Por Sofia Tenreiro, Presidente-executiva da Siemens Portugal
Depois de décadas de globalização, que levaram à deslocalização de setores industriais estratégicos e à dependência de cadeias de abastecimento externas, o continente europeu é hoje confrontado com a necessidade de aumentar a sua competitividade e de resolver muitas das fragilidades estruturais existentes.
Os desenvolvimentos geopolíticos e económicos recentes – desde a pandemia às tensões internacionais – obrigam a uma alteração de paradigma assente numa redução urgente da dependência externa, seja na área energética ou industrial, sobretudo em regiões onde a volatilidade é grande. A reindustrialização da Europa é, por isso, imperativa para aumentar a competitividade, a soberania e garantir um futuro sustentável.
Esta reindustrialização não é sinónimo de um regresso ao passado, mas sim de uma transformação na forma como desenvolvemos e produzimos, apostando numa indústria digital, descarbonizada e sustentável. Uma indústria capaz de criar valor acrescentado, gerar emprego qualificado e de responder aos desafios dos próximos anos, entre os quais, as alterações climáticas, e a escassez de recursos humanos. Neste caminho, a tecnologia assume, e assumirá cada vez mais, um papel central, sendo determinante a sua aplicação a mercados verticais estratégicos – como o automóvel, alimentar, farmacêutico e das ciências da vida, defesa e aeroespacial, data centers e power utilities, entre outros. A tecnologia assume também um papel fundamental ao nível de cyber e defense de todas empresas.
Neste âmbito, a Siemens convidou, inclusivamente, para as comemorações dos 120 anos da empresa em Portugal,12 associações empresariais nacionais a refletirem sobre o futuro destes mercados estratégicos, e de Portugal. Os seus importantes contributos foram reunidos no relatório “Visões de Futuro – Setores estratégicos que impulsionam Portugal”, que será apresentado em setembro, no nosso evento “Tech Day”.
Para concretizar este novo paradigma industrial, tecnologias como a inteligência artificial (IA) e o metaverso industrial assumirão, cada vez mais, um papel muito relevante. O metaverso industrial possibilita espelhar e simular, em ambientes virtuais, máquinas, fábricas, cidades e redes de energia e transportes, bem como outros sistemas altamente complexos, alcançando níveis de otimização, velocidade, segurança e inteligência nunca vistos.
No caso da IA Industrial, o impacto é particularmente relevante na gestão e otimização dos sistemas críticos das diferentes indústrias, que, pura e simplesmente, não podem falhar. No setor da indústria, por exemplo, a combinação da implementação certa de tecnologias de IA, permite aos fabricantes aumentar a eficiência e flexibilidade. Já em setores como os das infraestruturas e da energia, a IA desempenha um papel essencial para a integração crescente de energias renováveis no sistema elétrico, sem comprometer a estabilidade e a resiliência da rede. Esta capacidade de prever padrões de consumo, adaptar e gerir recursos de forma inteligente é, hoje, indispensável – sobretudo quando falamos de indústrias eletrointensivas, cuja competitividade depende, em grande medida, da disponibilidade de energia limpa, estável e acessível. Estas tecnologias têm, assim, um potencial enorme.
Neste âmbito, destacaria o sistema de armazenamento de energia e gestão de microrredes, que implementámos a pedido da Empresa de Electricidade dos Açores, na Ilha Terceira. Este projeto muito inovador recorre a redes neuronais e inclui um software de gestão e controlo de microrredes que permite monitorizar, em tempo real, os sistemas elétricos e fazer estimativas da produção e consumo de energia para vários dias e horas, com base em previsões meteorológicas e dados históricos. Desta forma, maximizamos a integração de energias renováveis, mantendo níveis elevados de qualidade, fiabilidade e continuidade no abastecimento elétrico da ilha.
Na Siemens, acreditamos que o futuro da indústria na Europa é promissor. Por este motivo continuamos a investir em território europeu e, mais concretamente, em Portugal, onde, há 120 anos, acompanhamos e impulsionamos as várias revoluções industriais. Os projetos que temos implementado em território português, em todas as nossas áreas de atividade – indústria, infraestruturas, mobilidade e saúde –, são exemplos do impacto positivo que a tecnologia e a engenharia “made in Portugal” podem ter na competitividade e na sustentabilidade. Estes são uma prova muito forte de que é possível criar e exportar soluções industriais a partir de território nacional. Porém, para devolver à Europa – e a Portugal – a sua força industrial é fulcral o reforço da aposta em áreas como a inovação. Esta é um dos grandes motores de crescimento e desenvolvimento das sociedades e será um fator diferenciador essencial para que a Europa consiga manter e reforçar a sua posição a nível global. Neste campo, localizar centros de investigação e desenvolvimento no bloco europeu é uma condição fundamental para garantir autonomia tecnológica e responder de forma rápida aos desafios emergentes. Também neste ponto, a nível mundial, a Siemens mantém uma aposta consistente em I&D, com investimentos anuais superiores a seis mil milhões de euros e mais de 1830 pedidos de patentes feitos na Europa em 2024. Destes, 25% são em machine learning e IA. Portugal é uma das seis regiões tecnológicas mais relevantes do mundo Siemens, contando com um hub da Foundational Technologies, o departamento central de I&D, que desenvolve as principais tecnologias que suportam a estratégia global da empresa, como a conectividade e o Edge ou a análise de dados e a IA.
Outras áreas extremamente relevantes que a Europa não pode negligenciar são o capital humano e o talento, sem os quais não existe inovação. E, claro, o capital, que deve ser aplicado a setores estratégicos para o crescimento, como a IA e a conectividade, os centros de dados, os portos e a logística, a energia renovável e o hidrogénio verde, a mobilidade sustentável ou a indústria. Por fim, tudo deve ser concebido, desenvolvido e decidido em ecossistema – pelas indústrias, empresas, Academia e Governos. Nenhuma tecnologia, organização ou sector será capaz de responder sozinha aos problemas reais das pessoas e das organizações.
Estou certa de que nesta reindustrialização europeia, Portugal tem todos os ingredientes para desempenhar um papel de destaque. Dispõe de uma localização estratégica, recursos energéticos renováveis, capital humano altamente qualificado e um setor industrial em evolução, cada vez mais focado na eficiência, na inovação e na sustentabilidade. Importa agora capitalizar estes ativos e posicionar o país como um destino atrativo para novos investimentos industriais e tecnológicos, garantindo um futuro mais próspero e sustentável para todos. Na Siemens, hoje, como nos últimos 120 anos, continuaremos a desenvolver projetos que impulsionem a reindustrialização sustentável de Portugal e da Europa, acreditando estarmos, assim, a contribuir para a construção de um futuro melhor.
Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 234 de Setembro de 2025














