Randstad Insight: O princípio e o fim

Por José Miguel Leonardo | CEO Randstad Portugal

Depois começaram a surgir mais oportunidades e os pais esforçavam-se para motivar os seus filhos ameaçando que só mesmo um curso superior garantia um bom emprego. E foi verdade, em tempos foi mesmo assim, um curso era igual a um emprego. Uma vida profissional garantida ou a ideia de que estaria garantida, numa empresa em que pudesse ser para sempre. A estabilidade que não se questionava porque parecia ser mais importante do que a realização ou do que a ambição de experimentar outros mundos. Mas nem mesmo nesse tempo, no dos meus avós, no meu ou no nosso, as garantias de empregabilidade dependiam exclusivamente de um diploma. Davam mais certezas, mas o caminho era de cada um, trilhado por competências, por uma estratégia, pela ambição, pela perseverança. Por isso houve quem desafiasse uma história que parecia já escrita e uma certeza de que seria para sempre, para ir para outra empresa, mudar de experiência e seguir um novo caminho. E nos percursos que fazemos não devemos desvalorizar a sorte. A sorte também tinha um papel importante, uma sorte com muito suor, muita transpiração, que incrementava o potencial de sucesso mas que nunca garantiu a vitória por si só. E afirmar que a universidade não é um garante de emprego ou de uma carreira de sucesso não é desvalorizar a academia assim como não a coloco num lugar diferente do ensino politécnico ou profissional. Aprender e estudar são verbos que temos de conjugar a vida toda e que temos de combinar com a curiosidade, a disponibilidade e a relevância.

Mas comecemos pelo princípio. O princípio que é o fim em si mesmo: a felicidade. Quando pensamos na nossa vida profissional devemos pensar no que nos faz feliz e não aprofundar qual a função que tem maior empregabilidade, ou onde posso ter o melhor salário. É preciso encontrar o que gostamos de fazer, o que nos apaixona e nos move. Reconhecer as nossas competências e fraquezas para acompanhar com uma estratégia de formação, com mentoria e com coaching.

A universidade, as escolas têm um papel fundamental neste processo, não apenas na ajuda a encontrar a profissão, mas também no desenvolvimento individual. Aprender a aprender, aprender a pensar, aprender a questionar, aprender a ouvir. Uma aprendizagem que nos dá ritmo e que nos faz crescer o que deixarmos. Porque o que é exigido pelo programa deve ser acompanhado pelo que eu exijo aos meus professores, à academia e aos meus colegas. O que exijo a mim mesmo, quem quero ser e no que me quero tornar, misturando humildade com resiliência, ambição com altruísmo e a razão com o coração. Nada do que disse até agora é novo, mas o que é diferenciador é que se assumirmos este papel principal, o papel principal da nossa vida e se escrevermos o guião e o representarmos vamos atingir o nosso fim, que recordo mais uma vez não é uma função, nem um salário, mas é sim ser feliz.

Na estratégia de chegarmos onde começa e tudo termina, na actuação de exigir dos outros e de nós, temos de ter a capacidade de contaminar, contaminar quem nos rodeia com esta exigência, não como se fosse algo mau e mas sim como uma obrigação de cada um para com os outros e com a vida. A exigência contamina e cria uma cultura que elimina a mediocridade, que a afasta. E na nossa vida escolar é preciso criar uma relação de parceria entre universidade e alunos, entre professores e comunidade que não se baseie apenas na relação de quem paga propinas, mas sim num propósito maior, o propósito de aprender, porque o sucesso de cada um depende de ambos, dos alunos e da universidade.

Amanhã, o dia vai começar numa empresa. E aqui por muito que se tenha tentado estreitar este fosso ele ainda existe, um fosso que tem de ser um pequeno passo, um caminho natural porque voltamos à sala de aula mesmo na nossa vida profissional e vamos ter de o fazer cada vez mais vezes. Nesta relação passam a estar também as empresas. Já não é apenas o aluno e as escolas, são as empresas que se têm que genuinamente apresentar, criar relação e contribuir, para que as aprendizagens não se distanciem do que é o dia-a-dia dos profissionais, para que a aprendizagem responda às verdadeiras necessidades das empresas e não a um currículo académico que nunca chega a ser colocado em prática. Porque cada vez mais as organizações e as universidades estão juntas, mas também porque cada aluno deve ter o seu plano individual para se preparar para o dia de amanhã, nas empresas. Part-times, trabalhos pontuais, conferências e a curiosidade de acompanhar a pegada digital das empresas, não olhando para os conteúdos de forma desinteressada, mas questionando como se faz, qual o objectivo, qual o propósito. E esta é uma vantagem das gerações de hoje. Hoje podemos ser empreendedores, podemos interagir com líderes empresariais nas redes sociais, ouvi-los no clubhouse, ter entrevistas de emprego antes de acabar o curso, desenvolver programas de career counselling, ter experiências e contactar com um mundo que afinal é parte do mesmo mundo onde vive a universidade, onde vivem as escolas, onde todos vivemos.

E nem sempre a idade vai ajudar, porque entre as vontades que parecem querer saltar pela boca não estão necessariamente conversas sobre emprego ou estratégias de competências. Mas é também esta idade que tem a energia para absorver conteúdos que ultrapassam a barreira do tempo, para questionar sem medo de ouvir a resposta, para fazer e para já hoje serem relevantes. O mundo é dos que sentem agora a barba a começar a crescer, dos que já podem votar e o fazem, dos que têm opinião porque sabem que podem ter opinião e querem ser felizes. O mundo é dos que perguntam porque são curiosos, porque querem saber mais. Dos que estão disponíveis para ver, ouvir, aprender, estar. O mundo é dos que querem e dos que são relevantes, relevantes porque contribuem, fazem, agem e porque todos os dias de manhã enfrentam o guião da vida que não está escrita.

Todos e cada um chamados a exercer a sua liderança individual. A liderança que tem de ter a visão do que querem fazer amanhã mas também no depois de amanhã, não apenas para o seu umbigo mas também a pensar nos filhos e netos, nos que já têm e nos seus, que há-de ter, ambicionando sempre mais e melhor. Aprendendo e acima de tudo encontrando a felicidade, porque ser feliz é sempre o princípio e o fim de tudo.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 181 de Abril de 2021

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