A associação de proprietários do Alqueva refutou hoje a “tese alarmista” da Quercus em relação àquele empreendimento “de que o regadio compromete o abastecimento público” de água, frisando que este fim tem precedência sobre qualquer outro.
“É imperativo desmistificar a tese alarmista de que o regadio compromete o abastecimento público. A Lei da Água é o nosso pilar ético inegociável: a precedência do consumo humano é absoluta e insofismável”, argumentou a Associação de Beneficiários e Proprietários do Alqueva (APBA) em comunicado.
Numa nota enviada à agência Lusa, assinada pelo presidente António Vieira Lima, a APBA esclareceu que “o Alqueva não é uma ameaça às populações”.
“É, sim, a reserva estratégica que impede que o espetro da escassez [de água] atinja as habitações alentejanas”, frisou.
A associação de proprietários emitiu esta posição na sequência do comunicado divulgado também hoje pela associação ambientalista Quercus, que acusou o Governo de “má gestão” da albufeira do Alqueva, no Alentejo, por considerar que a disponibilização de mais água para regadio coloca em causa as necessidades para consumo humano e indústria.
“O Ministério da Agricultura e Mar cedeu, uma vez mais, às pretensões do regadio intensivo ao premiar a expansão sem regras do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) com um aumento do volume de água disponível para esta atividade”, criticou a Quercus.
Assinalando que o “regadio vai ter mais 100 milhões de metros cúbicos por ano”, os ambientalistas defenderam que o ministério liderado por José Manuel Fernandes desvaloriza “as necessidades de água para consumo urbano e indústria, matéria da exclusiva responsabilidade do Ministério do Ambiente e Energia”.
Citada no comunicado, a presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, afirmou que o aumento das captações de água e a expansão territorial do regadio colocarão “em causa o abastecimento para consumo humano, principalmente em futuras situações de seca severa, fenómeno cada vez mais registado em Portugal”.
Segundo a associação ambientalista, o Governo decidiu, através de despacho interministerial, aumentar o volume anual de água a extrair de Alqueva em 110 milhões de metros cúbicos, mas, destes, “100 milhões serão destinados ao regadio e apenas 10 milhões para consumo urbano e industrial”.
Em reação, os proprietários do Alqueva consideraram que a postura da Quercus “carece de rigor técnico e assenta numa narrativa demagógica, que ignora a complexa e bem-sucedida realidade socioeconómica” do Alentejo.
“Sublinhamos que a Lei da Água é cumprida com rigor, mantendo-se a prioridade absoluta ao consumo humano”, pode ler-se no comunicado, no qual a associação insistiu ainda que o Alqueva “permanece como o maior garante de resiliência para as populações em períodos de seca”.
E “o recente reforço de 10 milhões de metros cúbicos para fins urbanos não é um ‘consolo’, mas sim o atendimento pleno e rigoroso das necessidades projetadas” para o futuro.
“Classificar o regadio moderno como ‘destrutivo’ é um anacronismo intelectual. O paradigma que defendemos é o da agricultura de precisão, onde cada gota de água é gerida como um ativo precioso e insubstituível”, contrapôs a associação.
No comunicado, a APBA defendeu ainda que a produção agrícola do EFMA “é o garante da soberania alimentar” do país e que o projeto “constitui-se como uma barreira ecológica contra o avanço das alterações climáticas”, combatendo a erosão “através de uma gestão ativa dos solos e da manutenção do coberto vegetal”.
Na semana passada, a associação ambientalista Zero também criticou esta decisão do Governo, acusando-o de acabar “com a resiliência de Alqueva como reserva estratégica de água” e premiar “a má gestão do regadio”.
O Governo aprovou, recentemente, um novo enquadramento estratégico para a gestão do empreendimento, que aumenta o volume de água utilizável para a agricultura, abastecimento público e indústria.



