O mercado de trabalho em Portugal depara-se com um duplo desafio estrutural. Por um lado, o envelhecimento demográfico acentuado que se verifica há vários anos, e por outro, a persistente dificuldade em reter o talento em setores-chave. Em ambas as situações, o talento sénior pode ser protagonista: é parte da transformação demográfica e, ao mesmo tempo, uma solução viável para a escassez de mão de obra qualificada.
A estrutura demográfica portuguesa mostra uma crescente fatia da população nas faixas etárias mais elevadas. As projeções indicam que, nas próximas décadas, a população com mais de 55 anos continuará a aumentar significativamente o seu peso no total de habitantes.
Esta realidade tem um impacto no mercado de trabalho. Os profissionais com mais de 55 anos já representam uma parcela substancial dos profissionais ativos, e a sua importância deve continuar a crescer dada a evolução do emprego e o contexto demográfico.
A formação é um fator crucial neste grupo. Os indivíduos com níveis de escolaridade mais altos, demonstram geralmente melhores taxas de atividade e emprego dentro da sua faixa etária. Contudo, para o talento sénior com qualificações mais baixas, as dificuldades no mercado de trabalho tendem a ser mais evidentes.
A situação mais preocupante surge quando o profissional sénior entra em situação de desemprego, porque estes profissionais enfrentam maiores barreiras à reintegração.
Perante este cenário, este relatório tem por objetivo mostrar a realidade do talento sénior e as suas implicações no mercado de trabalho.
O talento sénior (55 – 64 anos) em Portugal demonstra uma integração e uma performance no mercado de trabalho superiores à média nacional. Com uma população base de 1,5 milhões de pessoas (14,1% da população total), este grupo regista uma taxa de atividade de 71,4% e uma taxa de emprego de 67,6%, ambas as taxas 11 pontos percentuais superiores às da população geral (60,2% e 56,4%, respectivamente). A sua taxa de desemprego é 1,4 p.p. inferior a média do país.
Apesar do contexto de envelhecimento demográfico, o principal desafio para o mercado de trabalho português não reside na ativação inicial deste grupo, mas sim em desenvolver estratégias eficazes para reter, valorizar e permtir a transferência do conhecimento destes profissionais.
INTENSIFICAÇÃO DO ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO
As projeções demográficas para Portugal revelam uma transformação na estrutura etária da população entre 2024 e 2050.
Esta mudança não só reforça o desafio do envelhecimento, mas também sublinha a importância de políticas focadas no talento sénior para a sustentabilidade do mercado de trabalho.
O peso da população com mais de 55 anos passa de representar 38% para 46% (aumentando em 370 mil de pessoas) no ano 2050, isto é quase a metade da população total.
A população com menos de 30 anos reduz o seu peso em 3,4 pontos percentuais. (diminuindo em mais de 611 mil pessoas). A projeção indica que, apenas 1 em cada 4 portugueses terá menos de 30 anos. Isto significa que no ano 2050, a juventude será uma minoria. O grupo sénior (+55 anos) será o dobro do grupo mais jovem (- de 30 anos).
O CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO ENTRE OS 55 E 64 ANOS
A população com idades compreendidas entre os 55 e os 64 anos (talento sénior) tem registado um crescimento constante em Portugal na última década. Em 2024, esta faixa etária atingiu 1.491.685 pessoas. Este valor representa 14% da população total do país (10.639.726 pessoas).
A faixa etária dos 55 aos 64 anos em Portugal está em expansão. Nos últimos dez anos, este grupo cresceu 12%, incorporando mais de 159.000 pessoas e elevando a sua representatividade de 12,8% para 14% da população total.
É ainda relevante notar que este capital humano é maioritariamente feminino (53,2%), um reflexo do desafio da longevidade e da necessidade de reter a experiência e o conhecimento destas profissionais no mercado de trabalho.
A FORÇA DE TRABALHO ENTRE OS 55 E OS 64 ANOS
A população ativa portuguesa na faixa etária dos 55 aos 64 anos atingiu o seu ponto mais alto em 2024, fixando-se em 1.071.000 pessoas. Este contingente representa 19,6% do conjunto total da população ativa.
Este crescimento não tem sido apenas nominal, mas também tem sido rápido: a taxa de crescimento homólogo da população ativa sénior tem sido consistentemente positiva, com uma média de 4,8% ao ano no período de 2014 a 2024.
No que concerne à composição por género, o grupo dos ativos entre 55 e 64 anos está praticamente equilibrado, embora com uma ligeira vantagem feminina: os homens representam 49,5% (530.300 pessoas) e as mulheres representam 50,5% (540.700 pessoas) do total de ativos desta faixa etária.
QUASE 24% DO TALENTO EMPREGADO É SÉNIOR
A população empregada em Portugal na faixa etária dos 55 aos 64 anos atingiu também um novo máximo histórico em 2024, fixando-se em 1.013.000 pessoas. Assim como acontecia com a atividade, este crescimento tem sido consistente, impulsionado por uma taxa média de crescimento homólogo de 5,8% ao ano ao longo da última década. Como resultado, este volume de profissionais já representa 19,8% do total de empregados no país, um peso que sublinha a crescente dependência do mercado de trabalho a este grupo mais sénior.
Em apenas dez anos, a representatividade da faixa etária 55 – 64 anos aumentou 7 p.p., passando de 13,6% dos empregados em 2014 (579.800 pessoas) para 19,8% atuais.
Em termos de género, 50,4% são mulheres e 49,6% homens, o que representa uma composição equilibrada.
O PESO DOS SÉNIORES NO DESEMPREGO AUMENTOU
O grupo dos desempregados entre os 55 e os 74 anos tem vindo a ganhar uma representatividade crescente no total de pessoas desempregadas em Portugal.
Em 2024, o número de desempregados nesta faixa etária era de 63.500 pessoas. Embora o número absoluto de desempregados séniores tenha diminuído significativamente face a 2014 (quando era de 103.300), o seu peso no total de desempregados aumentou. Este peso passou de 14,2% em 2014 para 18,1% em 2024, um ganho de quase 4 pontos percentuais em dez anos.
No que respeita à composição por género, a situação de desemprego na faixa etária 55 – 74 anos afeta mais as mulheres: as mulheres representam 52,6% e os homens representam 47,4% do total de desempregados deste grupo.
DESEMPREGO DE LONGA DURAÇÃO
Um dos maiores desafios para os profissionais +55 é o desemprego de longa duração (que engloba as pessoas que estão há 12 ou mais meses à procura de emprego). Esta situação afetou um total de 129.500 pessoas em Portugal em 2024. Este número representa uma ligeira diminuição face a 2023, mas a distribuição deste fenómeno pelas faixas etárias revela uma preocupação particular com os profissionais +55.
Os profissionais séniores demonstram ser os mais vulneráveis a longos períodos de desemprego, com o grupo dos 55 aos 74 anos a constituir o maior segmento de desempregados de longa duração em Portugal. Embora o número absoluto neste grupo tenha diminuído ligeiramente em 2024 para 37.300 pessoas, a sua representatividade mantém-se crítica, detendo o maior peso individual no gráfico ao ser responsável por 28,8% do total de desempregados há 12 e mais meses.
DESAFIOS EUROPEUS
O envelhecimento populacional e a renovação geracional
A POPULAÇÃO +55 ANOS NA EUROPA HOJE
O envelhecimento demográfico é um dos desafios estruturais mais significativos que a UE vai enfrentar nas próximas décadas. Neste cenário comunitário, Portugal posiciona-se como um dos países com a estrutura populacional mais envelhecida.
Com 38,1% da sua população total com mais de 55 anos, Portugal ocupa o segundo lugar no ranking europeu, ficando apenas atrás da Itália (39,8%) e empatado com a Alemanha.
Esta percentagem é superior à média da UE (35,5%), o que coloca o país no grupo de nações que enfrentam o desafio demográfico de forma mais intensa.
Esta alta proporção de indivíduos com mais de 55 anos em Portugal, destaca-se por mais de 10 pontos percentuais face a países como a Irlanda ou o Luxemburgo (os menos envelhecidos).
A POPULAÇÃO +55 ANOS NA EUROPA EM 2050
As projeções da Eurostat para 2050 apontam para uma intensificação do envelhecimento em Portugal. A percentagem de população com mais de 55 anos vai passar dos 38,1% em 2024 para 45,9% em 2050. Isto significa que, em apenas duas décadas e meia, Portugal terá quase metade da sua população na faixa etária sénior, o que se traduz num aumento da pressão demográfica sobre os sistemas sociais e uma dependência do talento sénior na força de trabalho.
De acordo com os dados de projeção para 2050, a percentagem da população com mais de 55 anos na UE será, em média, de 41,6%. Apesar deste aumento, a posição de Portugal no ranking da UE vai cair ligeiramente, de 2º para 4º lugar. Contudo, Portugal permanece no grupo de países onde o desafio é mais agudo, com a sua percentagem de 45,9% a superar consideravelmente a média da UE (41,6%).
O EMPREGO DO TALENTO SÉNIOR (55-64 ANOS)
Os dados de 2024 confirmam que o talento sénior se estabeleceu como um pilar estrutural no mercado de trabalho europeu, com uma média de 19,4% dos empregados na UE a ter entre 55 e 64 anos. Este número significa que quase 1 em cada 5 profissionais europeus é sénior, e isto é ainda mais elevado em países como a Alemanha (23%) e a Itália (22,3%).
Portugal encontra-se ligeiramente acima da média, ocupando a 6.ª posição com 19,8% do seu total de empregados nesta faixa etária. O facto de quase um quinto dos trabalhadores portugueses serem séniores demonstra a sua contribuição vital para o emprego nacional. No entanto, cria uma vulnerabilidade: esta grande massa de capital humano está na iminência de se reformar. O desafio estratégico para Portugal passa, assim, por eliminar as barreiras à longevidade profissional, garantindo a taxa de emprego deste grupo e minimizando o impacto da saída de quase 20% da sua força de trabalho nos próximos anos.
O DESEQUILÍBRIO DEMOGRÁFICO ACENTUA-SE NA UE
Uma forma de medir o potencial de substituição demográfica no meio termo é através da taxa de renovação geracional. Isto é o rácio da população dos 10 aos 19 anos em relação à dos 55 aos 64 anos. Esta proporção identifica quantos jovens existem por cada pessoa entre os 55 e os 64 anos. Este é o processo pelo qual a força de trabalho de um país é renovada à medida que uma geração mais sénior se retira do mercado de trabalho e é substituída por uma geração mais jovem.
Esta análise revela uma deterioração acentuada no potencial de substituição da força de trabalho na UE, que tem agora apenas 8 jovens a entrar para cada 10 profissionais seniores a sair do mercado de trabalho, quando em 2004, entravam 11 por cada 10 que saiam.
O DESEQUILÍBRIO DEMOGRÁFICO É AINDA MAIS CRÍTICO EM PORTUGAL
Portugal está entre os países onde o problema é mais agudo, registando a 4.ª pior taxa da UE. O nosso país caiu de um ligeiro excedente (103% em 2004) para uns críticos 68% em 2024, sendo apenas superado pela Alemanha, Itália e Áustria.
Esta taxa de 68% em Portugal significa que, no futuro próximo, o país não terá substituição natural para as saídas por reforma, existindo apenas 7 jovens (10-19 anos) para cada 10 profissionais (55-64 anos) prestes a deixar o mercado de trabalho. Este défice estrutural de talento acentua o desafio demográfico e obriga Portugal a depender de forma crítica do prolongamento da vida ativa dos seus profissionais séniores, bem como da imigração de jovens trabalhadores, para evitar uma contração da sua força de trabalho.
Consulte este estudo completo e outros no site da Randstad Portugal em www.randstad.pt/randstad-research/
Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 238 de Janeiro de 2026














