituir as importações que os EUA deixam de fazer da China. Também por isto, vejo por isso com bons olhos que cerca de 40% dos inquiridos digam que devem revisitar o modelo de negócio das suas organizações. Acredito que o modelo de negócio vai ter de ser diferente para muitas empresas. O que exige transformações internas dentro da organização, que por vezes são difíceis de fazer, e encontram resistências diversas. Mas é fundamental repensar e reestruturar a cadeia de valor em que cada empresa participa. O trade-off entre eficiência e resiliência ficou bem patente nesta crise. E só com foco na meritocracia, e alto valor acrescentado, iremos ser competitivos a nível global.

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