Lara Luís é uma ilustradora portuguesa que se viu envolvida numa disputa com a Shein, depois de ter percebido que o site da marca vendia réplicas da sua autoria, sem a sua autorização.
“Na semana passada, curiosamente, instalei a aplicação da Shein no telemóvel e já tinha itens no carrinho. Sabia que é de origem chinesa e algo suspeita, mas nunca imaginei que fizessem plágio de designs de ilustradores. Muito menos, de um meu“, começou por explicar, há um mês, a ilustradora ao jornal i.
“Felizmente, não cheguei a fazer a encomenda e fui a tempo de boicotar a marca. Imagino que milhares de pessoas caiam na armadilha, não só pelos tamanhos grandes que são disponibilizados como pelos preços reduzidos”, lamenta Lara Luís.
A ilustradora confessa que pensou logo, “isto vai ser uma dor de cabeça. E depois entendi o quão inalcançável a marca é”. A Shein não disponibiliza nenhum contacto na página, nem na app.
“Já recebi relatos de artistas portugueses — como joalheiros ou designers de moda — que passaram pelo mesmo”, revelou. “Há uma rapariga influencer, proprietária de uma marca de biquínis, que teve um caso destes e andou muito na Internet. Ela não conseguiu resolvê-lo porque os designs estavam em várias lojas do AliExpress e acho que ela até comprou uma das réplicas, que era de má qualidade em relação ao dela. Houve imensas pessoas estrangeiras a queixar-se também”.
No fim, apesar de nenhuma ter conseguido uma resposta, a cópia do seu trabalho acabou por ser apagada. O sucedido fê-la, por incentivo dos seguidores, criar uma nova ilustração com a frase “You work and they copy”, uma forma de “dar uma bofetada de luva branca à marca”, apesar de duvidar que na Shein “estejam preocupados com isto“.
Shein é a plataforma com mais queixas em Portugal
O número de queixas sobre marketplaces internacionais como Shein, Wish, Aliexpress e Amazon cresceu 94% em 2021. Este é o resultado de um estudo do Portal da Queixa que identificou os atrasos ou problemas com a entrega das encomendas como o principal motivo de reclamação dos consumidores portugueses.
Com preços mais competitivos e formas de processamento e de encomenda intuitivos, estes marketplaces tornaram-se num local privilegiado de compras, principalmente durante o confinamento.
“Entre os dias 01 janeiro e 31 de julho de 2021, o Portal da Queixa recebeu um total de 997 reclamações dirigidas a marketplaces internacionais, um crescimento de 94% face ao período homólogo. De 01 de janeiro de 2020 até 31 de julho de 2020, foram registadas apenas 515 reclamações na maior rede social de consumidores de Portugal”, pode ler-se em informação divulgada pela plataforma.
Os dados mostram que os marketplaces internacionais mais reclamados pelos consumidores portugueses são: Shein (417 queixas), Wish (190), Aliexpress (168) e Amazon. Estes quatro representam 88% do total de reclamações registadas no período em análise.
Shein: Do que é a feita a nova rainha do fast fashion e a nova adversária da Zara?
No dia 17 de maio, a plataforma chinesa a baixo custo de venda de roupas Shein (pronuncia-se “she-in”) foi a aplicação com mais downloads nos EUA, num período de 152 dias. A empresa, focada em roupas, é neste momento encarada como um player de peso contra “grandes tubarões” do setor, como a Zara.
Depois da procura por vestuário ter duplicado em 2019, face ao ano anterior, 2020 foi o ano de ouro para a Shein que viu disparar as vendas para o triplo face ao período homólogo, levando a uma luta constantemente assumida pela empresa de ampliar a oferta. Só na última quinta-feira, a marca colocou mais 6.239 novos produtos à venda.
No último ano, a Shein foi avaliada em mais de 25 mil milhões de euros, segundo uma fonte anónima da empresa ligada à contabilidade, contactada pela Bloomberg. Tal é a sua dimensão, que a organização já se pode dar ao luxo de contratar a Goldman Sachs, Bank of America e o JPMorgan Chase & Co para consultores de uma alegada “oferta pública inicial que irá decorrer este ano”, segundo as mesmas fontes.
A empresa, quando confrontada com estes números e estes factos afirma apenas “que muitas vezes os dados são falsos” e não revela a sua avaliação. Quanto à OPI, a mesma afirma que “para já não está nada planeado”.
Porém, uma coisa certa, a Shein tornou-se um grande player do mercado do vestuário, contando com uma receita “com muitos números à direita”, que lhe deram margem para entrar na licitação para a aquisição da empresa têxtil britânica “Topshop”.
Embora a gigante chinesa tenha perdido o negócio para a Asos, que comprou a marca em licitação por 337,62 milhões de euros, o seu nome começou a ecoar ainda mais no mercado ocidental.
Para enfrentar “tubarões” como a H&M ou a Zara do Grupo Inditex, no segmento de fast-fashion, a Shein está a aproveitar a mão de obra fácil e barata, e o conhecimento engenhoso das cadeias de fornecimento. Além disso, a empresa sabe “nadar” entre as lacunas fiscais existentes nas relações comerciais entre a China e os EUA, e aprendeu que o “segredo é a alma do negócio”.
Quando em 2018 se intensificou a guerra comercial entre Washington e Pequim, a China reforçou as tarifas sobre as importações norte-americanas e intensificou, em muito, os apoios fiscais concedidos às empresas, reduzindo drasticamente os custos de produção de grandes organizações como a Shein. Por outro lado, quando Donald Trump decidiu retaliar contra o Governo de Xi Jinping com mais tarifas, isentou “importações de consumo direto com baixo preço”.
Estes dois fatores criaram a moldura perfeita para o crescimento exponencial da gigante chinesa.
Por outro lado, como esclarece uma investigação realizada pela Bloomberg, a empresa “não apresenta números, não explica como faz os processos de recrutamento, nem sequer como e onde obtém os materiais que costura”. “É extremamente difícil conseguir informação sobre esta entidade”, acrescenta a agência de informação.
Com o aumento da procura, devido ao confinamento, as vendas da Shein aumentaram 250% em relação ao ano anterior, gerando uma receita de 9,5 mil milhões de euros em vendas.






