Work life balance

Por Fernando Neves de Almeida, Partner da Boyden

 

Todos nós conhecemos aquele amigo ou amiga que está permanentemente assoberbado, que chega sempre atrasado e afogueado, que trabalha horas sem fim e que nos transmite a ideia de que se não fosse por ele (ou ela) o mundo não existia. Não mesmo, pensarão eles na sua convicção de insubstituíveis, esquecendo-se, que desses, estão os cemitérios cheios. Estes, ou estas, serão os ultra-controladores, que nunca encontram ninguém suficientemente competente em quem consigam delegar. Mas também encontramos outros amigos que, de tanto gostarem do que fazem, esquecem-se de que existe um mundo lá fora e que, talvez, agradeça um pouco da sua atenção. Ou ainda, quem não conhece aquela pessoa que gosta “tanto” de voltar para casa que faz o trabalho render, com conversas, cafés e outros entretenimentos, para além de algum trabalho, para que essa hora esteja sempre distante? Finalmente, se calhar, também todos nós temos um amigo ou amiga naqueles ambientes muito competitivos das consultoras ou gabinetes de advogados que, na ânsia de serem os próximos a ser promovidos ou de acumularem tanto dinheiro (que depois não tem tempo para gastar) dedicam horas e horas ao trabalho, deixando para trás outras coisas que, em alguns casos, até podem ser bem mais importantes.

Todos estes estereótipos e, se calhar alguns mais, retratam comportamentos de pessoas que podem estar a gerir mal as suas prioridades.

Cada vez mais organizações reconhecem que trabalhar demais, deixando para trás outras componentes da vida pessoal, pode trazer faturas individuais que mais cedo ou mais tarde se repercutem nas próprias organizações. Mas mesmo não sendo o caso, a fama de algumas carreiras e organizações serem de tal forma exigentes, em termos de dedicação, leva muitos potencias candidatos a procurarem vidas alternativas. Mesmo ganhando menos.

É hoje consensual, que a produtividade continuada só é possível com seres humanos equilibrados. E esse equilíbrio pressupõe um corpo são, uma mente sã e um equilíbrio descanso, trabalho e lazer.

É claro que um grande acelerador deste tipo de preocupações (não é só porque as organizações começaram a ser mais socialmente responsáveis porque são mais boazinhas) é a maior dificuldade de recrutar pessoas qualificadas que queiram viver para trabalhar. Por outro lado, também se foi percebendo que as pessoas inseguras, ultra-controladoras, com incapacidade de delegar, causam mais dano que proveito, mesmo passando muitas horas no escritório. Costuma-se dizer que “secam” tudo à sua volta. Finalmente, relativamente aos workaholics, por falta de melhores coisas para fazer, vai-se concluindo que, reeducados, tornam-se melhores profissionais.

As organizações em países mais desenvolvidos, têm-se vindo a preocupar, cada vez mais, com a componente do equilíbrio na sua força de trabalho. O já referido equilíbrio entre corpo e mente (e em alguns casos, espírito, para quem é mais dado a estes temas) tem provado melhorar os níveis de satisfação, produtividade e retenção nas organizações. Horários flexíveis, teletrabalho quando adequado, formação em técnicas de bem-estar, horários menores e benefícios flexíveis, são algumas das tendências que se têm vindo a observar no mundo empresarial.

E acelerar a mudança nesta direção está também na mão de cada um de nós. Como empregadores, há que ter a coragem de reorganizar o trabalho por forma a proporcionar mais qualidade de vida aos colaboradores. Como empregado, há que não se conformar como uma atividade profissional que seja esgotante e prejudicial para a vida pessoal. Felizmente, cada vez há mais alternativas de empregos justos.

O trabalho deve ser encarado como uma atividade que nos proporciona, para além do sustento, o sentimento de utilidade que nos permita viver uma vida plena e realizarmo-nos como pessoas.

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