O Euro Digital é muitas vezes apresentado como uma evolução natural do sistema financeiro europeu. O velho continente procura, desta forma, reforçar a sua autonomia estratégica, reduzir a dependência de operadores internacionais e garantir que a moeda pública mantém um lugar numa economia cada vez mais digital. No entanto, na outra face da moeda, trata-se de uma transformação mais profunda do que a criação de uma nova forma de pagamento. Ao tornar a moeda emitida pelo Banco Central Europeu numa infraestrutura inteiramente digital, altera também a relação entre cidadãos, instituições e dinheiro.
O verdadeiro debate, talvez não seja tecnológico. Seja institucional. Ao longo da História, o dinheiro foi muito mais do que um meio de pagamento. É uma história que nos faz acreditar que o número que nele aparece é realmente o seu valor. É talvez das mais antigas e das melhores histórias inventadas pelo ser humano que arrumou com a arcaica e impraticável troca de bens e se tornou em um instrumento de liberdade.
O Euro Digital altera esta relação. Não apenas porque digitaliza o dinheiro, mas porque transforma a própria moeda numa infraestrutura tecnológica. E qualquer infraestrutura digital depende de regras, software e mecanismos que podem evoluir ao longo do tempo.
O risco não está necessariamente nas intenções originais, está no facto de a tecnologia nunca ser estática e a mente humana ainda menos. As prioridades políticas mudam, as leis evoluem e aquilo que hoje parece impensável pode tornar-se possível num contexto completamente diferente. É precisamente por isso que as infraestruturas críticas devem ser desenhadas não apenas para responder aos desafios do presente, mas também para proteger os cidadãos de riscos futuros.
Importa reconhecer que o Euro Digital pode trazer benefícios relevantes. Pode reforçar a soberania financeira europeia, promover inovação e aumentar a eficiência dos pagamentos. Mas uma inovação desta dimensão não deve ser avaliada apenas pela conveniência que oferece. Deve também ser medida pela confiança que consegue preservar.
O dinheiro físico continua a desempenhar um papel importante porque oferece redundância. Funciona durante falhas tecnológicas, não depende de redes de comunicação e constitui uma alternativa sempre disponível. À medida que a sua utilização diminui, é de garantir que essa alternativa não desaparece apenas porque deixa de ser conveniente e que os cidadãos menos digitalmente letrados não passem eles a ser o inconveniente.
O futuro do dinheiro será inevitavelmente mais digital. A verdadeira questão é saber se conseguiremos assegurar que essa evolução preserva os direitos dos cidadãos europeus e os princípios que tornaram o dinheiro uma das instituições mais confiáveis das sociedades modernas. Porque, no fim, a inovação monetária não se mede apenas pela tecnologia que incorpora. Mede-se pela liberdade e pela confiança que continua a garantir aos cidadãos. A liberdade de consumir livremente e na privacidade e a confiança na história que um pedaço de papel representa.
Depois, as notas e as moedas pequenas e escuras de Escudos e Euros guardados nas gavetas dos móveis das gerações anteriores tornar-se-ão mais valiosos. Será o último acenar da mão invisível de Adam Smith, conhecido como o “pai da economia moderna” e do liberalismo económico. Nem mercado, nem pessoas. Somente Estado e algoritmos.





