Setor do espaço em Portugal pode gerar mais de 40 mil milhões de euros e 27 mil empregos até 2040, revela estudo da BCG

Conclusões constam do estudo “Portugal no Espaço – 2040”, elaborado pela Boston Consulting Group (BCG) para a New Space Alliances, no qual se propõe um roadmap concreto para transformar o setor espacial nacional num motor de crescimento económico, soberania estratégica, inovação e liderança tecnológica.

Francisco Laranjeira
Janeiro 30, 2026
15:53

Portugal tem uma oportunidade estratégica única para se posicionar como o hub atlântico da Europa em competências espaciais soberanas e interdomínio até 2040, podendo gerar mais de 40 mil milhões de euros de impacto acumulado no PIB.

Com esta aponta, o país pode criar 27 mil novos postos de trabalho (diretos e indiretos) – 6 mil dos quais altamente qualificados –, construindo-se uma economia espacial anual de cerca de 2 mil milhões de euros.

As conclusões constam do estudo “Portugal no Espaço – 2040”, elaborado pela Boston Consulting Group (BCG) para a New Space Alliances, no qual se propõe um roadmap concreto para transformar o setor espacial nacional num motor de crescimento económico, soberania estratégica, inovação e liderança tecnológica.

O relatório estratégico foi destacado em Bruxelas, na 18ª European Space Conference, por Alessio Bonucci, diretor associado da BCG, um dos oradores do painel “Definir prioridades para a Investigação e Inovação Espacial no próximo ciclo de financiamento”, juntamente com Manuel Heitor, que liderou o Grupo de Peritos para a avaliação intercalar do Horizonte Europa, entre outros representantes da DG DEFIS da Comissão Europeia, da EDA – Agência Europeia de Defesa, da ESA – Agência Espacial Europeia, bem como as entidades espaciais representantes da Suíça e da Eslováquia.

De acordo com dados oficiais, em 2023 o setor espacial português gerava 121 milhões de euros em receitas, representando apenas 0,03% do PIB nacional. Segundo o estudo, com a mobilização adequada de recursos públicos e privados, este valor poderá multiplicar-se por 17 vezes até 2040, atingindo 0,5% do PIB, colocando o espaço como uma área estratégica para o país.

“Esta janela de oportunidade estreita surge num contexto geopolítico atualmente em transformação, justificando-se assim a necessidade urgente de uma estratégia espacial portuguesa integrada – defesa, civil e comercial”, comenta Alessio Bonucci, diretor associado da BCG que apresentou o estudo em Bruxelas.

“Há, atualmente, uma crescente procura global por serviços espaciais, nomeadamente por áreas como defesa, sustentabilidade, observação da terra e conectividade. Só a União Europeia já canalizou mais de 10 mil milhões de euros em programas como o IRIS, GOVSATCOM, EU SST e outras iniciativas de dual-use da ESA. No futuro, estes fundos poderão ser canalizados para os países que demonstrarem capacidade de execução, especialização estratégica e escala industrial. Portugal encontra-se num momento decisivo: ou consolida e escala os ativos que construiu na última década, ou arrisca-se a perder relevância na ambição espacial europeia”, reforçou.

vestimento público como catalisador, privado como acelerador

Fortemente impulsionado pelo Estado, sobretudo nas fases iniciais devido à elevada intensidade de capital, ciclos longos de retorno e relevância estratégica, o estudo da BCG estima que, até 2040, o investimento continuará a ser maioritariamente público, mas com uma participação cada vez mais crescente de capital privado.

Um exemplo claro da mobilização eficaz de fundos europeus é a Constelação do Atlântico, em Portugal, desenvolvida no âmbito do PRR.

“A constelação já se encontra operacional e continuará a expandir-se, nomeadamente para capacidades de Vigilância e Reconhecimento Inteligentes (ISR), com recurso a inteligência artificial (IA), bem como para novas capacidades de fabrico de satélites, que devem ser ainda mais valorizadas”, afirma Manuel Heitos.

O caso português, segundo o mesmo responsável, “ilustra como capacidades nacionais emergentes podem contribuir de forma significativa para as capacidades espaciais coletivas da Europa e para a sua escala industrial. O objetivo último é reforçar a segurança e a prontidão europeias, acelerando a transição da base industrial espacial de um modelo de produção artesanal, de baixo volume e elevado custo, para uma industrialização competitiva e de grande escala”.

Esta transição é crítica para garantir a competitividade das soluções espaciais europeias e para reforçar os facilitadores industriais estratégicos ao longo da cadeia de valor, a favor da autonomia e da soberania europeias.

O investimento privado, atualmente residual (cerca de 5% em 2023, ou 7,5 milhões de euros/ano), deverá crescer progressivamente até 30% em 2040 (cerca de 130 milhões de euros/ano), impulsionado por capital de risco, reinvestimento das próprias empresas e maior maturidade do ecossistema.

Para atrair esse capital, o estudo identifica quatro alavancas principais:

– O Estado como cliente-âncora, garantindo procura previsível através da Defesa, proteção civil, ambiente e entidades marítimas
– Aposta em serviços e dados (downstream), com menor intensidade de capital e retornos mais rápidos
– Modelos de co-investimento público-privados, partilhando risco com o capital privado
– Clareza e simplificação regulatória, através de uma Lei do Espaço moderna e processos de licenciamento mais ágeis.

Um exemplo de sucesso de como o investimento público, combinado com privado, pode alavancar o sector espacial em Portugal é a Constelação do Atlântico – apontada no estudo como um ativo estratégico diferenciador, sendo uma das poucas constelações europeias capazes de fornecer imagens de muito alta resolução e radar (SAR), combinando resolução submétrica e revisita intradiária.

Para Emir Sirage, diretor executivo da recém-criada New Space Alliances, “federar e escalar a capacidade da Constelação do Atlântico é essencial para aumentar a soberania, a competitividade e o valor económico gerado de Portugal e da Europa. Se o país não apostar no desenvolvimento do espaço e na continuidade do trabalho que foi criado nos últimos três anos com o apoio financeiro do NextGeneration EU Funds –permitindo desenvolver capacidade, captar e reter talento e consolidar a cadeia de valor – o custo para o país pode ser elevado. Hoje, o espaço deixou de ser opcional: é uma prioridade estratégica e Portugal tem os ativos e a ambição para se tornar um player de referência na Europa. Com execução focada e uma estratégia clara, alianças internacionais, pode tornar-se uma referência global espacial a partir do Atlântico”.

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