Cartões-presente de milhares de dólares, financiamento de hospitais, apoios a médicos e favores pessoais. Milhões de documentos tornados públicos revelam como Jeffrey Epstein utilizou dinheiro e relações privilegiadas para criar uma vasta rede de contactos influentes, que se manteve ativa apesar das acusações de tráfico sexual e abuso de menores.
Durante anos, Jeffrey Epstein conseguiu manter relações próximas com figuras influentes de diferentes setores, desde a banca e a justiça até à medicina, ao ensino superior e à política. Uma investigação da France 24 mostra como o financeiro, condenado por crimes sexuais, recorreu a presentes, financiamento e favores pessoais para consolidar uma rede internacional de contactos.
A análise de milhões de documentos desclassificados, incluindo correspondência eletrónica, revela um padrão de ofertas e intervenções em benefício de advogados, financeiros, médicos e académicos. Entre os exemplos identificados estão cartões-presente de 10 mil dólares da cadeia Bloomingdale’s, financiamento de tratamentos médicos e tentativas de facilitar a entrada de estudantes em universidades prestigiadas.
Epstein também canalizou dinheiro para instituições com influência pública, nomeadamente universidades e hospitais. Estes apoios ajudavam-no a estabelecer relações com pessoas e organizações que ocupavam posições relevantes na sociedade.
Médicos financiados por Epstein também trataram vítimas
Uma investigação publicada pelo The New York Times em fevereiro de 2026 revelou que Epstein investiu quantias significativas em projetos de investigação e fundações associados a vários médicos americanos.
Segundo essa investigação, alguns dos profissionais que beneficiaram do seu financiamento aceitaram prestar cuidados de saúde não apenas ao próprio Epstein, mas também às suas vítimas.
Os tratamentos incluíam consultas de medicina dentária e exames ginecológicos, alguns realizados nas propriedades do financeiro. Num dos episódios descritos, um médico terá dado 35 pontos na testa de uma vítima, utilizando a mesa da sala de jantar de Epstein.
A France 24 sublinha, contudo, que algumas das pessoas que receberam benefícios afirmam que a ajuda lhes foi prestada sem terem tomado a iniciativa de a solicitar.
Favores pessoais e influência junto de famílias poderosas
A utilização de contactos para resolver problemas pessoais também fazia parte da estratégia atribuída a Epstein.
Uma investigação da Bloomberg revelou que, em 2017, o financeiro terá recorrido à sua influência para ajudar Alice, filha de Ariane de Rothschild, a conseguir entrar na Universidade de Nova Iorque, apesar das preocupações existentes relativamente às suas classificações nos exames SAT, utilizados nos processos de admissão ao ensino superior americano.
Contactado pela France 24, um porta-voz da família Rothschild afirmou que Alice não podia ser responsabilizada por aquilo que descreveu como iniciativas unilaterais de Epstein.
A mesma investigação da Bloomberg identificou outros exemplos de favores que terão permitido ao financeiro aprofundar as suas relações pessoais. Entre eles estavam o pagamento, durante vários anos, de tratamentos de fertilização in vitro de um advogado, a ajuda prestada a um cliente para ocultar uma relação extraconjugal e o aconselhamento discreto de responsáveis governamentais sobre documentos confidenciais.
Estes episódios ilustram uma forma de influência que ultrapassava os contactos profissionais e se estendia a questões íntimas, financeiras e institucionais.
Mulheres e raparigas no centro da rede de exploração
Por detrás desta estrutura de relações encontravam-se as vítimas de Epstein, mulheres e raparigas recrutadas pelo financeiro e, em alguns casos, apresentadas a homens poderosos.
As mensagens divulgadas mostram a forma como Epstein se referia a estas mulheres. Numa comunicação enviada a um homem, em 2013, escreveu: «Uma nova para ti». Noutra mensagem, perguntou a um destinatário que tipo de personagem gostaria de receber a seguir.
De acordo com a investigação da France 24, a operação de tráfico sexual manteve-se durante anos com o apoio de funcionários que desempenhavam diferentes funções.
Alguns estavam encarregados de encontrar e recrutar vítimas, recorrendo a falsas agências de modelos ou procurando jovens nas imediações de escolas secundárias situadas em bairros desfavorecidos. Outros asseguravam a gestão das estruturas financeiras associadas às atividades de Epstein.
O papel dos funcionários na manutenção da estrutura financeira
Uma investigação do The Wall Street Journal, publicada em novembro de 2025, analisou o papel de Richard Kahn, contabilista de Epstein, e Darren Indyke, seu advogado, na administração das numerosas entidades empresariais ligadas ao financeiro.
Segundo a jornalista de investigação Khadeeja Safdar, do The Wall Street Journal, ambos apresentavam explicações aos bancos quando surgiam perguntas sobre movimentos suspeitos nas contas de Epstein.
«Ambos justificavam as transações suspeitas nas contas de Epstein quando os bancos faziam perguntas», explicou a jornalista à France 24.
A atuação destes colaboradores constitui uma das vertentes analisadas na investigação, que procura compreender de que forma a rede continuou a funcionar durante tantos anos, apesar das acusações de abusos sexuais de menores.
A France 24 reuniu os testemunhos de Safdar e de outros especialistas numa investigação em vídeo sobre a rede de Jeffrey Epstein, conduzida pelas jornalistas Samia Metheni e Ava Luquet.
O trabalho examina não apenas as relações pessoais do financeiro, mas também os mecanismos institucionais, profissionais e financeiros que contribuíram para sustentar a sua influência e as atividades que desenvolveu ao longo dos anos.














